REGIMES DE INSTABILIDADE: AFINAL, DE QUEM É A AUTORIDADE?

Há uns dois anos, venho refletindo sobre o desgaste que algumas normas éticas e conceituais estão sofrendo durante a ascensão da extrema-direita no Brasil, sobretudo em como essa circunstância se espelhou nos centros ou comunidades de fé evangélicos. O ataque aos movimentos sociais — seja do BLM, do feminismo, enfim — são sintomáticos à medida em que percebemos uma disputa quanto a quem possui, ao fim e ao cabo, a palavra final. Explico.

Durante a pandemia, temos experimentado uma série de decisões jurídicas quanto ao funcionamento de estabelecimentos que, em tempos anteriores, tinham por natureza a aglomeração. Nesse fio, as políticas sanitárias, mesmo em primazia, se encontraram com um dos conceitos que considero mais desgastados na atual conjuntura, que é o da autoridade. Ou seja, o cumprimento de políticas sanitárias se esbarraram na agenda de igrejas e suas respectivas teologias que, desconsiderando a máxima democrática quanto aos limites jurisdicionais (daquilo que mando e o que não mando), renegociaram a ideia da morte com o que chamam de deus (eu prefiro chamar de Capitalismo) e, na voz do atual ministro da Justiça, bradaram em alto e bom tom: “os cristãos estão dispostos a morrer pela liberdade”. Entretanto, assim como o ministro fez de uma plenária com o STF o seu púlpito, os cristãos inseridos dentro de tal afirmação fazem de uma narrativa apocalíptica o seu tribunal de sentença ao outro. Vale lembrar que, o ministro não estava em uma igreja, e tais cristãos não estão em uma teocracia. Relembrando e readaptando um vídeo que circula na internet: Pode falar? Pode. É de bom tom? Não, não é de bom tom.

Antes de refletir sobre o desgaste do conceito de autoridade, preciso afirmar que não vejo problema em expressões públicas de fé (vide minha própria bio, ao fim desse texto); no entanto, uma fé pública não é prerrogativa de sentença ao outro que, reservado aos mesmos direitos constitucionais que o seu, pode ter se decidido por não aglomerar em cultos mas, em algum momento, pode esbarrar contigo no supermercado e se contaminar. Dito isso, acrescento que minha reflexão se desdobrou a partir de uma sala de comunicação em um aplicativo e que, num grupo com os mais variados cristãos, um decidiu defender a narrativa de perseguição religiosa (quanto ao fechamento dos estabelecimentos e, nesse ínterim, igrejas) e, após uma série de argumentos contrários que o rebateram, declarou: “Tudo bem, pode fechar por um tempo, mas quem deve tomar essa decisão é o pastor.”

Esta circunstância – digo, alguns pastores(as) não aceitarem o fechamento de suas igrejas, terem o seu espaço ou ambiente físico de atuação restringido – não diz meramente de uma opinião contrária ao bom senso. É o jogo de poder em ação. Assisti pastores defendendo o manejo de medidas sanitárias em igrejas sob mando exclusivo de outros pastores. Acaso se ocorrer um assassinato na igreja, a tutela, o julgamento e a punição ficarão igualmente sob responsabilidade do pastor? Jamais. Pastores não são autoridades elegidas no processo eleitoral de base democrática e, portanto, o peso de decisões e políticas públicas que envolvem esse nicho de pessoas é o mesmo que envolve os demais civis; em suma, eles são lidos (ou deveriam ser) pelo Estado como indivíduos de mesma importância que qualquer outro. O que pedem, através de ações como essa, é um Estado teocrático, onde o deus que criaram é o deus que concede autoridade para determinado grupo que, curiosamente, o usa de apoio para justificar sua blindagem do Estado. Se um pastor é barrado, por exemplo, por tentar entrar em um hospital nesse momento de caos sanitário (num contexto de visita), ele não o foi por ter certo tipo de fé, foi pelo simples motivo de que um hospital integra uma área com alto risco de contágio. E, ainda, não se pode balizar sua entrada através de desejos justificados pela “liberdade individual”, pois o mesmo indivíduo terá contato com outras pessoas ao ir em lugares considerados como “serviço essencial” — tal como a farmácia. Quando o fizer, estará entregando sentença para quem sequer sabe seu nome e, menos ainda, sua fé.

