Na pandemia, Rousseau não está feliz (e o Hedonismo se readapta)

Em uma semana com alto número de mortes diárias no país por conta da COVID-19, eu precisei repensar. Não bastava escrever sobre o que acredito precisar de maior reflexão — mesmo que meus esforços na escrita indiquem uma espécie de reflexo grupal/coletivo —, mas eu precisava escrever sobre algo que, honestamente, demorei a saber.

Estamos caminhando por um momento de crise sanitária e humanitária que exige, fundamentalmente, um esforço externo – ou seja, que diz de uma co-dependência social. Eu preciso do outro e ele precisa de mim; eu preciso que ele me veja bem como preciso vê-lo; e assim vai. No entanto, há uma série de faltas que não foram arranjadas e organizadas antes da pandemia (e que, mesmo se não houvesse pandemia, essas faltas permaneceriam), há uma série de acordos que sequer foram colocados em discussão e, nesse sentido, vivemos sob não-acordos enquanto enfrentamos um inimigo invisível. Para enxergamos isso na prática, basta um olhar para aqueles que se recusam a usar máscara, que se aglomeram em festas clandestinas, em bares, em circunstâncias irregulares, enfim. No entanto, há ainda uma leitura a ser feita desses não-ditos – o que, em muito, me faz refletir sobre o famoso Contrato Social de Rousseau, pois, na sua existência incontestável, temo que não tenham entregado aos sujeitos para que eles assinassem.

O que isso significa? No século XXI, em meio a uma pandemia, significa a escolha de uma servidão imersa aos próprios desejos, ímpetos e vontades. Penso, portanto, no sentido atribuído à palavra “liberdade”, que tem sido revisitada e lançada como argumento para a defesa à servidão do Eu. Em um mundo que tenta ler o indivíduo segundo méritos que não dialogam com as subjetividades e que, ainda, se esforça para poluir a educação enquanto uma imagem de aquisição de competências, há uma profunda proposta (sobretudo no âmbito das redes sociais) de evolução de si, seja através do “seja a melhor versão de si” ou através da estética tecida em torno daquilo que faria bem a “saúde mental”. E, nesse último ponto, podemos analisar o tanto de justificativas de pessoas que aglomeraram e que não respeitaram as regras de distanciamento e prevenção de contágio baseadas em “fiz para o bem da minha saúde mental” e, logo, vem um “ainda estou em evolução enquanto ser humano” – como se o “ser humano” significasse alguma permissão ou naturalização das irresponsabilidades. Com isso, não digo que não podemos errar; digo que, se a opção pelo erro envolve a possibilidade de condenar o Outro à morte, há sim uma crise ética e social, a qual não deve ser entendida como pedagógica dentro de um “compromisso de evolução” pessoal. 

O único problema de mergulhar em si mesmo é não conseguir sair de lá. Se isso ocorre, o mundo se torna um palco possível para a concretização dos meus desejos, e o Outro, um ser passivo à predestinação do meu sucesso. Esse tipo de leitura unilateral do mundo é um perigo do qual temos experimentado os efeitos. Li piadas em torno da não contaminação de algumas pessoas que possuem o costume de sair (como se isso fosse lucro) e, em paralelo, vi 1.910 pessoas morrendo naquele dia devido à COVID-19. Essa espécie de “hedonismo” busca, na ideia que construíram sobre liberdade, reiterar o compromisso que possuem com suas próprias demandas, nem que isso condene os planos, sonhos, projetos, conquistas, experiências e tudo aquilo que um Outro poderia ter, à morte. A liberdade não é a percepção ou conhecimento dos nossos próprios desejos e vontades; afinal, a emancipação efetiva é aquela que dimensiona uma noção lá da infância, que é a separação entre o Eu e o Outro, e do conhecimento, portanto, de um Outro mundo. Nesse sentido, liberdade é, também, saber que não se pode tudo.

É possível pensar nessa perspectiva sobre liberdade no século XXI? Não. Há uma série de construções e iniciativas econômicas que atribuem valor ao indivíduo segundo sua disposição financeira, da qual derivam, entre tantas coisas, as noções de sucesso, por exemplo. Todavia, a pandemia nos mostra a necessidade de melhor pontuarmos o significado de “liberdade”, para que ela não seja tapume para o verdadeiro significado das irresponsabilidades: crime.

Em memória, meu Tio Tião, que faleceu devido as complicações da COVID-19. Ele nunca será apenas uma estatística e, o nosso luto, jamais será um “mimimi”.

BIBLIOGRAFIA DE APOIO

GIUSEPPE FERRARO, Giuseppe. LA FILOSOFIA E L’EDUCAZIONE. Anais do V Colóquio Internacional de Filosofia da Educação, UERJ, Rio de Janeiro, 2010.


Gyovana Machado é cristã, formada no Seminário Rhema Brasil, graduanda em História pela UFJF, bolsista no LAHES, interessada nas grandes áreas de teologia, política e feminismo.


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