DESTINO MANIFESTO, CRUZADAS E A ASCENÇÃO DO CRISTOFASCISMO BRASILEIRO – PARTE II

Leia a Parte I

O curral eleitoral de Bolsonaro dentro das igrejas evangélicas faz parte de um movimento muito peculiar: o de alinhamento entre calvinistas, pentecostais e neopentecostais em prol de um mesmo candidato (mesmo que estes três segmentos tenham, consistentemente, depreciado uns aos outros ao longo dos anos). Uma unificação jamais pensada – ou talvez pensada apenas em contextos escatológicos, como o fim dos tempos no último livro da bíblia, o Apocalipse.

Parece até ironia que um “messias” tenha unificado alas tão divergentes dentro de um mesmo segmento religioso; mas antes que você me diga mentalmente que o Lula também unificou uma parcela de evangélicos, quero dar nome aos bois: na campanha de Lula em 2002, houve um combate sistêmico dentro das principais igrejas históricas no protestantismo brasileiro. Como a internet, à epoca, era ainda algo bem restrito, as igrejas e denominações compartilhavam em suas revistas institucionais as discussões sobre economia, fé, prosperidade e sobre como as igrejas sofriam perseguições nos países comunistas. Parece brincadeira, mas realmente acreditavam que havia um fantasma do comunismo rondando as igrejas assim como na década de 60.

Como a internet estava dando seus primeiros passos na popularização do uso, as principais notícias nos portais evangélicos eram sobre nações onde as igrejas eram perseguidas e seus integrantes, presos e torturados. Ora, este temor era o mesmo na época da guerra fria, quando os militares aplicaram um golpe antidemocrático e com apoio de grupos religiosos e claro, do “tio Sam”.

As informações na década de 60 eram as mesmas de 2002, e as mesmas que ainda circulam hoje: comunistas odeiam cristãos, seremos perseguidos no nosso país, vamos revidar! Afinal, o jesus deles dizia na bíblia “olho por olho e dente por dente…”

E assim, pastores e líderes entregaram seus irmãos de fé, de jornada, seus desafetos, aos militares para que fossem “tratados”.

Todos sabiam das torturas. Afinal, se a truculência era o bom dia nas ruas contra a população, o que se esperar de militares de tocaia? Uma conversa com café e torradas?!

A consolidação e o privilégio que as igrejas conquistaram ao apoiar o golpe proporcionou a elas riqueza e prosperidade, uma vez que o boicote e a perda da concorrência (através de prisões e assassinatos) faria com que aqueles “cidadãos de bem” tivessem acesso a empregos e a contratos com governos. Os militares povoavam congregações contribuindo com seus dízimos como uma barganha, para buscar e apreender rebeldes comunistas nas igrejas.

O tempo passou, e a pressão popular fez com que parte das igrejas pró ditadura mudassem de lado – graças, também, aos pensadores da teologia da libertação, que estava ganhando força e voz diante das desigualdades e atrocidades que rondavam toda a América Latina nas décadas mais obscuras do nosso continente. O tempo passou, e um novo conceito surge. Uma experiência de prosperidade, sem compromissos sociais desgastantes e te permitindo desfrutar da vida; surge, assim, o neopentecostalismo, que começa a “fisgar” fiéis em outros aquários e a ocupar espaços antes acessíveis apenas aos cultos, austeros e presunçosos herdeiros da reforma protestante. A vaidade e soberba dos cristãos históricos (não todos, mas uma parcela considerável) os cegou para as necessidades da sociedade, em reconstrução econômica e democrática.

Com a consolidação deste movimento nas mídias televisivas (em contrapartida ao espaço em rádio dos históricos e pentecostais), a força política permanecia nos evangélicos brasileiros, mas havia, agora, novos coronéis; estes apoiariam quem quer que fosse, apenas para se mostrarem detentores de uma promessa de poder e influência – afinal, eu, um pastor, que comecei em uma porta de garagem e hoje tomo café com o presidente, sou fruto da prosperidade que tanto falo.

Nesse contexto, surge o apoio a Lula na corrida presidencial de 2002. Os pentecostal e neopentecostais assumem o apoio e, nesse momento, os cristãos históricos tem uma cisma da relação já não tão estável – daí, o apoio na ideia do ecumenismo e na cumplicidade em apoiar a campanha da fraternidade promovida pelo CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs).

