PARA QUE DISCUTIR COM MADAME?

Andando pelo shopping no sábado de manhã, uma elegante Senhora passa em frente à livraria e resolve adentrar o espaço. Exausta da árdua missão de escolher um vestido para a festa da amiga, permitiu-se relaxar por um instante.  Mais do que depressa, pediu ao vendedor que lhe sugerisse um livro de História do Brasil; afinal, é tempo de eleição, de fazer escolhas certas. Para isso, nada melhor do que conhecer um pouco mais a trajetória do próprio país. Sem titubear, o rapaz responde:

– Naquela estante ali, à esquerda, tem vários exemplares.

– Não teria um mais resumido, mais didático? – Perguntou a Senhora.

– Se é esse o caso, indico aqueles outros ali, à direita. Podem ser do seu agrado.

Depois de uma hora, perdida em meio a tantos livros, a Senhora ainda não se decidira sobre qual deles levar para casa:

– É impressionante como não se fazem empregados como antigamente! – Resmungou a mulher com o cliente ao lado.

– O que a Senhora disse? – Perguntou o vendedor.

– Nunca vi tanta incompetência numa só pessoa! Estou aqui há uma hora e a única coisa que você conseguiu fazer até agora foi me deixar confusa, completamente perdida! O que você está fazendo aqui, meu filho, se não é útil à função que lhe pagam para executar?! É por isso que esse país não vai pra frente!

– Desculpe-me, Senhora! Não foi esse o meu propósito! – o rapaz se apressa e pega um volume na prateleira – Tenho este aqui: “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda.

– Chega! Não quero saber de ervas típicas do Brasil, meu querido!

– Acalme-se, Senhora! Temos este outro aqui: “Formação das Almas”, de José Murilo de Carvalho.

– Ah! Era só essa que me faltava! Se você ainda não entendeu, estou à procura de livro de História do Brasil, e não de espiritismo! Exijo respeito aos meus princípios! Sou Católica Apostólica Romana! – ela olha ao redor – Cadê o gerente?! Traga-me seu superior aqui, agora!

Imediatamente, chega o gerente, todo disposto a ouví-la:

– Pois não, minha Senhora! No que posso servi-la?

– É esse rapaz aqui, que conseguiu me tirar do sério! – Indignou-se a mulher, relatando os pormenores da situação.

– Não precisa se aborrecer, minha Senhora! Se nenhuma dessas opções lhe agradou, tenho esta aqui, que pode ser um bom começo: “História do Brasil pelo método confuso”, de Mendes Fradique. Leia-o e volte para nos contar o que achou. Tenho certeza de que será uma leitura surpreendente!

Dando-se por satisfeita, a cliente adotou a sugestão. Pagou a mercadoria e, carinhosamente, depositou-a na bolsa Louis Vuitton que segurava às mãos. Os reais motivos, ninguém descobriu; mas o fato é que, até hoje, vendedor e gerente continuam sem saber a opinião da elegante Senhora…


Sérgio Augusto Vicente é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.


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