REPUBLICANOS E MONARQUISTAS: CONFLITOS E CONCILIAÇÕES

Muito conhecido por ser um dos principais museus do país que abriga acervo relativo ao Brasil-Império, bem como objetos alusivos à memória monárquica e à família imperial brasileira, o Museu Mariano Procópio também possui relevante acervo referente ao período republicano. Além da importância de se atentar para o papel de Alfredo Lage em amealhar objetos relacionados à memória monárquica, é preciso dar a devida atenção aos impasses, conflitos, querelas, ambiguidades e reconciliações existentes nas relações entre republicanos e monarquistas na Primeira República. Afinal de contas, trata-se de um espaço museal inaugurado nas primeiras décadas do século XX, momento em que as “feridas” do golpe civil-militar que derrubou o regime monárquico passavam por gradual processo de “cicatrização”.

O ataque aos símbolos da monarquia durante a Proclamação e início da Primeira República, como se sabe, não é novidade. O estudo de Juliana Garcia, ex-estagiária do Museu, deixou importante legado para a instituição nesse campo de investigação. A historiadora analisou um retrato de d. Pedro II, de autoria do artista Joaquim da Rocha Fragoso. A biografia cultural do objeto é bastante curiosa, por sinal, tendo em vista o tiro sofrido pela pintura no contexto do “15 de novembro”. Oculta na reserva técnica do Museu Mariano Procópio durante bastante tempo, a pintura ganhou maior evidência nas últimas décadas, depois de ser restaurada. A decisão dos restauradores, porém, foi a de não ocultar por completo as “cicatrizes” dos ataques sofridos, considerando-as vestígios históricos da maior importância para se discutirem as disputas simbólicas travadas por grupos divergentes no final do século XIX. Em outras palavras, foi esta uma forma de respeitar a história do objeto no contexto museal.

“Meme” produzido a partir da tela “Retrato de d. Pedro II”, de autoria de Joaquim da Rocha Fragoso. Acervo do Museu Mariano Procópio – MG.

No Museu Histórico Nacional, encontra-se outro retrato do mesmo imperador, retalhado por navalha. Ao contrário do MMP, a equipe do MHN deixou os rasgos plenamente visíveis. Em 2018, uma palestra realizada na instituição conferiu protagonismo à peça. O título escolhido, “Que rasgo foi esse?!”, era uma descontraída paródia do hit de Jojô Todynho, que fizera grande sucesso no carnaval daquele ano. No Museu Mariano Procópio, o quadro “baleado”, como não poderia deixar de ser, inspirou o meme “Que tiro foi esse?”, que alcançou grande circulação nas redes sociais, vindo a inspirar uma questão avaliativa do Programa de Ingresso Seletivo Misto (PISM) da Universidade Federal de Juiz de Fora, juntamente com a citação de trecho da pesquisa de Juliana Garcia.

A ideia não era apelar para o sensacionalismo, com o único e simples objetivo de “assanhar” os olhares do público, mas provocar estranhamentos e reflexões sobre a relação entre republicanos e monarquistas no contexto em que ambas as telas sofreram agressões. Levando em consideração o olhar de encantamento e romantismo que muitos visitantes lançam para o Brasil-Império, caracterizando-o como uma espécie de “era de ouro” da história brasileira, é sempre válido e necessário que reflexões sejam suscitadas, contrapondo essas narrativas e memórias à compreensão crítica dos processos e movimentos político-sociais na história.