A ascensão do proletariado junto às faculdades, aos novos modelos de financiamento, aos programas sociais, e todo o desenvolvimento econômico que experimentamos na época trazem força a essa ala evangélica que apoiou o governo Lula. Suas ONGs, casas de recuperação, barcos hospitais no norte do país trabalharam, todos, para ampliar o braço do estado; claro, com o ônus de uma propagação de seus ideais religiosos.

Pois bem, as igrejas neopentecostais, que apoiaram a candidatura de Lula, não foram as únicas a serem beneficiadas; mesmo as igrejas históricas que não apoiaram o governo do PT usufruíram do desenvolvimento econômico, gerando uma consequência direta: a expansão do mercado Gospel.

Artistas evangélicos passam a ganhar palcos maiores; gravadoras vendem mais e mais discos e batem recordes; as campanhas nacionais de evangelização ganham proporções nunca antes vistas; as Marchas para Jesus se popularizam; a internet se torna mais acessível e o jogo muda: a influência do evangelicalismo norte-americano chega através das músicas e peças teatrais mostrando padrões, carros, estilos de roupa, novos (velhos) pensamentos teológicos e moralistas. Surge, daí, a base para o que temos hoje: uma muralha fundamentalista travestida de casa de eventos. A massificação cultural através das megaigrejas estadunidenses e australianas, com templos chegando a ocupações na casa das dezenas de milhares.

Nesse cenário, pessoas tornam-se números. Números são, então, manipulados por métodos de crescimento de igrejas importados sem nenhuma crítica quanto à nossa brasilidade e que, assim, mutilam a frágil identidade Cristã brasileira e a enxergam em um modelo americanizado, empresarial. Formatando pessoas, separando famílias e doutrinando o mundo a um olhar maniqueísta. Os métodos para tal, registrados em livros recheados de coaching e esquemas de pirâmides, usam a vida humana como moeda, tornando seus pastores os novos empreendedores da moda.

É claro, não podemos generalizar: as estruturas cristãs estão aí, algumas abrindo seus espaços, suas cozinhas e acolhendo a todes; outros, porém, seguem mantendo seus espaços sagrados a custo do sacrifício do indivíduo e da diversidade.

Um simples olhar e vemos, entre os 12 apóstolos de Jesus, as mais diversas identidades – jovens, funcionários públicos, rebeldes, assassinos, médicos letrados, pescadores. Enquanto isso, entre os escolhidos destes líderes religiosos, vemos um mesmo tipo de pessoa: os empreendedores, os donos de comércios (ou de vidas). É nítida a diferença entre os grupos, e é essa a base que sustenta, ainda hoje, uma campanha maciça em prol da reeleição de Bolsonaro em 2022.

Se você entrar nas mais badaladas igrejas nas mídias sociais hoje, você fará um passeio para os Estados Unidos sem precisar de passaporte: a estrutura, a estética do prédio, as luzes de shows, as roupas das pessoas, o linguajar, as músicas traduzidas com métricas que assassinam nossa língua e o tipo de mensagem sempre enfatizando na aparência, no ter, empreender. Se houve, uma vez, o funk ostentação, eu digo que hoje o evangelicalismo brasileiro que sustenta Bolsonaro é este: o gospel ostentação.

Ostentam luzes, fumaças, números e likes, cursos de sucesso, de relacionamentos, de empreendedorismo – que mais floreiam o imaginário e afastam os fieis da realidade que vivemos hoje. Líderes do povo se venderam a um dito “deus” – Messias – no poder, entregam os seus e os marginalizados como sacrifício para que a pirâmide continue de pé.

Em um tempo de um déspota fantasiado de presidente, em um tempo de extermínio de uma nação ou das nações indígenas que estão à margem dessa força destrutiva. Nesse tempo, celebrar a ditadura, negar a ciência, ignorar e desmerecer o sacrifício dos agentes de saúde na linha de frente, ser indiferente aos que tombam diante do descaso me faz questionar: estamos hoje reféns de uma nova cruzada? Os tais cristãos de bem, hoje ou amanhã, nos entregarão para o castigo e correção novamente?


Kariston França é amante de pizza. Palestrante desmotivacional, ex teólogo, professor, músico que já integrou um famoso grupo de pagode 90. Tenta seguir a vida escrevendo na Trama em mais seis projetos paralelos.


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