O LIVRO QUE O IMPERADOR TRADUZIU

Os livros não apenas cumprem a função de meros “depósitos” de conteúdos publicados em determinados momentos da história, mas também carregam as marcas dos usos e abusos dos sujeitos históricos através do tempo. A fim de exemplificar o que estou dizendo, apresentarei a trajetória de um livro pertencente à seção de obras especiais da Biblioteca do Museu Mariano Procópio: El Licenciado Torralba, do escritor espanhol Ramón Campoamor (1817-1901), publicado em Madrid, em 1888, pela Librería de Fernando Fé.

O livro alcançou significativo sucesso no final do século XIX e início do XX, fazendo-se presente em diversas bibliotecas até hoje. Entretanto, optamos por lançar o foco sobre o exemplar da Biblioteca do Museu Mariano Procópio, tendo em vista as marcas de proveniência que o individualizam e contribuem para conectar as trajetórias de vida de vários personagens históricos. A obra em questão apresenta pequenas dimensões, encontra-se encadernada em capa dura e desfalcada em algumas dezenas de folhas. Possui, no verso da capa, uma minúscula etiqueta com o número de arrolamento do Museu, que comprova seu pertencimento à coleção do fundador da instituição, Alfredo Ferreira Lage. Logo em seguida, verificam-se diversas anotações ao longo das páginas. Na primeira folha, um registro a caneta, datado de 3 de novembro de 1917 e assinado por Eduardo de Menezes, informa que as anotações a lápis, por entre as linhas do texto, são traduções feitas, do espanhol para o português, por D. Pedro II. Na ocasião, o segundo monarca brasileiro se encontrava a bordo do navio Alagoas, em viagem de exílio à Europa, após o golpe civil-militar que o destituiu do poder em 15 de novembro de 1889.

Imagens 1 e 2 – Declaração de Eduardo de Menezes atestando a autoria da tradução (foto 1) e traduções a lápis, feitas pelo imperador (foto 2).

Campoamor não foi o único, mas um dos autores que fizeram parte do repertório de traduções do imperador. Conhecido como “mecenas das artes, das letras e da ciência”, o segundo imperador do Brasil dedicou-se desde cedo à leitura e ao estudo dos idiomas, como grego, latim, inglês, francês, italiano, provençal, alemão, hebraico, sânscrito, além do tupi-­guarani. Como parte de sua rotina diária, traduzia diversas obras clássicas, como As mil e uma noites, Odisseia, Os Lusíadas, trechos bíblicos, dentre outros, para diversas línguas. No decorrer da viagem do exílio, o monarca destronado, já idoso, com o estado de saúde debilitado e sentindo o progressivo comprometimento de sua autonomia na dedicação às letras, não abriu mão de manter sua rotina de leituras e traduções. Em diversos momentos, pedia a familiares e amigos que lhe fizessem leituras em voz alta e o auxiliassem nas transcrições. Em 22 de novembro de 1889, ainda a bordo do Alagoas, mencionava a cópia que fizera de um poema de autoria não mencionada, entregue ao médico Motta Maia, justificando que “sem os seus cuidados não poderia tê-lo feito”.

Os temas filosóficos contemplados por El Licenciado Torralba parecemfamiliares ao interesse do velho imperador, que, na infância, acostumara-se a repetir, em seus exercícios de caligrafia, a máxima aristotélica “A felicidade é um hábito”. Leitor assíduo dos filósofos, parece relevante supor que seu erudito repertório intelectual estivesse permeado de complexos dilemas, como os antigos dualismos entre matéria e espírito, corpo e alma, homem e mulher, céu e inferno, virtude e vício, moral e hipocrisia, etc.

No livro, Campoamor aborda a saga de um homem, Torralba – personagem inspirado num dos condenados pelo Tribunal do Santo Ofício espanhol, no século XVI – e de uma mulher (Catalina). O autor traz à tona alguns conflitos humanos enfrentados na busca da felicidade. A felicidade estaria centrada no prazer da carne ou no espírito? Na pureza ou no pecado? Na verdade ou na mentira/hipocrisia? No conhecimento ou na ignorância? Catalina, após buscar a felicidade no anjo, no homem e no diabo, escolhe o caminho da glória e da salvação. Torralba, por sua vez, após buscar a felicidade no amor puramente espiritual da mulher, sente falta dos prazeres carnais, o que o leva a produzir Muliércula, uma mulher de pura matéria. Logo em seguida, descobre que Muliércula precisava de um espírito que animasse sua matéria, e decide ir ao inferno à sua procura. Porém, também desiste de procurar a felicidade no inferno, para, no final das contas, procurá-la na morte, materializada em sua condenação pela inquisição. Entendida como a metáfora do mais profundo niilismo e vazio, a iminência da morte encorajou Torralba a denunciar as hipocrisias, mentiras, injustiças e manipulações humanas, inclusive as cometidas sob a tutela da moral religiosa.

Concluída a tradução, o monarca teria doado o livro ao Conde de Motta Maia, médico de sua confiança, que o acompanhou durante toda a viagem. Tempos depois, o exemplar chegou às mãos de Eduardo de Menezes. Não é difícil entender o destino do livro, uma vez que Menezes e Motta Maia estavam conectados à mesma rede de relações sociais. Nascido em Niterói (RJ) em 1857 e formado médico pela Escola de Medicina do Rio de Janeiro na década de 1880, Menezes realizou cursos no exterior, esteve em exercício na Casa Imperial, foi professor adjunto da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e casou-se com a sobrinha de Motta Maia, Maria do Carmo. A proximidade do médico com o círculo de sociabilidade do imperador pode ser verificada, inclusive, nos famosos diários do monarca, em dezembro de 1887: “[…] falava com o Dr. Eduardo de Menezes parente do Mota Maia – acaba de frequentar cursos na Escola de Medicina de Viena e a mulher dele. […] Escrevi cartas para Charcot, Brown Séquard e German See recomendando o Dr. Eduardo de Menezes, casado com a sobrinha do Mota Maia.”

