Weltschmerz

Os trabalhos de Maria Victoria Abdalla nos transmitem certos sentimentos de tristeza e inadequação causados pela crueldade do mundo e das circunstâncias que remetem ao termo weltschmerz, cunhado pelo autor alemão Jean Paul Richter. Através deles, a artista trata de assuntos como feminismo, vida, morte, lugar e pertencimento. Em constante diálogo com artistas como Ana Mendieta e Cindy Sherman; segue caminhos de exploração estética e simbólica similares aos propostos por elas, respectivamente, em seus trabalhos Impressões de vidro sobre corpo (1972) e Untitled Film Stills (1970).

De tal forma que, as histórias que conta possuem o mesmo enredo do conto O Papel de Parede Amarelo (1892) de Charlotte Perkins Gilman, sob uma perspectiva contemporânea. Denuncia como mulheres podem ser conduzidas à loucura quando confinadas aos estereótipos de perfeição, fragilidade e pureza que até hoje, acometem muitas de nós. E, provavelmente, por sua trajetória no teatro, a artista assim como Albert Camus, escritor franco-argelino, compreende e registra a beleza e a tragédia que há no ofício do ator – que é aquele que tem a glória mais efêmera e sabe que o testemunho de sua vida será no máximo uma fotografia, deixando escapar no tempo seus gestos [1] -, ao se colocar no lugar de suas bonecas em suas séries de autorretratos.

Sem título, 2019. Políptico, Série: Subsolo. Fotografia 30 x 30cm.

Ao utilizar tais bonecas para criar cenas e objetos, por vezes parece unir as perspectivas de Damien Hirst e Farnese de Andrade. O primeiro, se destacou entre os Young British Artists e tem a morte como tema central de suas obras. Dentre elas, uma das mais polêmicas é The Physical Impossibility Of Death In the Mind Of Someone Living (1991), na qual exibe um tubarão-tigre morto, em um tanque de formol. Maria Victoria faz algo similar com suas bonecas ao dividi-las e catalogá-las, as apresenta de tal maneira que evoca em nossos pensamentos, a vida de seres inanimados. Enquanto se aproxima também do segundo, artista mineiro, figura peculiar na historiografia da arte moderna brasileira que, além de pinturas e gravuras, criou inúmeras assemblages utilizando bonecas cuja aura é ao mesmo tempo iconoclasta e macabra.

Sem título, 2020. Série: Bonecas. Fotografia, 20 x 30cm
Sem título, 2021. Série: Bonecas. Fotografia 24 x 18cm

Seu flerte com a modernidade vai além e alude, por exemplo, às fotografias de Dora Maar, mais conhecida por ter sido amante e musa de Pablo Picasso. Podemos notar também aproximações com o Expressionismo Alemão, da vanguarda cinematográfica, quando alguns de seus personagens remetem ao filme de Robert Wiene, O Gabinete do Dr. Caligari (1920). Além de suas séries de autorretratos e o díptico Primeira Declaração Erótica (2021) refletirem a ideia de doppelgänger [2], suscitando questões entre o bem e o mal ou referentes àquilo que é fantasmagórico e sombrio.

Demanda, 2020. Série: Bonecas. Escultura, 3,5 x 4,5 x 5cm.

Isso se escancara em seu filme, Virgínia (2021) que podemos encontrar no canal da artista no YouTube, cujo personagem que se senta ao lado da cama onde está deitada uma boneca da qual vemos apenas o braço com a mão erguida, possui caráter dúbio. O que é reafirmado com o duplo que se forma a partir de seu reflexo no espelho.

O movimento desse personagem que, ao virar-se para o espelho quebra a quarta parede, olhando diretamente para a câmera através de seu reflexo, funciona como um ato cujo trajeto de alguma maneira tem que ser cumprido pelo outro [3] e faz com que o expectador se reconheça no reflexo e se torne então, o indivíduo duplicado. Há, ainda, pela presença das mãos que notamos na penumbra, sustentando a cena, um reforço à grande questão promovida não só pelo curta-metragem, mas pelo conjunto de sua produção até agora: onde se localizam as fronteiras entre o real e o imaginário?

Outro filme que podemos encontrar em seu canal do YouTube e que destaco por resumir muito do que vemos na obra da artista, é intitulado Experimento 1 (Erotizando a face) produzido em 2021. Trata-se do registro do momento em que a artista cobre o próprio rosto com um líquido branco e leitoso, que depois percebemos ser alginato, formando uma película sobre sua pele. A maneira como movimenta o rosto enquanto o material seca e como o retira na sequência, faz lembrar o pensamento do filósofo francês George Bataille de que a vida é uma consequência da decomposição dos seres vivos, que, morrendo, restituem aos ciclos naturais a matéria prima de que são constituídos, e que servirá para a elaboração de novos organismos. Segundo ele, a morte assegura a juventude do mundo, e, nesse sentido, a morte se aproxima do erotismo.4

Primeira declaração erótica, 2021. Díptico, série: Erotização. Fotografia, 10 x 10cm.

Maria Victoria Abdalla é estudante de Psicologia da PUC-SP, entre os anos de 2018 e 2020 atuou como assistente do artista plástico Rubens Espírito Santo em seu ateliê, além de estudar teatro desde 2016. Embora ainda esteja no início de sua carreira como artista visual, possui um corpo de trabalho capaz de fomentar questões profundas sobre a existência humana, com enorme potencial para uma trajetória que merece ser acompanhada.


[1]  BALBINO, Lorena de Paula. Uma Estética da Existência em Albert Camus.

[2]  Também cunhado por Jean Paul Richter, em 1976, o termo pode ser traduzido como “aquele que caminha ao lado” e se refere a ideia de um irmão gêmeo maligno ou ao fenômeno da bilocação (ato de estar em dois lugares ao mesmo tempo). É um prenúncio de má sorte e por vezes é retratado como um fenômeno paranormal.

[3] Lacan, sessão de 20/03/1968 do Seminário.

[4] CAMERINO, Luciano Caldas. Ser Sujeito da Morte (Reflexões filosóficas, vivências e morrências). 1a Edição. 2020.


Ada Medeiros é Bacharela em Artes e Design pela UFJF e está se especializando em Artes Visuais na mesma instituição. Possui pesquisa com experiências em desenho, pintura e fotografia, na qual investiga questões acerca de gênero e sexualidade, além de tratar da efemeridade da vida, da fragilidade e da fragmentação do ser. Instagram


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