Sem se limitar aos violentos embates travados entre republicanos e monarquistas através de vestígios da cultura material encontrados no Museu Mariano Procópio, também é pertinente que se chame atenção para as ambíguas relações entre os grupos políticos. Vale lembrar que a inauguração do Museu Mariano Procópio em 1921 coincide com os preparativos das comemorações do Centenário da Independência do Brasil, momento de conciliação entre monarquia e república, apesar das divergências e conflitos ideológicos que seriam ainda mantidos por longo período. A doação da tela de Pedro Américo, Tiradentes Esquartejado (1893), para o Museu, em 1922, pode ser considerada representativa desse processo conciliatório, haja vista que o espaço museal, assumindo importante função de “depositário” de emblemáticos objetos da memória monárquica brasileira, passava a abrigar um símbolo republicano. Em meio a esse aparente paradoxo, nada mais coerente do que o “herói da Conjuração Mineira”, transformado em mito republicano, hospedar-se definitivamente no primeiro museu de Minas Gerais, colaborando para elevar o protagonismo dos mineiros no âmbito nacional.

O projeto de memória monárquica de Alfredo Lage, para lograr êxito, precisava participar do “acerto de contas” com o passado. Vale lembrar que, em 1920, o então presidente da República, Epitácio Pessoa, assinava a revogação do decreto de banimento da família imperial; e, da mesma forma, em janeiro de 1921, os restos mortais de d. Pedro II e Teresa Cristina eram trasladados da Europa para o Brasil, após longas tratativas e negociações.

Fonte: O Malho, RJ, 02/12/1905. Acervo do Museu Mariano Procópio – MG.

Antes mesmo da década de 1920, é possível verificar a expansão de um movimento conciliador e pacificador por parte de diversos segmentos políticos. Uma charge publicada na capa da revista O Malho, em 2 de dezembro de 1905, que integra o acervo da hemeroteca do Museu Mariano Procópio, é um exemplo disso. O Malho compunha o grupo de periódicos humorísticos que circulavam pelo Rio de Janeiro, então capital do país, nos anos iniciais do século XX, apontando contradições, impasses e ambiguidades vivenciados pela jovem República brasileira. O periódico enaltecia aspectos da implantação de projetos modernizadores pelas autoridades republicanas, ao mesmo tempo em que explicitava mazelas políticas e sociais, frustrações com o novo regime e ambíguas relações com os monarquistas.

Não por acaso, a charge saiu publicada em 2 de dezembro, dia em que se comemorava o nascimento do já falecido imperador brasileiro, d. Pedro II, cujo retrato ricamente emoldurado, sustentado por um cavalete, aparece em destaque na representação humorística, ladeado por dois personagens políticos da época: do lado esquerdo, Afonso Pena, e, do lado direito, Afonso Celso, que aponta o braço para o “velho monarca”. A cadeira segurada pelas mãos do futuro presidente da República (1906-1910) simboliza a oferta, ao monarquista, do cargo de representante do Estado na legislatura seguinte, como demonstra o diálogo abaixo da charge: “À vista da calorosa recepção que acabas de ter do povo mineiro, não posso deixar de te oferecer esta cadeira de representante do nosso Estado, na próxima legislatura. Aceitas?”. Logo em seguida, Affonso Celso responde: “Aceito, contanto que a olímpica figura do grande Imperador morto continue a governar cada vez mais os meus atos…”.

O povo brasileiro, representado pela figura do personagem “Zé Povo”, enquanto observa a teatralidade da cena, pensa: “Aponta para o falecido monarca cujo aniversário natalício é hoje?… Continua firme nos seus princípios monarquistas… Ora, sempre quero ver como o nosso velho mineiro descalça esta bota! São dois Affonsos em questão… Voltaremos ao tempo dos Affonsinhos?!…” Possivelmente inspirado no personagem “Zé Povinho”, do periódico português O Antonio Maria, “Zé Povo” observa a barganha política entre dois personagens, que buscam firmar um pacto ancorado no culto à figura de d. Pedro II e às tradições políticas do Império. O termo “tempo dos Affonsinhos” parece fazer referência a uma postura “passadista” do futuro presidente, que, buscando se fortalecer politicamente em seu Estado natal, apelava para conquistar o apoio de um monarquista histórico ovacionado pelos mineiros.

