[CAÇADORA DE HISTÓRIAS] ANDRÉIA PIRES: VEJO CORES EM VOCÊ

Azul é uma cor que faz a nossa mente fabricar diversas sensações. Água, imensidão, profundidade, liberdade, leveza, serenidade. Transparência, bálsamo, ancestralidade.

E tem o amarelo que aquece, ilumina, mostra a poeira que baila no ar e não esconde nada. Ele pinta o sol, a areia, os ovos que estalam na frigideira numa manhã de domingo. Ele nos amolece, nos encanta, nos dá vontade de criar.

Mas, espera… Tu deves estar te perguntando: “porque ela não para de escrever sobre cores? Vou ler sobre uma/um artista ou consultar uma paleta de tintas?”

Bem, digamos que… os dois. Andréia Pires é uma artista que possui muitas cores, mas em especial essas duas: azul e amarelo.

Foto: Arquivo Pessoal

Nasceu no sul do sul, do sul: Rio Grande, na quentura do dia 10 de dezembro de 1984, levando ainda mais amor para o ninho seu pai Nelcy, mãe Alice e seu irmão Bruno. Desde sempre, Andréia caminha de mão dadas com as palavras e, mais precisamente, a palavra escrita desde muito pequena. Foi numa tarefa de escola que percebeu uma conexão com a escrita que ainda não tinha vivenciado; desde então, nunca mais parou.

Os anos passaram, ela ingressou na faculdade no curso de Comunicação Social-Jornalismo (UCPel) e Letras- Português/Espanhol (FURG). Fez Mestrado em Letras – História da Literatura (FURG) e doutorado em Letras – Escrita Criativa (FURG). Em 2016, surgiu a Concha Editora.

Na época, estava terminando a tese de doutorado e a escrita do romance “O céu riscado na pele”.
O projeto da Concha junta a sua experiência com o coletivo de escritores Invitro (núcleo literário da produtora artística Mundo Moinho, que coordenou de 2012 a 2017), a falta de editoras na cidade e na zona sul do RS, e as descobertas que fez durante a pesquisa sobre representação e representatividade do município do Rio Grande na literatura contemporânea que era praticamente inexistente.

Naquele momento, a região possuía muitos escritores produzindo e pouquíssimos publicando livros e sendo reconhecidos pelo trabalho criativo. Por isso, a Concha Editora: Ela existe para colaborar com a cena literária no extremo sul.

Fonte: Arquivo Pessoal

Além de tanto talento, dedicação, estudos e trabalhos tão afetuosos para com o outro, Andréia leva sua vida pessoal costurada à mão – vida essa que é compartilhada com Bruno, seu parceiro, e três cachorros: Dora, Nino e Madá.

Do nascer do dia ao escurecer da noite, ela busca pausas e aconchegos que, através de fotografias, divide com as pessoas em seu Instagram. Essas pausas são constituídas por carinho no pelo macio de seus companheiros de quatro patas, pelo sol que invade a janela, pela música, pelo céu imenso, por uma árvore que dança e pelo meu preferido: café com docinho que, adivinhem, virou projeto de conexão com pessoas dos mais diversos vieses para atravessar a pandemia e alimentar a criatividade, levando um recheio mais adocicado do que as notícias nos trazem.

Por fim, sabe porque comecei esse texto falando de cores? Porque eu as vejo em Andréia. Na nossa artista do ramo da escrita, que vê poesia em todos os detalhes do cotidiano. Vejo azul por sua leveza de algodão ao conversar e escrever. Porque ela vive perto do mar, porque ela é do mar. O amarelo está no sorriso que ilumina, na espuma quase dourada do café, na rede que balança com o vento costeiro, no livro da Djamila Ribeiro que ela partilhou de forma extremamente necessária. E, na união azul + amarelo, o verde: cor das folhas, da salada que enriquece o prato, da esperança. Isso é o que Andréia Pires causa em mim e em tantas/tantos leitores: Esperança, ainda que as costas doam, que os olhos estejam pesando, que tudo pareça sem solução.

Fonte: Arquivo Pessoal

Olha, tive a oportunidade de entrevista-la e cada resposta traz um pouco mais dessa mulher talentosa e apaixonante enquanto ser humano, amiga e profissional. Vem ler comigo e depois faz uma visita em sua página, é uma dessas pessoas que vale conhecer.

