Mas, afinal de contas: o que é arte?

A pergunta “O que é arte?” movimenta discussões há séculos. Algumas teóricas, voltadas a conceituar as delimitações entre arte e vida; outras mais materialistas, que se esforçam para chegar ao fim da charada e de fato entender o que é arte. De uma coisa sabemos: todo mundo tem uma ideia concebida em seu imaginário sobre o que pode ser essa forma de expressão.

Se vivemos em um mundo mergulhado em representações, é importante reconhecer o valor de compreender os contextos, as ferramentas de construção de signos e significados e abrir portas para que as imagens possam ser lidas de forma mais aprofundada e crítica. Contudo, uma das maiores dificuldades da educação em uma sociedade capitalista é a sua valorização; é mostrar-se fundamental, independentemente dos benefícios profissionalizantes – logo, monetários – que ela pode trazer. Quem escolhe atuar nessa área escolhe também lutar por sua valorização. A missão de desmistificar o campo artístico é de todos aqueles que têm a oportunidade de estudar sobre ele. Contudo, algo precisa estar claro: as Artes são uma área de conhecimento, como todas as outras, e seus conhecimentos teóricos também devem ser valorizados; só assim, a arte será, de fato, reconhecida e, principalmente, entendida.

Percebemos alguns eventos nos últimos anos que nos levam a refletir sobre a desvalorização desse campo de saber de forma estridente. O primeiro deles foi toda a repercussão negativa que a exposição “Queermuseu” gerou em todo o país. Foi a maior exposição abrangendo a temática queer no Brasil, contando com 223 obras. Contudo, a reação gerada foi uma onda de protestos movidos pelo conservadorismo que alegavam blasfêmia, apologia à pedofilia e à zoofilia, entre outras. As manifestações, lideradas por movimentos religiosos, questionavam principalmente o que é considerado arte, uma vez que as obras estavam desalinhadas aos valores e moral cristã. A instituição Santander Cultural prontamente cedeu à pressão, concedendo a seguinte nota: “quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana”. Aqui, abrimos espaço para uma discussão paralela: a arte, quando associada a instituições privadas que dependem de sua imagem pública para gerar capital, tem espaço para existir de forma plena?

Além disso, é preciso valorizar a provocação artística – uma vez que, mesmo gerando reações negativas, a exposição conseguiu promover reflexões acerca da sociedade e dos seus valores acessando os mais diversos tipos de público. E se a arte é também – mas não só – uma forma do ser humano se expressar, como podem dizer que não cumpriu sua finalidade? A mesma coisa aconteceu com a obra “Diva”, de Juliana Notari. A artista esculpiu uma vulva de 33 metros de altura no chão e gerou um grande debate nas redes sociais, levantando diversas problemáticas acerca da validade da obra enquanto arte. Mas a realidade é que esse reconhecimento de algo enquanto objeto artístico passa por categorizações que nem sempre dão conta de abranger a diversidade das criações.

Joseph Beuys, artista alemão, nos diria de prontidão que “tudo é arte”. Para ele, era necessário que abandonássemos esse ideal artístico convencional, advindo, principalmente, do Renascimento e das representações fieis à realidade, em que o artista acreditava que a arte era um veículo de transformação e revolução social, uma vez que toda criação é fruto de um pensamento, que por sua vez reflete a sociedade e suas problemáticas. Em contrapartida a esse pensamento, o conservadorismo vem tentando delimitar cada vez mais a legitimidade das obras de arte, já que, como dito no início do texto, as representações carregam diversos signos e significados que provocam o pensamento crítico – ação desestimulada pelo sistema conservador e punitivista.

Aqui, não pretendemos trazer soluções e muito menos respostas; mas, sim, incitar a discussão e torná-la cada vez maior, mais ampla e mais representativa. Para Paulo Freire, o ato de ensinar não significa transferir conhecimento, mas sim criar possibilidades para que o outro possa construir o seu próprio; desse modo, aprendemos ao ensinar e ensinamos ao aprender. Respeito às vivências e conhecimentos alheios, autoconfiança, responsabilidade social e moral e liberdade individual são a base, o que se aplica e o que se persegue nessa pedagogia – e na vida em sociedade, em todos os seus aspectos. Da mesma forma, isso se aplica à arte. Não podemos permitir que a censura se instale através da diminuição e da delimitação daquilo que é – ou não – arte, a partir de um único ponto de vista. É preciso abrir espaço para as provocações, porque também há espaço para aprendizado no “não gostar”.


O Laboratório Informal de Arte-Educação (LABIARTE), desenvolvido por Ariel Bertola e Clara Downey, é uma plataforma virtual que promove dinâmicas interativas a fim de desmistificar a arte enquanto área de conhecimento.


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