[EXPOSIÇÃO VIRTUAL] OCO

Encontramo-nos na antiga estação de Canelas. A mesma convoca-nos para um estado meditativo, visto predominar nas suas imediações tanto o silêncio como uma paisagem rural que nos deixa espaço para a contemplação. Descansando encostado a uma ria que se expande e encolhe com as marés, respirando para dentro da paisagem natural que se percebe continuar para além dos limites visíveis, apercebemo-nos também por outro lado, do seu estado atual de inoperatividade: a estação está completamente fechada, não recebe mais ninguém, já lá não se compram bilhetes, não se trocam informações, não se espera, não se descansa, não se entra nem sai, não inspira nem expira. Desdobra-se então o primeiro silêncio. Aquele silêncio inaugural da paisagem que circunda a estação e parece invadir-lhe o interior do
corpo, agora oco, sofre uma ressignificação à medida que entra e consome o lugar.

Imaginemos um desenho onde podemos observar o fundo branco da folha invadir a figura sobre ele inscrita através de um gesto gradual de apagamento pelo seu contorno, absorvendo-a, levando-a a um estado de “quase silêncio”. Podemos talvez apercebermo-nos de que, da mesma forma que aquele “natural branqueamento” do tempo não é o mesmo tipo de branco inaugural da folha virgem, também aquele silêncio atual, que emana da estação não é da mesma natureza do silêncio que compõe a paisagem em torno dele. A estação serve agora para albergar este silêncio, que pode ser entendido como composto de marcas de fantasmas, de matérias que são impermeáveis ao tempo, apresentando-se como um abrigo de memórias que atribuem a tal silêncio uma determinada latência, ela acolhe-o.

Esta estrutura que faz intenção de manter a sua estável verticalidade, demonstra encontrar-se ainda em potência de vir a ser aquilo para que foi destinado, no entanto estranhamente assemelhando-se também a uma ruína, sem no entanto sê-la, torna-se mais do que isso, torna-se efetivamente num lugar onde se constrói um presságio de algo que ainda estará por vir. A paisagem terá tendência a consumi-la, ouve-se por dentro, sabe-se, mas ela ainda resiste e por isso ainda se consegue ouvir do interior das suas paredes alguns ecos provenientes de uma constante descarga elétrica que as mesmas ainda carregam.

Encontramo-nos perante um local de tensão entre a funcionalidade para o qual foi construído e a entropia que “naturalmente” tem tendência a recontextualizar o espaço derivado da sua obsolescência, tenta revitalizá-lo, transformá-lo noutra coisa, num posto de turismo (Estação Viva), ou ainda num espaço de intervenção para a arte contemporânea, como é o caso do trabalho que inaugura Mário Afonso com o apoio do município. É a partir do convite do mesmo à artista Mónica Garcia (Setubal, Portugal, 1989) que o trabalho apresentado aqui se desenrola enquanto uma proposta, apresentada pelo nome de “Oco”.

Deste trabalho, o espectador irá confrontar-se com uma instalação site-specific que aborda este fenômeno de diluição da identidade com a paisagem através da construção de imagens essencialmente sonoras as quais sublinham as relações de tensão do espaço com tempo. Dinamizando a figura desenhada sobre a paisagem, enviando-a para trás da superfície da folha, pretende-se abrir uma nova fresta por onde se possa espreitar.


Estação é um espaço cultural localizado na cidade de Canelas (Portugal), idealizado pela Junta de Freguesia de Canelas e pelo artista plástico Mário Afonso. O espaço tem o intuito de divulgar o trabalho de artistas nacionais e internacionais, de várias áreas artísticas, realizando exposições e oferecendo, à freguesia de Canelas, acesso gratuito a projetos culturais atuais.


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