O DUPLO

Era quarta-feira de uma semana banal, dessas muitas desde que entramos em isolamento. No Brasil, sempre foi banal essa história de morte e de falta de governo desde que Bolsonaro assumiu. Por mais que seja mórbido, tem sido nosso “novo normal”. Presos em casa e separados de quem faz bem ao pensamento. Salvar vidas é melhor, mesmo que com isso derretam as mentes; afinal, o paraíso vem depois, bem depois disso aqui.

Era quarta-feira à noite, para ser mais preciso. Eu tinha chegado em casa depois do dia inteiro na rua, resolvendo questões de menor importância. Me sentei à mesa para ler as notícias pelo computador quando ele puxou a cadeira que fica na cabeceira, perto de onde o gato cochilava. Pensei que fosse dizer sobre o aniversário que se aproxima na semana seguinte ou que fosse me demover do Tempranillo. Não fez. Acendeu um cigarro. Olhava pra mim sem piscar. A impressão é de que lia pelo reflexo nos meus óculos as mesmas coisas que eu via na tela. Vestia um blusão rosa, calça cáqui; estava descalço, mas de meias. Eu podia ver a borda de uma tatuagem debaixo da manga da camisa. Exceção era o relógio analógico que usava. Um relógio preto, Boss. Eu moro sozinho.

O apartamento é pequeno, embora seja bem dividido. Um quadrado quase perfeito com janelas grandes, de fundos. Nunca vi um vizinho sequer. Desci os nove andares de escada uma ou duas vezes sem usar o elevador, e, depois do clonazepam, não houve uma noite sequer que eu não tenha dormido inteira, e sozinho. Mesmo assim, ele estava sentado ali fumando, me lendo. O duplo.

Particularmente, não gosto de relógios senão como peças estéticas. Comprei um desses smart e foi a grande frustração dos meus quase trezentos reais. Mas ele, ele não usava como enfeite. Ele usava como fita métrica. Naquela cabeceira, eu escutava o ponteiro dos segundos gemendo. Gemia de prazer por passar, e gemia também de desprezo, porque eu não passava com ele. São mais de trinta anos vividos – dos quais, talvez, cinco ou seis tenham sido icônicos. O corpo, sozinho, não dormia mais. Comia duas vezes ao dia uma comida que, fosse qual fosse, tinha o mesmo gosto de sal e alho. Amava uma mulher que não confiava nele. O duplo era meu tempo ruminando sem glamour na noite desta quarta-feira qualquer.

É esse o muro? Aquele lugar onde se chega, respirando fundo, para dizer amanhã que ontem tudo aconteceu do melhor jeito possível? E assim se repetindo semanalmente, até que uma ponte de safena precise ser feita ou que a próstata inflame? O cigarro do duplo apagou; foi quando acendi o meu. O gato resolveu se deitar no teclado do computador, ronronando. Agora eram dois metrônomos: o felino e o mecânico. Eu, o mesmo.

– Rapaz, vai acabar isso tudo – ele me disse, mas a voz não era a minha. Era a voz de um homem velho – É uma questão de linguagem de amor. Não existe interruptor de afeto. Quem ama, ama o amor, seja lá o que isso for. O que muda é a palavra. Da palavra, a gente duvida; e quando ela fica em falso, os relógios comem pessoas.

Ele dizia isso batendo com o indicador no vidro da mesa, com uma força tão grande que eu cheguei a pensar que poderia quebrar. Por um minuto, tive a sensação de que deveria sentir medo daquilo tudo. Não tinha bebido, nem usado outra droga, mas era eu ali. Medo de mim, em que medida? Estava estranhamente confortável com aquilo.

– Esquece, já deu. – De onde estava, ele apanhou meu celular e o levantou na altura da cabeça – É por você que vai fazer isso. É assim que vai deixar de se distrair. Você está morrendo, menino; está 33 anos mais cadavérico. Quando se muda de cidade? Com quem deseja viver o restante da vida? Desistiu de ir para fora do país? Isso aqui, esquece. Transgrida pelo que e por quem valha a pena.

O gato se levantou do teclado. A quinta temporada de Rick and Morty ganhou um trailer e uma data de estreia. Ainda é quarta-feira à noite, e eu estou com fome agora. Na cadeira que fica na cabeceira, uma camisa cinza pendurada. No celular, uma mensagem que me diz: “uma boa realmente, sempre foi o seu sonho”. Mas, no meu maço de cigarros, estão faltando dois. Não tenho ideia do que aconteceu aqui. Eu moro sozinho?


Vinícius Lara é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.


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