A MORTE ESTÁ SERENA

Você se lembra da chuva? Ela tem um cheirinho bom, né? Aquele aromazinho de terra molhada, o ar
fresco e a turbulência dos céus; é bela!

Te encanta também? É fantástica a chuva. Ela rega o cerrado, a mata atlântica, a floresta tropical —
 vixe, rega tudo! Ela é nossa querida amiga. Tá sempre cuidando daqueles Jequitibás que a gente não
alcança — o Jequitibá fica todo feliz! ELE SORRI! Se remexe todinho, molha a todos que passam
debaixo dele. Coisa mais linda. E é da bichinha chuva, que enchemos nossos reservatórios, movemos
nossas usinas hidroelétricas (aliás, sabia que a primeira hidroelétrica da América do Sul é brasileira?),
molha nossas plantações e enche nossos poços artesanais. A chuva é muito carinhosa conosco. Ela
vem de lá longe, abraça o mar, conversa com as nuvens e manda com todo amor suas gotinhas.
Nossas roseiras, orquídeas e samambaias se alegram! A chuva é um amor.

Mas olha, tem tempos que ela descansa. Deixa bastante água pra nós e nossas vizinhas Fauna e Flora,
se preparam para a ausência dela. Nossa amada lança alguns trovões e restinhos de nuvens carregadas
para nós enquanto não vem, mas sabemos que ela pode demorar. Portanto, rezamos a ela que não
demore. Mas, como à amamos, aguardamos (botamos a broa no forno, aguamos a horta e beijamos
nossos filhos). Afinal, o amor é a residência do tempo e esse carinho que temos por algo que amamos,
precisa esperar — se acalentar é necessário! A calma é necessária. Nosso paladar, nosso olfato e nosso
tato jamais se esquecem daqueles serezinhos que admiramos, então esperamos pela chuva.
E se ela não vem? Damos nosso jeito! Cavamos poços, chupamos cana-de-açúcar, estocamos coco e
caçamos cactos. E a gente vai se virando. Até o caminhão pipa faz visita para nós. É na água que a
gente se benze e se lava, é da água que 70% do nosso corpo se constitui. A gente é água e água vem
da chuva.

Então, escute: a chuva demora vir, alguns dos nossos gados padecem. Alguns dos nossos irmãos
desnutrem, outros ficam com a boquinha toda ferida. O Sertão custa virar mar, mas vira.

 A gente pega facão,
 a gente mata o dono do cafezal,
 a gente planta mandioca,
 a gente rouba o que é nosso,
 a gente pega o que é da gente.

 Sem a chuva, o ‘gente’ não existe.
 E sem gente não tem vida.
 Não tem.
 Você pode me dizer que eles sobreviveriam sem meu avô,
 poderia me dizer que iriam tirar a pata do cavalo no mata-burro,
 poderia inventar mil coisas,
 até
 argumentar
 que o auxílio do dotô Kubitschek
 ia ajudar
 lém casa

Enquanto a chuva não vem, a gente vive. Meu vô vive, meus tios vivem, eu vivo. E preste bem
atenção, a dona Morte nunca nos venceu.

Como que eu, cobra criada que sou, teria medo da morte? Me diga! Tu não me dizes, mas eu respondo:
da encruzilhada vi muita coisa, vi galinha ser morta e Preto-Véio dançar. Vi o que eu vi. Recusaram mil
almas quando jurei de pé junto, que eu, neto de lavrador e filho de vendedora, conhecia Fernando
Pessoa e Jorge Amado.

Choveram tantas vezes, mas tantas, que o pé de couve nasceu graúdo.

A chuva vai lavar as calçadas de sangue, amigo.
 A chuva vai banhar teu pai, irmã.
 A chuva vai inundar teu açude, morena.
 A chuva vai trazer teu amor, menino.
 A chuva vai lhe perdoar, vô.
 
 E se um dia,
 teus bisnetos lhe perguntarem quem fostes eu,
 responda que foi alguém
 que se encontrou
 com a morte,
 e que,
 pela proza,
 a Morte deixou-lhe ficar.
 
 Mas ó, presta atenção,
 A chuva vem.
 E nossos queridos vêm com ela.
 
 A chuva há de vir.

Nicholas Emanuel é estudante de Psicologia e, por necessidade, escreve e tenta fazer graça com poemas desajustados, crônicas bagunçadas e artigos desalinhados. 


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