VOCÊ QUER CASAR COMIGO?

Eles não haviam se conhecido da forma tradicional; o mundo era moderno naquele momento. Tudo estava diferente: as mulheres não ficavam mais casadas com o namoradinho da adolescência; as meninas já não se casavam virgens; nem todos os casais decidiam ter filhos; a concepção de família era diferente. Era a tecnologia, o que chamavam de futuro. Passou a ser comum, casais que se conheciam pela internet. Eram muitos os sites de relacionamentos… Sim, havia pessoas que nunca eram como diziam; mas havia quem estivesse, apenas, querendo encontrar alguém legal.

Eles se conheceram por e-mail. Ela havia recebido um daqueles e-mails com milhares de destinatários e resolveu analisar cada um dos nomes. Gostou de um dos e-mails que viu. Não sabia o motivo, mas achou interessante.

Por várias vezes lhe escreveu algo, mas apagou. Um dia, decidiu não apagar. Escreveu rápido, pediu desculpas pelo inconveniente, mas falou que estava querendo fazer amigos. E esperou para ver. Achou que ele não iria responder. Afinal, quem responderia o e-mail de uma completa desconhecida? Não tardou e a resposta chegou. Ele foi tão doce! Disse que ela não havia sido inconveniente e que seria ótimo serem amigos.

Ele perguntou como ela estava. De onde era. O que fazia. Queria ter perguntado mais, mas preferiu ir devagar. Ela estava bem e respondeu imediatamente: “Sou de Maceió”. E falou um pouco de si. Fez as mesmas perguntas e mais algumas. Ele não demorou, novamente, e respondeu. Era de Curitiba. E-mail vai, e-mail vem, eles foram se conhecendo cada vez mais. Passavam noites mandando e respondendo e-mails um do outro.

Já se falavam há uns meses quando resolveram migrar para o WhatsApp. Era uma forma mais instantânea de conversar. Conheciam-se um pouco a cada dia, a cada conversa. Passavam horas conversando. Já haviam declarado que não queriam estar com outras pessoas de suas cidades, que estavam apaixonados um pelo outro e que queriam estar juntos. Certo dia, resolveram fazer a tão sonhada chamada de vídeo. E foi ótimo poderem se ver.

Estavam juntos havia seis meses quando decidiram se encontrar pessoalmente. Nenhum deles tinha muito dinheiro: ela, auxiliar de enfermagem; ele, estagiário de um escritório. Mas desde que perceberam que, de fato, queriam estar juntos um do outro, começaram a juntar as economias. Assim que pode, ele pediu uns dias de folga e voou até o Nordeste. Ela estava ansiosa naquele aeroporto, e o recebeu numa felicidade tremenda.

Passaram dez dias juntos. Tudo pareceu tão maravilhoso! Perceberam que o que sentiam um pelo outro poderia ser ainda maior. Amaram-se antes da primeira vista. E, após o primeiro beijo, amaram-se ainda mais. Não queriam que aqueles dias acabassem. Numa das manhãs, ela lhe disse: “não saberei viver longe de você. Como vou fazer sem teus beijos?”. Ele a abraçou, beijou-a intensamente e continuaram deitados.

Chegada a hora, foram até o aeroporto. Ele estava prestes a embarcar. Haviam se beijado e se despedido. As lágrimas caiam de seus olhos, quando o percebeu voltando da porta, antes mesmo de entrar. Correu e o abraçou ainda mais forte. Ele a separou do seu corpo, olhou-a profundamente nos olhos e disse: “Você quer casar comigo?”. Ela ficou em choque; afinal, eram os primeiros dez dias que passavam juntos.

– Por que você quer casar comigo?, foi tudo que conseguiu responder.

– Para poder beijá-la a hora que eu quiser.

As lágrimas, que ainda não haviam secado, caíram ainda mais. Não conseguia controlar, mas conseguiu responder que sim. Ele embarcou. E ela ainda ficou, por alguns minutos, parada e olhando para a porta que, há pouco, havia se fechado. Voltaram a se falar pelos e-mails, pelas conversas e pelo telefone. O sentimento era mais forte, mais intenso. Havia mais certeza de que queriam estar juntos.

Decidiram juntar ainda mais as economias. Queriam se casar, estar juntos e mais nada. Em cerca de um ano, eles já estavam com uma boa quantia para começarem juntos. Ela iria morar em Curitiba, pois o emprego dele era mais certo, apesar de ser estagiário. Alugariam uma casa. Nada muito grande, já que era apenas para os dois. Não queriam luxo, queriam apenas estar juntos. Muitos não os entendiam. Mas eles já haviam desistido de serem entendidos.

Ela viajou para lá. Precisavam conversar mais algumas coisas, resolver outras. Quando começaram a conversar, perceberam que nem tudo era tão fácil como queriam. As dificuldades começaram a aparecer. Havia uma conta aqui, outra ali. Os vinte dias não foram exatamente um paraíso como os outros dez. Apesar de serem muito parecidos, havia algumas diferenças. Coisas que incomodavam. Coisas da convivência.

Faltavam dois dias para ela ir embora, e eles não sabiam mais se haveria casamento. Em momento algum pensaram em festa ou qualquer outra coisa grandiosa: queriam apenas estar juntos um do outro. Queriam não precisar mais de passagens para se ver, não estarem sempre com os dias contados. Queriam acordar um ao lado do outro. Mas, quando perceberam a realidade e as dificuldades, tudo pareceu tdistante e impossível.

Pouco antes de irem até o aeroporto, sentaram para uma última e definitiva conversa. Ele disse que não poderia lhe dar a vida que ela merecia. Ela disse que merecia estar ao seu lado e só. Que não queria mais nada. Que queria começar com ele uma vida, para juntos enfrentarem todas as dificuldades. Ele a olhou sem entender, meio tímido e sem jeito, e perguntou:

– Por que você quer ficar casada comigo, afinal?

– Para poder beijá-lo a hora que eu quiser.

Eles se abraçaram. Foram até o aeroporto, e foi a última vez que ela voltou para Maceió. No mês seguinte, mudou-se para Curitiba. Alugaram uma casa pequena, mas faziam planos para uma casa maior; afinal, as crianças precisariam de espaço…


Karina Mendonça é jornalista e escreve desde os 17 anos, pois acredita que as palavras podem fazer coisas maravilhosas, desde mudar o mundo, até fazer alguém sorrir. Ou chorar.


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