Vale ressaltar que Afonso Pena e Afonso Celso eram mineiros nascidos no século XIX: o primeiro, em 1847; e o segundo, em 1860. Ambos, apesar da diferença de idade, trilharam trajetórias políticas no período Imperial. Afonso Pena exerceu cargos de deputado provincial e deputado geral através do partido Liberal, foi ministro da Guerra, da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e do Interior e Justiça. Além disso, estabeleceu próxima relação com o pai de Afonso Celso, o Visconde de Ouro Preto. Em 1892, já no período republicano, assumiu a presidência de Minas, após a renúncia de Cesário Alvim. O também mineiro, Afonso Celso, foi deputado geral por Minas Gerais. Com a proclamação da República, abandonou a política e acompanhou o pai (Visconde de Ouro Preto) no exílio para a Europa, tendo, no início do novo regime, se dedicado à defesa do pai na política. 

Se, de um lado, o movimento restaurador monárquico ainda era visto, em 1905, como certa ameaça ao regime vigente, implantado através de um golpe civil-militar, por outro, observa-se no “tabuleiro” político uma ambígua e conciliadora postura entre grupos republicanos e monarquistas. Apesar da derrubada do regime monárquico, do exílio do imperador e da construção de uma narrativa política que associava a monarquia ao atraso, a figura de d. Pedro II permanecia bastante ovacionada por amplos segmentos sociais, tornando-se o principal mito político sustentador da crença na existência de uma “era de ouro” na história brasileira.

Essa aparente contradição entre a derrocada da monarquia e o culto ao imperador se tornou objeto de humor da revista Careta, em 11 de fevereiro de 1911, no texto “A opinião de uma estátua”. A publicação coincidia com a inauguração de um monumento em homenagem a d. Pedro II em Petrópolis. Na sátira, a estátua faz o seguinte questionamento: “Diga-me porque me destronaram”. […] Desde 15 de novembro de 1889 até o momento da minha inauguração encarnado em bronze, ouço dizer que sou o maior dos brasileiros, que sou um benemérito, que engrandeci o meu país, que fiz a minha pátria. Como a gente é contraditória! Como as suas palavras contrastam com as suas ações.”

Atacadas por diversos grupos republicanos, antes e durante a Proclamação da República, as representações do segundo imperador brasileiro, a essa altura do campeonato, já não mais atraía navalhadas e tiros; pelo contrário, o “mito” era evocado para amalgamar interesses e projetos políticos diversos, sobretudo a partir das comemorações dos cem anos da Independência do Brasil. Segundo a historiadora Luciana Peçanha Fagundes, “o gesto da República de estender a mão” ao passado monárquico, “extraindo a ‘mais valia do morto’”, consagrava d. Pedro II como “o grande unificador da nacionalidade”. Não é por acaso que, mesmo após “tiros” e “navalhadas”, o “mito” monárquico não tenha sido “esquartejado”, sobrevivendo até hoje no imaginário de muitas pessoas que ainda mantém vivas as memórias afetivas relacionadas ao Museu Mariano Procópio.


REFERÊNCIAS:

FAGUNDES, Luciana Pessanha. De volta à terra pátria: o translado dos restos mortais de D. Pedro II e Thereza Cristina para o Brasil (1921). In: Anais do XXVIII Simpósio Nacional de História – Lugares dos historiadores: velhos e novos desafios, jul. 2015. Disponível em: http://www.snh2015.anpuh.org/resources/anais/39/1434405974_ARQUIVO_Textocompletoanpuh2015.pdf.

MELLO, Maria Tereza Chaves de. A República Consentida. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007.

NEVES, Juliana Garcia. Entre a memória da monarquia e a construção da república: a dinâmica simbólica de transformações e resistências presente na trajetória do “Retrato de Pedro II” do Museu Mariano Procópio. Dissertação de mestrado (PPGHIS-UFJF). SCHWARCZ, Lilia. De olho em d. Pedro II e seu reino tropical. São Paulo: Claro Enigma, 2009.


Sérgio Augusto Vicente é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.


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