POLÍTICAS DA VOZ

Gostaria de perceber que no momento de falar uma voz sem nome me precedia há muito tempo: bastaria, então, que eu encadeasse, prosseguisse a frase, me alojasse sem ter percebido em seus interstícios como se ela me houvesse dado um sinal, mantendo-se, por um instante, suspensa. não haveria, portanto, começo; e em ver de ser aquele de quem parte o discurso, eu seria, antes, ao acaso de seu desenrolar, uma estreita lacuna, o ponto de desaparecimento possível.
Michel Foucault

Foi tua voz
Encantamento
Que, sem querer,
Nesse momento
Vago acordou
Um ser qualquer
Alheio a nós
Que nos falou?
Fernando Pessoa

Somos todos ventríloquos.
Mladen Dolar

Uma apressada perícia no campo dos mal entendidos na comunicação acabaria por ignorar uma questão básica que pouco tem a ver com a popularidade de termos como assertividade ou empatia, a saber: a irremediável disjunção provocada pela linguagem. Ela é o que cria a divisão subjetiva própria entre cada sujeito e si mesmo, algo como uma suplementação virtual – que aliena, ao mesmo tempo em que inaugura simbolicamente, a subjetividade.

A intensificação do uso de chamadas de vídeo pode servir como ponto de observação para essa curiosa vista: além do questionamento do que significa estar presente ou não, distante ou não, o mal-estar da conexão provoca uma estranha variação na experiência do falar e escutar, sobretudo quando travamentos, congelamentos e quedas de internet nos colocam diante de imagens que não coincidem com o som da voz, nem com o suposto movimento real daquele corpo do outro lado da tela; lentificação das expressões faciais e sonoras, ou simplesmente a dissolução daquela presença imagética devido a cortes da rede.

Por um instante, aquele assombroso fenômeno de uma voz desencarnada – uma onda aérea totalmente alheia ao corpo – impressiona como se houvesse um desvelamento estrutural do fenômeno humano em si. Mas não é que aquela voz, quando se descola do corpo, nos advirta de que aquele contato é irreal. É que esse atravessamento espectral revela que na própria realidade, toda (não-)relação comporta esse grau de virtualidade, como um excesso de real que destitui nosso senso de humanidade.

A voz, na verdade, se apresenta como esse objeto interveniente, que não é, substancialmente, nem do Um nem do Outro. A voz que ressoa, ressoa o vazio de uma ausência que, ao mesmo tempo em que parece sair de um corpo, não pertence a ninguém, está fora das categorias de possessão, já que cria uma lacuna entre o ser falante e o inquietante som da sua voz. E esse vazio-ausência aparece na medida em que notamos o centro não localizável da origem da voz – ela surge de uma “interioridade” inexistente, um invisível absoluto.

Esse parece ser o quadro mais adequado pra pensar a subjetividade nos moldes lacanianos. Para Lacan, o sujeito do inconsciente se assemelha à estrutura da garrafa de Klein – um objeto topológico de quatro dimensões no qual a noção de fora e dentro se confundem, possibilitando uma continuidade permanente. Ora, se a voz é esse limite entre o sujeito e o Outro, como diz Mladen Dolar¹, ou, nos termos benjaminianos, um limiar, um lugar-entre, é porque a própria noção de alteridade redimensiona-se para o nosso encontro com a linguagem: ela nos dividiu, mas não entre o dentro e o fora, e sim numa divisão estrutural, criando uma relação que Lacan chamou de extimidade.

Isso parece contrastar com a ideia de que a urgência de nossas políticas sociais consiste em dar voz àqueles grupos minoritários que teriam sido demovidos da esfera de representatividade institucional. Foucault fala com quem sofre dessa terrível questão: “existe em muita gente, penso eu, um desejo semelhante de não ter de começar, um desejo de se encontrar, logo de entrada, do outro lado do discurso, sem ter de considerar do exterior o que ele poderia ter singular, de terrível, talvez de maléfico”². Não se leva em conta que a voz não é domesticável, mas sim que representa uma alteridade radical contra a qual as tecnologias de controle institucional asseveram-se constantemente. Diante disso, a voz em sua objetalidade confronta-nos a partir de sua falta de origem, que cria uma política outra de alteridade; a voz nos convida a um limiar que desmonta o caráter possessivo do discurso e aponta pra um lugar-entre e anti-fronteiras: a nossa responsabilização por algo que não é de ninguém, porém irredutivelmente comum.


REFERÊNCIAS

¹Ver mais em “Mladen Dolar: Somos todos ventríloquos”, LavraPalavra, 2015.

²FOUCAULT, M. A ordem do discurso (1996).


Micael Correia tem 22 anos e é um escritor não-autorizado. Faz graduação em Psicologia e nutre interesse por Psicanálise, Cultura e Religião.


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