A HISTÓRIA DOS MEUS FIOS

Cresci com a minha mãe trançando os meus cabelos, um cuidado precioso que eu não valorizava. Meu sonho era poder usar o cabelo solto, mas não imaginava um cabelo crespo, e sim um cabelo liso. Na época, esse era o costume das mães negras; antes das suas filhas atingirem uma idade considerada normal para alisar os fios, as mães os trançavam.

Ainda hoje me recordo que sempre passava parte das minhas férias na casa da minha avó. E em uma delas, ela me sentou na escada que dava acesso à casa para trançar os meus cabelos com aquelas mãos negras, suas unhas longas pintadas em vermelho. Ela falava: nunca deixei a sua mãe sem arrumar o cabelo, andava com ela sempre com os cabelos trançados e com fita na cabeça.

Essa era a única condição aceitável para os cabelos crespos. O ato de trançar o cabelo era lindo por ser uma tradição, mas também era triste, pois não podíamos usar os nossos cabelos naturais se não fosse com tranças. As mulheres negras e crespas não nasceram para andar com os cabelos soltos.

Quando comecei a frequentar o jardim de infância, via minhas colegas de cabelos lisos soltos e, para mim, aquele era o ideal a ser alcançado. Além de ter várias bonecas Barbie com cabelos longos, lisos e loiros. Eu não me via nas bonecas e na TV. Então comecei a pedir a minha mãe para me deixar de cabelo solto – e eu pensava que ele ficaria como o das meninas da escola ou o das bonecas, liso e com movimento. O alisamento foi a tendência natural que minha mãe seguiu para atender ao meu pedido.

É importante dizer que o alisamento, naquela época, era a única opção. Não existia a diversidade de produtos que hoje encontramos para cabelos crespos. Não sabíamos como pentear os nossos próprios cabelos, como cuidar deles. Não existia representação. Ser crespa era ter o cabelo duro e ruim, não era bonito. Nosso cabelo, naquela época, servia para nos fazer sofrer, para nos fazer sermos olhadas com olhos tortos.

O processo de alisamento dos cabelos era sempre sofrido. O produto queima a nossa cabeça. É preciso ir passando na raiz, mecha por mecha, até que tenha produto em toda a cabeça – e, se você for mais sensível, pode passar por muitas queimaduras que depois viram feias feridas.

Assim cresci, alisando as raízes do cabelo a cada três meses e submetendo os meus cabelos ao calor do secador com uma frequência absurda. Lembro-me o quanto eu odiava o dia de alisar os cabelos, porque significava ficar horas sentada para “arrumar os cabelos”. Quando ia ao salão de beleza para fazer o procedimento, ficava o dia todo e muitas vezes faltava à aula para passar por esse processo.

Lembro-me também que nos dias de chuva, em que, apesar de querer andar nela sem sombrinha, não podia porque acabaria com toda a escova e eu passaria vergonha. Sabe o filme “Felicidade por um fio”? Para nós que passamos pelos processos descritos no filme, ele faz total sentido.

Mas um dia decidi me libertar.

Tudo começou quando vi em um vídeo do YouTube uma propaganda de várias mulheres negras que decidiram assumir os seus cabelos. Eu ainda não fazia ideia de como fazer. Não fazia ideia de que precisaria parar de alisar o cabelo. Não fazia ideia de como era a textura dos meus fios, mas me joguei na pesquisa. Justo no dia em que minha mãe já estava pensando em alisar os meus cabelos novamente, eu disse: vou assumir o meu cabelo, quero ele natural.

Para muitos, essa jornada não é fácil. Cada um deve lidar de uma forma diferente nesse caminhar que faz parte de um autoconhecimento, mas também faz parte de um empoderamento. É impossível falar de transição capilar sem falar em empoderamento, pois por mais que você esteja tentando se livrar de um ideal, ainda assim existe para muitas meninas o ideal de cabelo crespo bonito.

Muitas meninas não querem ter um cabelo 4C e, por desconhecem a textura dos seus cabelos, podem acabar se frustrando ao final da transição. Então, desde o princípio, tomei a consciência básica de que o meu cabelo é o tipo certo para o meu corpo, e que eu queria amá-lo independente da forma. É importante dizer que, por ficar durante anos alisando o cabelo, não sabia mais como ele era. Sim, nós passamos a desconhecer essa casa que habitamos e chamamos de corpo.

E assim, fui lendo e compreendendo. Fui aprendendo a lidar com os meus fios, descobrindo qual a hidratação que ele mais gosta, a finalização que daria melhores resultados e aprendendo a me amar mais.

Foi todo um processo de me descobrir e aprender a me aceitar, mesmo que para muitas pessoas, ainda hoje, este seja um cabelo feio. Por isso, digo que a transição capilar não acaba com o BC (grande corte); é um processo que perdura por muito tempo, até que você aprenda a se amar de verdade e amar o seu cabelo. Se você está passando pela transição capilar tenha calma, se respeite e se apaixone por cada novo fio que nasce. Se apaixone por todo o processo. Vibre por cada centímetro de cabelo que cresce. Você verá que valerá muito a pena no final.


Thalita Alvarenga é formada em jornalismo e estudante de Literatura.
Trabalha com redação de Marketing digital e é apaixonada por escrita literária.


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