PAPEL

O primeiro origami que eu aprendi a fazer foi um barquinho de papel. Eu devia ter os meus cinco anos de idade, e fiquei completamente fascinada pela ideia de fazer papel flutuar. Em qualquer oportunidade que surgia, eu me pegava produzindo mais e mais barcos, principalmente depois de tempestades que deixavam poças nas ruas do centro da cidade. É claro que eu não tinha consciência que aqueles barcos estavam poluindo as ruas ou caindo em bocas de lobo, na minha cabeça eu estava deixando o mundo mais divertido. 

Com o tempo, passei a colocar pequenos bonecos de papel dentro dos barcos. Depois, objetos leves. Gostava de testar a resistência, saber quanto peso aquela pequena aventura podia suportar. Comecei a testar diferentes tipos de papel, diferentes cores, até diferentes modelos de dobraduras. Eu aprendi outras coisas também. Um tsuru, um coração, um golfinho, um sapo que pula, uma arara. Nenhuma dessas coisas me fazia sentir tão aventureiro quanto meus barcos. É muito fácil fazer um barco flutuar em água parada, a tarefa só fica complicada quando a água se agita. 

Aos 15 anos, eu resolvi começar a fazer diários. Escrevia todos os dias, desde os pensamentos mais bobos às aflições mais sinceras. Preenchia páginas com tinta preta e vermelha, escrevia tão rápido que minhas mãos tinham dificuldade de acompanhar meu raciocínio, o que muitas vezes resultava em letras emboladas e grafias erradas. Em uma manhã de quarta feira, meu caderno escorregou do bolso externo da minha mochila e caiu no meio fio, no meio de uma enorme poça de água suja formada pela chuva da noite anterior. Meu diário não era um barco, ele não flutuou. Observei enquanto meus pensamentos derretiam das páginas, a água com cheiro de asfalto escorrendo tanto quanto a água salgada no meu rosto.

Naquele dia, transformei todas as páginas que sobreviveram em barcos, fiz da piscina da escola um mar aberto, simulei ondas, deixei que todos afundassem. Quase que no mesmo instante, começou a chover. Um barco de papel ainda é de papel, não importa o quanto você queira que ele se torne impermeável.


Gabi Guarabyra é atriz, diretora, dramaturga e professora. É pós-graduanda em Gênero e Sexualidade pela FACED-UFJF e compartilha frentes de trabalho teatral no Coletivo Feminino e no Núcleo Prisma.


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