DEPRESSÃO E NEOLIBERALISMO: A URGÊNCIA DE TUDO PODER NA ANGÚSTIA DE NADA CONSEGUIR

“Devemos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos para ter a vida que nos espera.”
– Joseph Campbell

Você já ouviu falar no eneagrama das cores? Ou de emojis como ferramenta para expor suas emoções no início de um dia de trabalho? Ou talvez saiba me dizer do que se tratam as técnicas de mindfulness para amenizar os efeitos tóxicos de um ambiente de trabalho? Ah, mas tenho certeza de que já ouviu falar em aulas práticas de team bulding. Oi?!

Essas e outras técnicas estão na moda na chamada nova economia do século XXI. As empresas de tecnologia, Startups modelo, grupos de Marketing Digital e seus Digital Influencers, todos usam esse discurso como argumento para uma atualização da qualidade de vida nas empresas; contudo, o que se tem observado na clínica psicanalítica é que essas ações têm resolvido pouco (ou quase nada) sobre o sofrimento psíquico na contemporaneidade. Estamos na onda de discursos de inovação, de liberdade e de autorização de si mesmo; entretanto, o que vemos na prática e nos consultórios são funções lideradas cada vez mais na base da sociedade disciplinar e de controle

Nunca tivemos tão fácil acesso à informação e a mágicas soluções; nunca tivemos tanto suporte médico e de saúde como no início deste século. Mesmo assim, nunca sofremos tanto. Uma pesquisa de 2018, (portanto, pré-pandemia) da Revista Small Business Economics mostrou que 72% dos 242 empreendedores entrevistados estavam afetados por alguma questão da chamada saúde mental. A pesquisa também mostra que donos de negócios relataram ter mais depressão (30%), TDAH (29%), transtorno bipolar (11%), além de fazer uso de substâncias (12%), relata o psicanalista Christian Dunker em artigo publicado no Estadão. Para além, pesquisas pós-pandemia indicam o crescimento exponencial na incidência de casos de depressão, transtorno do pânico e fobias. Vivemos uma crise sanitária em médio e longo prazo inédita na história, com consequências funestas para o estado psíquico.

A pergunta que fica no horizonte é: por que sofremos tanto?

O que se percebe é a relação direta entre países neoliberais e a gestão do sofrimento psíquico. O mercado de trabalho, do final do século XX em diante, apresenta corporações avaliativas, baseadas na produtividade analítica e estatística e em contratos de trabalhos ínfimos e precários, muitas vezes sem nenhum tipo de benefício social, quando não muito com jornadas extensas e exaustivas. Mais do que isso, o incentivo à concorrência entre iguais e à construção de um discurso excessivo da “você s/a” nos fez objeto coisificado do mercado.

Outro agravante para essa pandemia de sofrimento psíquico que se alastra no mundo contemporâneo é a digitalização das relações em virtude do advento das Redes Sociais e seus Digital Influencers, que diminuiu a fronteira entre a vida pública e privada, gerando quadros de angústia ao ver o sucesso do outro em detrimento do próprio fracasso, causando uma sensação permanente de incompetência e insatisfação com o que se tem e com o que já se construiu.

O que se pretende com discursos enlatados como esse é criar uma cultura de exposição de afetos e de elementos emocionais íntimos, em uma busca incessante por naturalizar a vida nas empresas – como se fosse possível humanizar um ambiente que na sua essência só funciona por suas neuroses e patologias; sendo assim, nada muda; continuaremos no modo sofrimento psíquico. A virtualidade deu origem à fantasia de que todo mundo tem algo a dizer, mas isso nunca aconteceu; fantasiamos que podemos dar conta de tudo, mas não podemos. São da existência humana, a incompletude e a falta.

A despeito de todas as promessas da sociedade de consumo (que é só um braço possível do capitalismo dentre muitos outros), vemos hoje uma falência completa das soluções milagrosas, dos enlatados e dos clubes das “não sei quantas horas”. Discursos como esses que vemos na atualidade mostram uma dificuldade premente de entendimento por parte do humano das complexidades da contemporaneidade e da vida em sociedade. Queremos acreditar em um discurso individualista e pessoal de salvação de si mesmo, contrário à nossa angústia constituinte de pertencer ao laço social.

A sensação de desamparo, senão geral, está bastante alastrada, pois a covid-19 consubstanciou nossas incompletudes e desconstruiu certezas que a geração atual defendia a ferro e fogo. Há uma parte de indeterminação do real com que não temos o que fazer. Vivemos tempos sombrios: o máximo do desamparo, do desalento. Lutamos contra algo do invisível.

E toda essa carga psíquica se apresenta a nós no seio do neoliberalismo, não apenas um sistema econômico ou uma teoria do funcionamento da economia, mas também uma forma de vida determinada como gerenciadora do mal-estar do laço social e de uma verdadeira e poderosa intervenção do sofrimento psíquico. O discurso hegemônico da economia neoliberal é a nova forma de controle social da contemporaneidade e tem, no sintoma, uma forma de denúncia dessa insatisfação psíquica, sendo a depressão o maior exemplo de um corpo que sofre e de um psíquico avassalado em uma angústia ainda não nomeada.

