LIBIDO E PANDEMIA: A PULSÃO DE VIDA EM TEMPOS DE MORTE

2021. Ano dois da pandemia. Abril. Segunda onda de contaminações do novo coronavírus no Brasil.

E ainda tentamos entender um “novo normal”, quando ainda não temos nem um “normal” que possa representar algo diferente do que vivenciávamos no período pré-Covid. Entre os parâmetros que compõem o nosso normal costumeiro, temos a busca de padrões, sentimentos e desejos semelhantes aos que eram possíveis em um mundo no qual não lidávamos com uma escalada de mortes cotidiana.

E, muitas vezes, seguimos na cobrança incessante de mantermos a libido sexual ativa. Questionamentos sobre falta de motivação, desejo, tesão são cada vez mais comuns. Em páginas focadas sobre o tema, são numerosos os seguidores perguntando “o que eu faço para aumentar minha libido? Parece que ela sumiu”.

Em primeiro lugar, é essencial entender: a libido não é desejo sexual – ou, pelo menos, não está limitada a isso (em primeiro lugar, honestamente, poderíamos discutir o que é definido como “o que é sexo? O que é sexual?”, mas deixemos essa discussão para outro momento). Segundo Freud, libido é a “energia que surge dos nossos instintos ou das pulsões e que direciona nossos comportamentos”. Pode advir, assim, da pulsão de vida ou da pulsão de morte. A primeira é a que direciona, por exemplo, sentimentos, emoções e desejos direcionados para o prazer, por exemplo; prazer esse não limitado apenas à concepção de sexo. Uma boa comida, um salto de buggie jump, uma experiência estética fantástica: tudo isso pode nos gerar prazer. Nos gerar gozo. E está tudo bem.

Mas voltemos à libido voltada para sexualidade.

Alguns sentem que a proximidade com o “medo da morte” potencializa esses desejos. Afinal, se encaramos a possibilidade da efemeridade da nossa existência tão próxima de nós, batendo a porta a cada noticiário, ou a cada publicação de familiares e amigos que faleceram por complicações da Covid-19, muitos sentem o anseio de viver tudo que precisam antes que o “mundo acabe”.

E ainda, dentro desse, há alguns que são movi1dos por uma lógica alimentada pela nossa sociedade neoliberal de que “tudo podemos”. Se há um interdito (como o distanciamento social), soa como se algo tivesse sido roubado da pessoa. Uma castração. E, assim, uma das consequências pode ser a pessoa adotar comportamentos de risco para pandemia – o que coloca em risco todo o pacto coletivo necessário neste momento.

Já outros sentem uma queda considerável no interesse por práticas sexuais. A mente não consegue fantasiar. Às vezes, há o desejo; mas a exaustão impede o direcionamento de nossas ações. Afinal, sobreviver é mais importante. Garantir subsistência ocupa nossa mente. Associado a isso, está um profundo sentimento de culpa. “Há algo errado comigo?”. Não. Há algo errado com o mundo. Há uma doença circulando, de forma descontrolada, por aí.

Contudo, nossa sociedade neoliberal precisa nos manter em nossas máquinas desejantes. O desejo como força motriz do mercado, como processo de produção. Se não desejamos, não adquirimos, não consumimos. Assim, mesmo diante da necessidade de focarmos na sobrevivência, precisamos consumir.

Afinal, consumo é, nessa lógica, intimamente ligado à felicidade. E a busca pela felicidade nos motiva ao consumo. O discurso neoliberal nos empurra para essa autocobrança: se está deixando a sua busca irrestrita pela felicidade de lado, está falhando. Seja feliz, esteja disposto o tempo todo, tudo que desvie disso é uma falha ou desistência.

Entre todos os tipos de desejo, aquele direcionado à sexualidade é, também, motor de consumo. Com isso, temos um constante sentimento de inadequação: se minha libido está baixa, há algum problema comigo. Patológico. Hormonal. Que precisa ser tratado quanto antes.

É claro que há casos e casos, nos quais há, sim, patologias que influenciam na libido. Contudo, é normal e natural que, em momentos de incertezas, nossos esforços estejam todos direcionados a sobreviver. Que nosso adoecimento mental impacte nossa pulsão de vida. O medo de uma doença desconhecida, do desemprego; o cansaço das rotinas de home office, de dupla jornada…

Estamos exaustos. Profundamente exaustos. Em todos os sentidos. Físico. Mental. Em muitos casos, não vai ter tesão que, de fato, se sustente nesse cenário. E está tudo bem.

Está tudo bem acendermos nosso instinto de autopreservação, ainda que toda nossa estrutura tente nos jogar para o lado oposto. Autocuidado também é revolucionário dentro dessa lógica neoliberal.

Nos rendermos a essa cobrança da máxima eficiência, inclusive, é contraproducente. Adoece corpos e mentes a longo prazo. Não há necessidade de agirmos de forma cruel com cobranças irreais quando o contexto por si só já nos gera angústia e sofrimento. Tome cuidado para não cair, por meio desse discurso, em uma busca que mais pode te afastar de uma libido genuína do que, de fato, “recolocá-lo nos eixos de um desejo sexual perfeito”. Respeite seu momento. Esse é um grande ato de resistência nesses tempos.


Luciana Rodrigues é doutoranda em Ciências Humanas e Sociais e defensora de uma educação sexual consistente e responsável. Idealizadora do projeto Hacking Sex (Medium e Instagram).


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