IDENTIFICAÇÃO, IDENTIDADE E AÇÃO

Nós passamos a maior parte das nossas vidas reparando nas semelhanças e diferenças que temos uns com os outros – e nos agrupando em decorrência das conclusões que essa prática traz. É desse conjunto de fatores (que nos fazem ser diferentes de alguns e similar a outros) que achamos os pontos em comum entre nós e que somos capazes de nos posicionar em sintonia com aqueles indivíduos que partilham dos mesmos padrões que nós.

Somos capazes de internalizar aspectos do mundo que conversam conosco e, ao mesmo tempo, externalizar questões pessoais para a sociedade, de forma a promover identificações. Uma relação dual e inseparável.

A partir dessa identificação – interna e externa – é que surge o conceito de identidade. Fatores como idioma, cultura, contexto social e localidade são muito relevantes nas construções identitárias; mas, para além disso, as ideias se apresentam como um pilar de sustentação. As ideias são construções. São urgências que enlaçam determinadas mentes, em diferentes temporalidades e localidades, mas que eventualmente se encontram e, juntas, dão um passo. Isso se reflete na educação como um alvo a ser alcançado, de forma emancipatória, assim como afirma Paulo Freire: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão”. (FREIRE, 1987, p. 52).

O agrupamento como parte da construção de uma identidade social e individual também se aplica às artes. A expressão artística é singular de cada artista. Contudo, toda sua construção visual, poética e sensível vem do grupo ao qual este artista pertence. Esses grupos podem ter diversos recortes sociais, e cada um deles é influente e constroi um pouco daquela expressão.

O artista nada mais é que um produto de suas vivências, interesses e saberes. Mas, principalmente, uma figura que se dedica a investigar tudo, todos e principalmente a si mesmo. Sua expressão é um reflexo dessa constante pesquisa.

A pesquisa é fundamental para o artista, e o artista é fundamentalmente um pesquisador. Essa pesquisa vem como ímpeto e método de criar e, justamente por esse caráter livre, permeia e vincula ao pesquisador de forma exímia. Isso pois o artista se dedica a ouvir os saberes que já carrega em si, que se construíram ao longo de sua vida e que se formaram através de outras pesquisas e saberes. Ele possui um ouvido ativo para aquilo e aqueles que o cercam. É a partir dessa transposição dos conhecimentos e das subjetividades que esse artista, como indivíduo, consegue criar suas características singulares e, paradoxalmente, suas identidades coletivas.

Criar de acordo com as circunstâncias políticas e poéticas do momento em que vivem é sempre uma janela aberta aos artistas, que podem articular as pautas identitárias e reafirmar suas problemáticas perante o público. É o caso de agrupamentos sociais como o movimento negro, feminista, ambiental e indígena. Mas não se esgota aí. Ao criar, eles se colocam na posição de observar e compreender a organização comunitária que os cercam e, a partir disso, fazer uma leitura política e social das existências – individuais ou coletivas. O potencial transgressor da arte faz com que ela saia da esfera narrativa e se transforme em ação.

Um agrupamento artístico é uma onda consonante e crescente. Essa agitação faz com que as insurgências se encontrem e se organizem estética e simbolicamente, com o intuito de reagir aos discursos que vão na contramão de seus posicionamentos. Da radicalidade organizada surge o termo artivismo.

Um exemplo extremamente representativo dessa ação é Ailton Krenak na Assembleia Constituinte de 1987, onde pintou seu rosto com tinta preta durante seu discurso em que protestou sobre os retrocessos na luta pelos direitos indígenas. O artista, que muitas vezes pode nem se reconhecer assim, faz de sua arte uma forma de militância, desdobra seus esforços para criar a partir de questões que despertam indignação e buscam a revolução nisso. Essa relação se estabelece em âmbitos cada vez mais profundos, se encontrando nos percursos estéticos e nas interlocuções dos posicionamentos políticos no mundo.

A arte permite uma construção de caminhos capazes de questionar e transformar as organizações sociais. Impulsionar movimentos através de sua circulação, promover o acesso, convocar e criar identificações – e portanto identidades.


REFERÊNCIAS

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.


O Laboratório Informal de Arte-Educação (LABIARTE), desenvolvido por Ariel Bertola e Clara Downey, é uma plataforma virtual que promove dinâmicas interativas a fim de desmistificar a arte enquanto área de conhecimento.


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