ESTÁ TUDO BEM?

Este texto, em grande parte, é um desabafo, após diversas tentativas de escrever algo interessante e perceber que o bloqueio mental que está comigo há semanas me impediu de avançar em qualquer coisa que minha cabeça considerasse algo minimamente bom ou aceitável.

Pensando sobre a minha trajetória no curso de História, à medida em que tive contato com o fazer do campo científico, pude perceber como a História é uma construção dos homens e do tempo em que estes homens se encontram com relação aos acontecimentos passados, entrando em acordo com diversos outros historiadores que vieram antes de mim. Este entendimento não me foi possibilitado na Educação Básica, onde outras formas de abordar o conteúdo da disciplina de História me foram apresentadas: aqueles que suscitavam o debate e a problematização, não permitindo que fosse uma mera transmissão de conhecimento acumulado; e tive experiências com professores que apenas transmitiam os acontecimentos passados, como se este passado fosse algo finalizado e cristalizado em si. De acordo com os tempos verbais da língua portuguesa, aquilo que chamamos de pretérito perfeito: aconteceu e terminou. Ainda se amparando na perspectiva que a História é uma construção das pessoas diretamente influenciadas pelo tempo em que estão realizando suas pesquisas e escrevendo, me predisponho a observar o tempo em que eu estou inserido.

O Brasil e o mundo vêm passando por diversos acontecimentos, nos últimos anos, que têm marcado suas épocas e que provavelmente serão analisados no futuro enquanto acontecimentos históricos, geralmente correlacionando com temas de sociedade, cultura, economia, política, entre outros. O mais recente destes acontecimentos é a pandemia da COVID-19, como todos ou a grande maioria das pessoas tem conhecimento, desde março de 2020. Mas, para além de relações políticas, análises econômicas, estruturais, relações internacionais; como a população tem se sentido neste tempo? Como estão vivendo as pessoas que foram diretamente afetadas pela pandemia, perdendo pessoas queridas, vendo o descontrole que a situações no Brasil está tomando?

De acordo com reportagem da CNN[1] publicada em 23 de fevereiro de 2021, o consumo de antidepressivos durante a pandemia aumentou 17% no Brasil. Quando se entra em contato com alguém por meio virtual, ou até mesmo presencial para aquelas pessoas que não puderam fazer o isolamento, perguntamos “está tudo bem?”. Eu não sei vocês, mas eu tenho o costume de responder involuntariamente “Está tudo bem!”. Imediatamente, um questionamento aparece em minha mente: “Está tudo bem?”.

Dentro de um mar de tragédias, a que mais recebe atenção das mídias nos últimos tempos foi a perda do ator Paulo Gustavo. Ele, que era extremamente jovem e sem comorbidades (asma no nível que o ator tinha não é considerada comorbidade), e (no mesmo dia) mais de duas mil pessoas perderam suas vidas. Chegamos ao número de quatro mil pessoas mortas em um único dia. E sempre é importante reforçar que, para além dos números, são vidas; famílias, filhos, netos, amores, pais e mães, que se vão por uma doença para a qual existe um protocolo de prevenção (que poderia ter sido praticado pelos gestores) e, principalmente, por uma doença para a qual já existe uma vacina desenvolvida. Infelizmente, esta vacinação anda a passos de tartaruga após as ONZE recusas do presidente junto com seus ministros da saúde pela oferta de vacina do laboratório da Pfizer. Estamos vivenciando um desmonte das universidades federais, os principais produtores da ciência brasileira – que teriam capacidade de desenvolver e produzir sua vacina, se não estivessem sobrevivendo a um estrangulamento de verbas. O auxílio emergencial com o valor cada vez menor, e a fome assolando novamente a população brasileira depois de décadas de luta contra este inimigo.

Temos a possibilidade de olhar as estruturas (como a economia reagiu à pandemia, quantitativos numéricos de vítimas e infectados, queda do PIB), que são temas importantes para algumas parcelas. Mas também é preciso que olhemos para outros aspectos da pandemia: como está a população? Como está sobrevivendo quem perdeu um ente muito querido? Como vai ser o sentimento quando sairmos dessa situação? Está tudo bem? Como a população está sobrevivendo? Acredito que refletir sobre estes questionamentos apresentados e muitos outros que não estão neste texto também seja pensar sobre aspectos culturais e políticos da vivencia dos brasileiros durante a pandemia.


[1] https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2021/02/23/venda-de-antidepressivos-cresce-17-durante-pandemia-no-brasil Acesso em 20/04/2021


Luan Pedretti é mestrando em Educação pelo PPGE/UFJF, professor de História, integrante do Movimento Negro em Juiz de Fora pelo Coletivo Negro Resistência Viva.


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