NIGHTHAWKS: UMA ALMA ANAGRAMA DE LAMA

Sempre, sempre volto é ao Hopper. Esse seu silêncio contido no mínimo, essa correspondência direta com o mais interior do interior. Olhar Nighthhawks é mergulhar em si, profundamente. É pensar a solidão como uma linguagem comum. Como diz o Beto Cupertino, em Solidão é um nome, em seu disco de 2007, “solidão é algo que nos une, mais que qualquer deus ou país.” Talvez Hopper seja um estado, uma vibe, e não um ser-humano. Talvez tanta coisa que não sabemos.

E em Nighthawks ainda temos um casal, jogando sua conversa fora, e alguém ali que repara, que ressignifica. Alguém ali vai voltar sozinho, seja lá pra onde. Essa luz que devora o interior. Essa luz que desvela a solidão. Nunca saberemos o que houve depois daquele dia.

A esquina sozinha do luar de junho.

E quando olho Hopper, me olho, me adentro, me apavoro. Nem Munch me faz tão perplexo assim; afinal, deus mora nos detalhes. E no que é quieto. E no meu silêncio diante do mundo. Em tudo que não é palavra, e não aprendemos a nomear quando nos alfabetizamos. Não existe controle para o não dito.

E então essa foto, específica: um pesquisador, conservador no sentido de manter as obras, calculando o tamanho e o peso do quadro. Desse silêncio abrupto.

Foto: NW Daily News

O peso em quilos que perdi de tudo o que queria dizer mas não.

Como se ele medisse e levasse para cada país esse vazio, esse não dito. O ramo de tudo que deveríamos expor, mas guardamos. Essa foto mereceria um prêmio. Só ela consegue desmistificar a perda: quebrar a aura posta por Benjamim e tão rememorada. A aura está no nosso olho, diria. E nada é tão importante quanto o que não sabemos ainda.

Por fim, eu aqui escrevendo esse texto, como um escape de análise, como uma fuga além do poema, confesso:

Há uma cena de Hopper todo dia dentro de mim às 18h.

Por isso, Hopper como uma espécie de idioma, de contexto, de referência e de degredo. Ressurgir mais forte depois de mais um mergulho. Mas ainda não me faltou ar o suficiente. Me desculpe, me desculpe: essas são todas as palavras que sobraram de mim.


Marcus Cardoso é poeta, músico e historiador. Vivente na cidade de Ribeirão Pires, lançou as plaquetes todo poeta mente sinceramente (2016) e palimpsesto, eu (2018): ambas de modo independente. Tem poemas publicados nas revistas Vício VelhoRuído Manifesto, A Bacana, Arribação e no Mural da Kotter Editorial. Escreve, semanalmente, ensaios-prosas-poéticas que teimam em ser chamadas de resenha, para o site FolkdaWorld. É cantautor no projeto reticente. Segue buscando maneiras diversas de atravessar o múltiplo subúrbio da palavra.


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