SOBRE OS TRAUMAS DO BRASIL

Como ficará a memória dos mortos pela COVID-19 no Brasil, futuramente? Como serão lembradas, as vítimas do vírus? Como será lembrado, o comportamento dos governantes?

Acredito que estas questões, apesar de já sermos capazes de especular respostas, só poderão ser respondidas no futuro. Porém, é possível que olhemos para o passado e reflitamos sobre o nosso presente. Existem, na história do Brasil, momentos que deixaram traumas para a sociedade: acontecimentos que atingiram a grupos ou à população como um todo e que não receberam políticas de memória, com o objetivo de evitar a reflexão histórica sobre o acontecimento em si e sobre os resquícios que ele poderia deixar para as futuras gerações.

Um exemplo destas feridas sociais é o sistema de escravidão, que vigorou por quase 400 anos da história de um país que tem pouco mais de 500 anos de existência. Mais de 2/3 dessa existência do Brasil foi sob um regime que explorava, subjugava e desumanizava índios, negros e os descendentes dessas populações. A nível global, no século XIX, houveram diversas teorias e produções científicas, realizadas sobretudo no continente europeu, que tentavam comprovar a inferioridade daqueles sujeitos a partir de suas características físicas e culturais. O que não foi comprovado.

No Brasil, esse complexo sistema de escravidão (que era a base da sociedade) foi abolido com pouco mais de dois parágrafos de uma lei e sem nenhuma política de inserção daqueles explorados na nova sociedade trabalhista – muito menos indenização pelos anos de exploração. A atitude do ministro Rui Barbosa em queimar os documentos que comprovavam a existência de um sistema de escravidão demonstra como o Brasil daquela época não queria lembrar do seu passado.

Durante todo o século XX, a teoria eugenista de branqueamento da população brasileira através da miscigenação foi amplamente incentivada pelo Estado Brasileiro, fomentando a imigração de pessoas do continente europeu. A criação da ideia de uma dita democracia racial, onde todas as raças conviveriam harmoniosamente, sem conflitos, foi vendida para o resto do mundo, exportando a ideia de um “paraíso das raças”. Tudo isso para mascarar a existência de traumas deixados pelo sistema de colonização e escravização, presentes até os dias de hoje em todas as sociedades atlânticas que foram palco para a presença da instituição escravista. A escravidão deixa traumas até os dias de hoje. Exemplo desses resquícios pode ser o caso dos três meninos negros, Lucas Matheus, Alexandre da Silva e Fernando Henrique, que estão desaparecidos desde o natal de 2020 e não há nenhuma comoção ou mobilização nacional para descobrir o paradeiro dessas crianças[1]. Ou o caso do menino João Pedro, que foi assassinado dentro de casa[2]. Ou, também, o caso das duas meninas negras, Emily Victória e Rebeca Beatriz, que foram assassinadas na porta de suas casas[3]. Todos esses casos aconteceram durante a pandemia da Covid-19 no Brasil.

Na segunda metade do século XX, com o “perigo comunista” rondando o globo, uma série de golpes – uns militares, outros civis-militares – foram sendo realizados por toda a América Latina. Os militares tomavam o poder por diversos motivos, mas a justificativa principal era a de afastar o perigo comunista do país, muitos influenciados por um imperialismo norte-americano capitalista. Dentro deste regime, os impedimentos de direitos políticos dos cidadãos, bem como a perseguição e o assassinato de todos aqueles que eram considerados subversivos, opositores ao regime, comunistas. No Brasil e em diversos países vizinhos foi assim.

A Ditadura militar brasileira caiu em 1985, mas a presença do autoritarismo é marcada até os dias de hoje na política e na vida social. O presidente está lutando pelo direito de comemorar o dia 31 de março, data que é marcada pelo início desse período que manchou a história do país de sangue[4]. E aqueles que foram mortos pelo regime? Qual tipo de justiça receberam por seus assassinatos? Somente no ano de 2011, foi instituída uma Comissão Nacional da Verdade, a fim de elucidar os fatos ocorridos naquele período. Apesar de já existir diversas pesquisas acadêmicas questionando e reconstruindo o período, foi necessário uma pessoa que foi perseguida, presa e torturada durante o regime, chegasse à cadeira da presidência para minimamente iniciar um movimento por parte do Estado de reconhecer e reparar os danos causados por ele mesmo.

A Escravidão e a Ditadura Militar talvez sejam os dois maiores exemplos destas feridas sociais que atingem a um grupo ou ao país como um todo, e que não é devidamente pensado nas consequências que deixaram para aqueles que foram diretamente atingidos pelas ações do Estado. Encaminhando para as considerações finais, algumas questões me vêm após esta breve reflexão. Entendo que o vírus SARs-COV2 é um fator biológico, diferentemente da Escravidão e da Ditadura Militar que foram ações humanas; mas também entendo que o Estado tinha poder para evitar que chegássemos a 300 mil mortos. Como será a reparação para aquelas famílias que foram destruídas pela pandemia da COVID-19? Como essas pessoas serão lembradas futuramente? O Brasil vai forçar o esquecimento como sempre faz?


[1] G1 – 27/02/2021 – Desaparecimento de meninos de Belford Roxo completa 2 meses sem pistas sobre paradeiro <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/02/27/desaparecimento-de-meninos-em-belford-roxo-completa-2-meses-sem-pistas-sobre-paradeiro.ghtml> Acesso em 24 de março de 2021

[2] G1 – 23/06/2020 – No dia em que João Pedro completaria 15 anos, mãe do menino faz desabafo: ‘dor só aumenta’ <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/06/23/no-dia-em-que-joao-pedro-completaria-15-anos-mae-do-menino-faz-desabafo-dor-so-aumenta.ghtml> Acesso em 25 de março de 2021

[3] G1 – 05/12/2020 – Meninas de 4 e 7 anos são mortas em tiroteio em Duque de Caxias <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/12/05/criancas-morrem-em-tiroteio-em-duque-de-caxias.ghtml> Acesso em 25/de março de 2021

[4] O Globo – 17/03/2021 – Justiça acolhe recurso do governo federal por direito de comemorar o gilpe militar de 1964 – <https://oglobo.globo.com/brasil/justica-acolhe-recurso-do-governo-federal-por-direito-de-comemorar-golpe-militar-de-1964-24929633> Acesso em 24 de março de 2021


Luan Pedretti é mestrando em Educação pelo PPGE/UFJF, professor de História, integrante do Movimento Negro em Juiz de Fora pelo Coletivo Negro Resistência Viva.


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