Imagem 3, 4 e 5 – Imperador D. Pedro II e o médico Conde de Motta Maia. Acervo do Museu Mariano Procópio (MG). – Eduardo de Menezes e sua esposa, Maria do Carmo, sobrinha do médico do imperador, Conde de Motta Maia. Acervo do Museu Mariano Procópio (MG).

A tradução de D. Pedro II, até onde se sabe, não chegou a ser publicada, não derivando daí a explicação para a ampla difusão da obra de Campoamor por diversos países da América Latina. No Brasil, curiosamente, o escritor se tornou um dos cognomes do poeta Belmiro Braga (1870-1937), natural de Juiz de Fora. Nacionalmente conhecido como “Campoamor Mineiro” nas três primeiras décadas do século XX, Belmiro se confessava leitor do escritor espanhol, além de arriscar algumas “traduções amadoras” ou “bárbaras” (segundo ele mesmo dizia) de seus poemas para o português, conforme escreveu ao amigo poeta Antonio Salles, em 1909. Ironicamente, o poeta explicava que não era “culpado” por assim o denominarem, dizendo que nenhum protesto contra o atrevimento dessa comparação havia acontecido porque, quando ela surgiu, Campoamor já havia falecido. Reservadas as devidas proporções e especificidades, o fato é que as produções literárias do trovador popular mineiro e as do poeta espanhol possuíam características em comum, como a ironia romântica, a poética reflexiva, o olhar atento aos costumes cotidianos, bem como o uso de uma linguagem palatável a um público mais amplo e heterogêneo, favorecendo apropriações de seus versos pela oralidade.

Belmiro Braga, Eduardo de Menezes e Alfredo Lage, além de se conhecerem, eram homens de letras bastante ativos na sociedade juizforana. Os três compartilhavam espaços de sociabilidade muito conhecidos em Minas Gerais, como a Academia Mineira de Letras, fundada em 1909, da qual Eduardo e Belmiro eram membros fundadores, sendo o primeiro presidente até 1915 e o segundo, tesoureiro. No instituto educacional metodista Granbery, Menezes e Belmiro atuaram, respectivamente, como professor da Escola de Farmácia e Odontologia e inspetor de ensino secundário. Menezes também foi membro fundador da Liga Mineira contra a Tuberculose, fundada em Juiz de Fora em 1900, com o objetivo de estudar os tratamentos e os métodos profiláticos da referida doença e oferecer suporte filantrópico aos pacientes. Belmiro e Alfredo eram também sócios e assíduos frequentadores das reuniões da Liga, além de colaborarem no jornal O Pharol.

Vale destacar ainda que, em 1921, Alfredo Lage se notabilizava em seu projeto de inauguração oficial do Museu Mariano Procópio. Oriundo de abastada família do Império, com intensas relações com a família imperial, Alfredo Lage manteve os vínculos com os imperiais durante a Primeira República e arrogava para si o papel de guardião das memórias do pai, Mariano Procópio Ferreira Lage (1821-1872), e da monarquia brasileira, em tempos de transição para o regime republicano. Nesse sentido, amealhou diversos objetos relacionados à monarquia, através de leilões e doações efetuadas por pessoas ligadas à sua rede de sociabilidade. O exemplar El Licenciado Torralba faz parte dessa lista, embora tenha sido doado mais tarde, em 1941, por Eduardo de Menezes Filho, conforme atesta o relatório apresentado pela Prefeitura Municipal de Juiz de Fora ao governo de Minas Gerais: “Dentre as doações recebidas, deve-se destacar a do ilustre conterrâneo Dr. Eduardo de Menezes Filho, cuja doação é uma relíquia de História e Literatura, El Licenciado Torralba, de Campoamor, com tradução, entre linhas do próprio punho de nosso grande Imperador D. Pedro II”. Há de convir, portanto, que a aquisição dessa obra se mostra coerente com o colecionismo do fundador e suas redes de sociabilidade, sendo importante situá-la historicamente nos termos de uma prática colecionista atrelada aos esforços de perpetuação da memória monárquica brasileira.


REFERÊNCIAS

DAROS, Romeu Porto. Dom Pedro II: o imperador tradutor. Scientia Traductionis, n. 11, 2012. Disponível em: http://dx.doi.org/10.5007/1980-­4237.2012n11p227.

MUSEU IMPERIAL DE PETRÓPOLIS. Diários pessoais do Imperador D. Pedro II.

PINHEIRO, Priscila da Costa; VICENTE, Sérgio Augusto Vicente. Aprendiz de Imperador. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, ano 10, n. 110, novembro de 2014, p. 68-71.

ROMANELLI, Sérgio.  O Imperador do Brasil e suas traduções:uma nova leitura (ou a primeira?). Caderno de Letras, n. 23, jul. 2013-jan. 2014.

RUIZ, Ricardo Navas. Campoamor y la ironía romântica:reflexiones sobre El licenciado Torralba. Disponível em:http://www.cervantesvirtual.com/obra-visor/campoamor-y-la-ironia-romantica-reflexiones-sobre-el licenciado-torralba/html/ee04c491-2e03-4e03-9114-11142ff78886_2.html#I_0. Acesso em 19/03/2021. SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Cia. Das Letras, 1998.


Sérgio Augusto Vicente é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.


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1 comentário

  • Sérgio, que texto rico, que abre uma ampla visado dos acontecimentos e relacionamentos do Imperador! Também da sociedade á época, seus valores e contradiçôes.

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