A ARTE DO ENCONTRO: POÉTICAS DO EU COMO PROCESSO CRIATIVO

‘Pensam que imagino; não é verdade, recordo-me’.
Dizia alguém que sabia compor magistralmente.

Van Gogh

Enquanto mergulhava nas leituras de “Cartas a Théo” (1914), livro a qual reúne diversas correspondências escritas pelo artista Vincent Van Gogh para seu irmão Théo durante um longo período de suas viagens e estadias pelos cantos da Europa, ao mesmo tempo em que se descobre timidamente ser um pintor, pensei brevemente em outro livro a qual havia lido anteriormente intitulado “Acasos e Criação Artística” (1990), este escrito pela artista brasileira Fayga Ostrower, no qual faz diversas analogias em volta de processos criativos e “felizes coincidências” que são ou estão presentes em nosso cotidiano e que parecem surgir do nada. Deste modo, este ensaio reúne algumas reflexões e analogias referentes a estes dois artistas que apresentam, em suas escritas, poéticas de um eu criativo que surge através de experiências, vivências, contemplações e tentativas ao longo do tempo.

Vale ressaltar que Vicent Van Gogh (1853-1890) foi e ainda é uma das grandes referencias do movimento Pós-Impressionista. Infelizmente, quando ainda vivo, não era (de certo modo) valorizado como um artista, o que contribuiu para a intensificação dos sintomas da depressão, com a qual lidou por boa parte da vida, resultando em uma repentina e trágica tentativa de suicídio.

Por outro lado, temos Fayga Ostrower (1920-2001), uma das grandes mulheres brasileiras artistas que atuou em diversas áreas tais como gravura, pintura, desenho e ilustração, além de ser crítica de arte e professora. Fayga teve seus trabalhos expostos em museus de arte do Brasil e também da Europa, além de lecionar no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), em Atlanta (EUA), Londres (Inglaterra) e na pós-graduação de diversas universidades brasileiras, tendo também a criação do Instituto Fayga Ostrower – inaugurado em 2002, logo após sua morte, em 2001.

Começo este ensaio através de um dos muitos livros de Fayga sobre processos criativos, estes que são referências não apenas no repertório das artes, mas também em diversas áreas do conhecimento. No livro Acasos e Criação Artística, mencionado anteriormente, a artista reúne reflexões em volta de suas experiências e de seu olhar sensível para com o mundo e como estes lhe tornaram a mulher e artista a qual conhecemos. Fayga nos conta que “criar é essencialmente um processo, um caminho de crescimento: de aprender, conhecer e compreender, de compreender-se e desenvolver-se, de realizar-se naquilo que cada um traz de melhor dentro de si em termos de potencial individual. É um caminho da sensibilidade e da imaginação”.

Contradizendo as possíveis coincidências e/ou insights, Fayga argumenta que só é possível que estes sinais aconteçam, de fato, quando nós já estamos esperando por algo, especialmente quando nos permitimos perceber o mundo a nossa volta, quando nos atentamos aos mínimos detalhes e que, assim que estes acasos surgem em nossa atenção, automaticamente conectamos aos nossos desejos, encontrando, enfim, uma oportunidade concreta de se manifestar.

Além destas reflexões, Fayga traz debates em relação à maturidade para criar e se encontrar verdadeiramente e perceber-se como um artista através de suas vivências, experimentações e percepções. Daqui, incluímos as palavras de Vincent Van Gogh presentes no livro Cartas a Theo, nas quais, além de trazer escritos, registros e pequenos esboços de suas descobertas em diferentes lugares da Europa, Vincent fala também dos desafios encontrados a partir do momento em que decide tornar-se um artista. Nas cartas, Van Gogh também descreve diversas obras, estilos, técnicas e texturas de diferentes obras, artistas e lugares para seu irmão ao longo de sua trajetória.

Para Fayga, artista é aquele que, acima de tudo, trabalha e produz com amor e encontra-se intimamente enquanto o faz. É nestes encontros, que a verdadeira obra e o verdadeiro artista se fazem, assim como o caso de Van Gogh que, ao passar por momentos de indecisão e incerteza, e que depois de tanto relutar, aceitou-se como um artista, apesar das grandes dificuldades. Podemos notar, através de seus escritos também, uma linha tênue entre imaturidade e a maturidade do artista, que foi desaparecendo a partir do momento em que mergulhou de cabeça no que lhe fazia verdadeiramente feliz – outro ponto também abordado por Fayga Ostrower.

As poéticas do eu como processo criativo seguem presentes durante toda a nossa vida ora como artistas, ora como qualquer outro profissional. Não necessariamente surgindo em situações difíceis ou felizes demais, mas quando reconhecemos nosso valor e quando compreendemos nós mesmos, quando olhamos para dentro de nós e abraçamos o que vemos, assim como assumimos um olhar mais sensível para conosco e para com o mundo ao nosso redor. Deste modo, a criatividade e os acasos se tornam mais comuns em nossa caminhada – o que, vale ressaltar, não a tornará mais “acessível” com a presença destes processos, visto que a sensibilidade também alavanca situações de extrema complexidade; porém, encará-las e aprender com estes acasos nos tornam ainda melhores no que fazemos, deixando rastros destes processos, aprendizados e concepções em nossas produções.

Aqui, deixo a reflexão de como podemos aprender não apenas com nossas experiências ao longo de nossas vidas que englobam peculiaridades únicas através do tempo, espaço, triunfo e perda, felicidade e tristeza, mas como também podemos aprender com o nosso trabalho, com a maturidade resultante de cada vivência e principalmente, quando nos entendemos e quando percebemos os muitos acasos que a vida pode nos oferecer através dos olhos, corações e mentes brilhantes ao percebermos e contemplarmos o mundo.


REFERÊNCIAS

OSTROWER, FAYGA. Acasos e Criação Artística. 1990.

VAN GOGH, VINCENT. Cartas a Theo. 1914.


Yasmin Cabral Gomes é licenciada em Artes Visuais pela Universidade da Amazônia (UNAMA) e pesquisadora em crítica de arte, processos criativos e poéticas da arte.


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