Hoje, pela via dos discursos das redes sociais, amamos ser enganados e explorados na nossa empresa de si mesmo. Ovacionamos a derrota vazia de reflexão íntima e solitária, aplaudimos o estapafúrdio discurso da meritocracia individualista, normalizamos as crises incessantes provocadas pelo capitalismo, como se fosse a última para se chegar ao pote de ouro da felicidade – que nunca chega e se confirma de fato. Estamos cheios; contudo, esvaziados de sentido e simbolização.

Temos um discurso tão poderoso sobre o caminho para um tal sucesso que aceitamos sem questionar criticamente os manuais motivacionais e de gerenciamento que nos angustiam na urgência do fracasso que se avizinha, pois construímos objetivos inatingíveis; ao mesmo tempo, só nos resta acreditar que a responsabilidade é do próprio sujeito, incompetente por não conseguir – visto que, no perfil seguinte no feed das redes, sempre haverá um influencer que diz que fez e pode fazer de novo quando quiser.

Há uma cultura contemporânea pregando que o Estado vai acabar a qualquer momento, por isso não deveríamos esperar nada de governos e governantes e, se você tiver força, foco e fé, tudo estará ao seu alcance. Lógico, o oposto também: quem não consegue atingir seus objetivos (sucesso) é porque fez algo errado no processo, uma vez que chegar lá é só uma questão de querer e fazer. Discurso infundado e fantasioso.

Basta ir às livrarias, visitar sites e redes sociais para perceber do que estou falando. Vivemos tempos de fórmulas mágicas – “sete passos para o sucesso” e “aprenda a pensar como sei lá quem” – em uma busca incessante para provar o “case” de sucesso, que é possível chegar lá e vencer, com esforço, com mais produtividade, mais conhecimento. E, se algo der errado, a responsabilidade é do sujeito que não soube fazer direito. É muita gente ensinando o que eles mesmos não sabem fazer e nunca fizeram.

Empreender tornou-se autoajuda, uma bolha mágica na qual nossas faltas e angústias poderão ser resolvidas em definitivo, como um grande elixir para a miséria social e a grande desigualdade que vivemos no mundo. O mantra são milhares de livros e suas ideias que não se sustentam a um mínimo debate sobre o quanto o pensamento positivo, resiliente e produtivo poderá lhe basilar a conquistar seus sonhos e sua startup do coração. O empreendedorismo reduziu o sofrimento psíquico da existência humana a um mero detalhe discursivo, de fazer e acontecer. É a uberização da força de trabalho, do desejo e da vontade de existir, como se a culpa de todas as misérias do mundo fosse de cada sujeito separadamente.

Odiamos as verdades e as versões e participamos de uma cultura em que se vive a se informar de headlines e portais enlatados de notícias. O discurso do empreendedorismo cola muito bem em nossas fantasias sobre o social porque coloca tudo na nossa mão, tira do Estado seus desmandos, desvios e vazios institucionais e burocráticos. Essa cultura do “salesman selfie” é envolvida por muita resiliência, mindsets, millennials e centennials, coworking e homeworking, empodera daqui, empodera de lá, tudo com o objetivo de realizar reconfigurações de sua bios ou de programações de suas neuro manias diárias. No fim, o que vemos são dispositivos da hegemonia gramsciana em ação. Eu domino você, e ainda te faço acreditar que isso é liberdade.

A falta humana, contrária ao neoliberalismo e à sociedade de consumo, é o que nos move. A falta da falta na contemporaneidade traz um excesso que sufoca. A depressão é o maior sintoma do social da era moderna, é sofrimento psíquico que denuncia um sistema implodido em si mesmo pela sua fantasia de acreditar que é possível tamponar a nossa falta constituinte.

Nunca vivemos uma era de tantas possibilidades, de tanta apreensão de produtos, sonhos, desejos e ideias a consumir; contudo, nunca estivemos tão esvaziados em nós mesmos, graças a uma demanda excessiva por tempo produtivo e à negligência ao lazer a à reflexão. Nesse sentido, há uma pesquisa de 2016 do King´s College segundo a qual crianças de agenda cheia estão mais depressivas do que crianças inventivas, de mais tempo livre e de personalidade e cultura criativa, comprovando o sufocamento da saúde mental causado pelo espírito de produtividade acima de tudo.

Uma sociedade capaz de prometer tudo, de sonhos a grandes realizações, dos produtos mais luxuosos a grandes viagens, é uma sociedade incapaz de denunciar a falta; uma cultura em que tudo se pode é uma cultura patologizada. Não podemos tudo, não mesmo. A falta gera sujeito desejante, gera movimento, gera criação. A humanidade se fez na falta, as nossas melhores criações foram inventadas em nossos piores momentos. Sobre a vida real, prefiro Freud: quando o assunto é felicidade, ninguém se intromete na vida de ninguém. Esse percurso é solitário, singular e sem fórmulas mágicas.


Rodrigo Reis trabalha com psicanálise, é pesquisador de sofrimento psíquico no mercado neoliberal, criador do canal Cavaleiro das Letras, cronista, ensaísta e um apaixonado por literatura .


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