Nesse tipo de reflexão, preciso manifestar, em conjunto, algumas balizas teológicas as quais confrontam esse tipo de perspectiva – que, por sua vez, é contrária aos dois mandamentos fundantes do que foi proposto no Novo Testamento, o qual acabou por reorganizar as formas de sociabilidade nessa grande comunidade que deveria ser a Igreja. A rigor, os mandamentos são: ama o teu Deus de todo o coração, alma e pensamento e ame o teu próximo como a ti mesmo (Mateus 22:37-39). Se amo aquele que está acometido de enfermidade, não o abandono, o acolho segundo as formas seguras dispostas: redes sociais, chamada de vídeo, áudios, enfim. Explorar potencialidades foi um discurso que diferenciou parte dos expositores nas igrejas. Eles abdicaram de um púlpito cristocêntrico para legislar sobre meritocracia e lucro (e as demais baboseiras intrínsecas ao capitalismo em doses souvenir, que foram introduzidas na mentalidade aos poucos) de seus fiéis. Me questiono o motivo de, nesse momento, a chamada de vídeo ser lida como insuficiente frente as funções pastorais, como se ela não os tivesse conectado nacionalmente enquanto grupo, seja pelo encontro de narrativas ou pela admiração outrora acrescida. Existe uma constância na falta de coesão que abraça o que de mais perigoso pode ser numa democracia: inflar grupos majoritários a partir de mentiras. O regime de instabilidade que criam segundo suas teorias leva à derrubada de princípios democráticos que nos auxiliam até mesmo na vigilância que devemos ter para os manter. Reafirmo, não respeitaram a decisão tomada por maioria no STF por acreditarem que pastores e líderes religiosos possuem mesmo nível de poder e influência que aqueles elegidos para cargos aos quais competem a preservação da constituição e seus princípios; ao fim e ao cabo, acreditam ter maior autoridade, a palavra final. Entretanto, o ímpeto de contrariedade às normas e às regras sanitárias exigidas pelo contexto não deve ser lido como uma opinião divina simbolicamente atribuída ao que essas lideranças dizem, mas sim como a divinização de opiniões que não possuem simetria nem mesmo com tal regra de fé, ou seja, a bíblia. A eleição do atual presidente expressa exatamente isso. Querem um governo terrivelmente evangélico (e eu peço que Deus nos livre, afinal, é de uma assimetria abissal com princípios que fundam o Novo Testamento, a mensagem do Cristo).  É, ainda, um projeto de poder político que exclui, marginaliza e oprime aqueles tidos como inimigos desse deus imóvel, sem orelhas, sem boca e sem nariz que criaram – e, com isso, aponto para a natureza disforme e descaracterizada daquilo que optaram por adorar. Recorrendo a uma reflexão de um texto antigo meu sobre “opinião”: se deus é o que eu quero, logo, não há deus; há um projeto, um esboço e uma figura que alimenta meu ego e está submetido aos meus mandos e desmandos e, nesse tipo de relação, não há amor sacrificial, amor do tipo de Deus, portanto, não há testemunho da obra de Cristo na cruz — a rigor, o ponto alto da tradição da fé cristã. Há um desgaste quanto às leituras de autoridade, sobretudo em um governo que investe na manipulação de um grupo cuja regra de fé, ao invés de amparar a sociedade em tempos tão ruins, tem sido renegociada para se adaptar a um genocídio televisionado.


Gyovana Machado é cristã, formada no Seminário Rhema Brasil, graduanda em História pela UFJF, bolsista no LAHES, interessada nas grandes áreas de teologia, política e feminismo.


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