1. Quando foi que sentiu o despertar para mergulhar nas águas da escrita?

Não foi de uma vez só. Olhando em retrospecto, a lembrança mais antiga que tenho da sensação – incrível, porque poderosa – de escrever para ser lida é a de anotar palavras no primeiro tema de casa, na primeira série (sim, pois 1991…). Acho que eu queria TANTO escrever que a professora deu uma tarefa, a de fazer uma lista com dez palavras iniciadas em A. A, a primeira e a última letra do meu nome, a primeira do alfabeto, a primeira vogal, tinha de ser uma letra relevante esse A. Logo entendi que era uma letra ponte, de conexão. E era a minha letra. Minha lista passou de 30 palavras, todas escolhidas e ordenadas no papel por mim, do meu jeito, enquanto na tevê passava a novela da vampira Natasha. Talvez nessa memória viva a semente da minha escrita e meu gosto por narrativas, evocá-la diz muito do sentido da autoria em que acredito: uma mistura de autonomia e do lúdico na urgência da expressão.

Depois, a escola me mostrou inúmeras vezes que eu me fazia compreender melhor por escrito. Do que a introspecção me convenceu. A primeira aula de literatura no Ensino Médio fez algo em mim dar pulos: era isso, seja já o que fosse, era. Dali em diante, todas as escolhas que fiz miraram a escrita de ficção. E, de muitas formas, acertaram.

2. Quem é a Andreia quando está escrevendo?

Uma criatura livre e em fúria – quando escrevendo ficção. A invenção, pra mim, é um campo imenso e sem cercas onde corro bem bicho, descalça, desgrenhada, desprendida. Aqui, a escrita é a chave que me destranca os portões.

Vivo da escrita, mas – é uma pena e uma sorte – nem só da ficcional. Ocupo minha agenda profissional e artística com outras escritas, principalmente a jornalística. Nessa ocasião, minha escrita se faz caber no molde dos fatos. Desde que entendi que escrever amplia minhas possibilidades e não o contrário equilibrar a balança ficou mais confortável. Busco sempre as frestas do texto ondo posso ser criativa.

3. O que diria pra ti mesma daqui 10 anos?

Escreve, Andréia. Escreve. Mal começamos a dizer.

4. O que é a escrita pra ti?

É o meu jeito de ser no mundo. Do instante em que acordo até dormir, a escrita ocupa meu pensamento, todos os meus sentidos, e filtra minhas experiências e atos. É, também, um lugar de absoluta liberdade, onde posso me espalhar e me recolher como bem entendo, sem censura. Acredito que escrita é para todos, que é direito das pessoas – e a maioria de nós nem pensa em acessar. Amo saber o que os outros dizem por escrito, é viciante. Escrita é poder. Poder-dizer. E eu gosto tanto de dizer, sabe? Então, digo. A escrita ninguém me tira.

5. Que marca tu quer deixar nas pessoas que leem teus livros, que participam das tuas oficinas de escrita criativa?

As narrativas de ficção que escrevo e viram livro inauguram mundos que nem sempre sei decifrar, mas todos pedem escuta, atenção, lida, algum respeito. São maiores do que a minha intenção de autora ou minha pretensão de artista-mulher-rio-grandina, gritam com vozes próprias depois que me deixam pra trás. Não são mais eu. Não quero cultivar expectativas quanto a essas histórias, mas falho: fico desejando que em algum lugar alguém leia, refaça o caminho e ressinta, com seus próprios filtros, o que eu vi.

Já nas oficinas, a ideia é além da vertigem da escrita de ficção, é antes compartilhar o gesto de escrever e suas possibilidades sem fim. As oficinas de escrita criativa que eu curto são espaços que priorizam a imaginação, a criatividade e os sentidos, onde as pessoas possam experimentar a própria escrita e tomar para si o poder de dizer o que desejam por escrito. Autoria é liberdade.


Queridas e queridos leitores!

Aqui, quem te escreve é Victória: Escritora, idealizadora do projeto Caçadora de Histórias e colunista da Revista TRAMA.

Começamos esse ano cheio de páginas em branco escrevendo a nossa e trazendo a coluna de maneira ainda especial, porém renovada. Aqui conecto minhas palavras com a arte que a revista respira e traremos, quinzenalmente, histórias de artistas de todos os vieses como literatura, música, cinema,
dança e muitos outros, ajudando a reforçar e relembrar o quanto somos bordados e perfumados por toda essa pluralidade.

Com carinho, esperança e muita fé,
Victória Vieira


Victória Vieira é escritora e idealizadora do projeto Caçadora de Histórias. Caçando e ouvindo histórias, vou escrevendo a tua com minhas palavras e te ajudando a ter um novo olhar sobre ela. Siga o projeto no Instagram.


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