PPPP E O FLERTE COM A TRANSDISCIPLINARIDADE

Estamos inseridos em uma sociedade que valoriza o conhecimento fragmentado, seja ele aplicado nas esferas sociais, culturais ou educacionais. A fragmentação é embasada na teoria de Descartes, que sugere que, quando um fenômeno é complexo, devemos “dividir cada uma das dificuldades […] em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-la”.

Não coincidentemente, somos incentivados a nos especializar em um determinado assunto, dominando-o ao máximo. A prática pedagógica se apoiou na fragmentação para subdividir o conhecimento em diferentes áreas, que, consequentemente, se subdivide em diferentes disciplinas.  Em contrapartida a essa prática pedagógica, o conceito da transdisciplinaridade e da complexidade aparecem como uma alternativa ainda em desenvolvimento.  Ao considerarmos que o enfoque da pesquisa transdisciplinar evidencia a multiplicidade dos modos de conhecimento e que ela não compreende a hierarquização dos saberes (todos são igualmente valorizados), proponho aqui uma análise de caso: o PPPP (Produtos Peruanos Para Pensar).

O PPPP foi, inicialmente, um coletivo de uma pessoa só. Fundado por Alberto Casari em 1994, o trabalho foi levado adiante como uma extensa performance, sua assinatura foi substituída pelo logotipo de uma empresa, o PPPP. A não-autoria de suas obras como criador individual abre caminho para explorar novas facetas no mundo da arte, sendo assim, Casari atende à necessidade de se multiplicar e cria quatro alter-egos. Alfredo Covarrubias assume os trabalhos relacionados ao texto e a poesia, podendo ser ela visual ou escrita. Já Patrick Van Hoste é um crítico de arte holandês, que fica responsável por documentar todas as realizações do coletivo. Mais tarde, no final dos anos 90, é que surgem os outros dois heterônimos, Arturo Kobayashi assina as pinturas, enquanto El Místico (EM) trabalha com o estudo dos materiais. Mesmo com os alter-egos, Casari ainda assina a execução das performances criadas por Covarrubias.

É interessante pensar que a despersonalização da figura do artista é o que dá espaço para que ele crie uma produção heterogênea, abrindo caminhos para desenvolver outros aspectos de sua personalidade e, não coincidentemente, outras linguagens artísticas. A performance artística do coletivo de um homem só é, também, uma crítica ao modelo de pensar dicotômico das dualidades (que fragmenta o conhecimento) e estimula um modo de pensar articulado. Ao assumir os heterônimos com diferentes conhecimentos no campo artístico, Casari evoca o princípio holográfico discutido por Morin (1991), considerando que a parte está dentro do todo, assim como o próprio todo está dentro das partes. Com isso, evidencia-se a relação paradoxal entre o uno e múltiplo, que são interdependentes. A fragmentação traz a ideia de objetividade do conhecimento dentro da organização social, mas, nesse caso, ele está fragmentado dentro de um mesmo indivíduo.

A transdisciplinaridade aumenta a capacidade de aprendizado, uma vez que trabalha “com imagens e conceitos que mobilizam, conjuntamente, as dimensões mentais, emocionais e corporais, tecendo relações tanto horizontais como verticais do conhecimento.” (SANTOS, p.7), o que é, de certa forma, explorado no PPPP.  Casari brinca com a autorreferencialidade através da multirreferencialidade e torna possível o paradoxo do coletivo de uma pessoa só.

O Projetos Peruanos Para Pensar, ironicamente, nos faz pensar sobre as fronteiras epistemológicas e sobre a multiplicidade do ser. Propondo uma ligação entre os saberes fragmentados, ainda de forma fragmentada, ele torna visível a discussão da teoria da complexidade. O conhecimento é uma rede, e suas partes só podem ser entendidas a partir das relações de integração com o todo.


REFERÊNCIAS

http://www.casari-pppp.com/about.html

http://abstractioninaction.com/artists/alberto-casari/

Livro/catálogo da 30ª Bienal de São Paulo – A iminência das poéticas (2012) pag 256-257


O Laboratório Informal de Arte-Educação (LABIARTE), desenvolvido por Ariel Bertola e Clara Downey, é uma plataforma virtual que promove dinâmicas interativas a fim de desmistificar a arte enquanto área de conhecimento.

Ariel Bertola é artista, pesquisadora e arte-educadora. Seus interesses envolvem principalmente os percursos da educação não formal, as relações de gênero, os processos de criação e a prática artística transdisciplinar. Além disso, é co-fundadora do Laboratório Informal de Arte-Educação (LABIARTE) e atua como mediadora e produtora cultural buscando intensificar a aproximação entre o público e a arte e estimular o pensamento crítico.


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