Lado Vazio

Qual é a forma mais poética de marcar a passagem do tempo?

Por muito tempo, li livros marcando pelas estações do ano, principalmente primaveras; ultimamente, parece que as flores saíram da tendência principal. Já ouvi também o tempo sendo marcado pelas chuvas ou raios de sol. Nada disso me parece tão bonito assim hoje. Vamos começar pelo começo, onde acredito que seja, de fato, o melhor lugar. Recolho minhas figuras de linguagem, respiro fundo e, assim, estamos finalmente no lugar certo.

Maio. Maio de 2018, para ser mais exato. O quinto mês do nosso calendário, relacionado ao romance, casamentos e belos pôres do sol. Nem sempre nós nos rendemos aos clichês.

Naquele mês, eu estava preparado para mais trinta e um dias de monotonia. Logo no início da segunda quinzena, porém, nossos olhos se encontraram pela primeira vez. Eu sentado em um banco de praça com um saco de pipoca doce na mão, ele passeando com seu cachorro – uma chow chow, fêmea, branca, com nariz empinado. A estratégia número um de flerte é conversar com o cachorro, certo? Certo. 

Respiro fundo, um passo firme de cada vez, caminho até ele. “Oi, meu nome é Sávio, adorei seu cachorro.” Não, isso é um péssimo jeito de começar. “Oi, a cachorrinha tem telefone?” Ainda pior. Passei tanto tempo buscando as palavras certas para iniciar aquela interação que, quando levanto os olhos, ele já não está lá. Suspiro em frustração e volto para o meu universo no banco cinza com pipoca doce.

Por muito tempo, nada mais aconteceu. Gostaria muito que, nesse momento da narrativa, eu pudesse contar um reencontro espetacular e romântico, ou até mesmo um evento em que ele batesse na minha porta do nada com a chow chow na coleira e uma caixa de chocolates na outra. Infelizmente, isso não é um filme adolescente da Netflix (por mais que eu queira que seja). 

O nome dele é Cássio, e aquele homem tem os olhos mais bonitos que eu já vi em toda minha vida. Um olhar cheio de determinação, quase como uma dose instantânea de cafeína. Meu reencontro com Cássio só aconteceu quatro meses depois, na mesma praça, onde ele, novamente, passeava com sua companheira. Naquele dia, eu fui até ele sem pensar, esperando que o universo pudesse me presentear com as palavras certas quando o momento chegasse. Hoje eu sei que o universo não é assim tão generoso com ninguém. Olhei fundo naqueles olhos e me senti um adolescente, consegui imaginar uma vida inteira ao lado daquele homem antes mesmo de perguntar seu nome. 

Percebendo meu olhar congelado, ele se apresenta sem jeito. Cássio, e sua chow chow branca Maria. Com a voz trêmula também me apresento, preparado para o futuro que teríamos juntos a partir daquele momento. Sorrimos sem graça por um instante, e ele me convida para caminhar ao seu lado enquanto termina o passeio com Maria, que ignora completamente a minha presença e segue cheirando a calçada e procurando folhas para brincar.

Temos muitas coisas em comum. Nós dois praticamos luta: ele, karatê; eu, boxe. Nós dois somos engenheiros: ele, civil; eu, elétrico. Nós dois tocamos instrumentos: ele, bateria; eu, violino. Sempre alguma coisa em comum, nunca o suficiente para que a conversa dure muito tempo. E assim, nossa dança continua, ambos buscando o interesse do outro, mas falhando por pouco. Nossa conexão parecia um pouco jogo de montar, mas empilhávamos peças do jeito errado e algum lado sempre ficava vazio.

Penso muito sobre o Cássio não por paixão, mas por frustração. Sempre desisti muito fácil das coisas, e consequentemente das pessoas da minha vida, também. Sinto que desperdicei tempo demais criando uma história dentro da minha cabeça e não consegui concretizar o que poderia ter sido bonito na nossa relação.

Particularmente, nunca fui o maior fã de fogos de artifício: o barulho alto me incomoda, o cheiro de pólvora e toda a fumaça me causam um certo pânico, mas não posso deixar de pensar em como meu primeiro beijo me trouxe a sensação de fogos de artifício na boca do estômago. Não do tipo barulhento, somente a imagem gloriosa de luz colorida voando pelos céus. 

Esse beijo, o de fogos de artifício, aconteceu quando eu estava nos meus 14 anos de idade. Desde então, busco alguém que possa me trazer essa sensação, essa empolgação. Talvez, eu tenha vivido o auge cedo demais. Ou talvez eu tenha me conformado com tão pouco que até hoje não saiba medir a felicidade. Estamos novamente em maio, mas agora já se passaram 5 anos do encontro na pracinha, da pipoca doce, do olhar de cafeína. Eu sei que Cássio gosta da padaria da esquina debaixo, e sei que agora adotou um outro cachorro, três vezes menor do que Maria, que lhes acompanha nas aventuras pela cidade. Nos cumprimentamos com leves acenos de cabeça e meios sorrisos que representam o que poderia ter sido, mas nunca foi.

Nesses últimos anos, aprendi a tocar bateria e experimentei o karatê por alguns meses. Tentativas de preencher o tal lado vazio. Nunca tive coragem de contar nada disso para ele; então, guardo dentro de mim a tentativa fracassada de compreender aquele outro universo. Que triste é perceber que meu próprio universo não me basta para me sentir completo.

Em dois meses, vou me mudar. Fui transferido pela empresa em que trabalho. Não sinto a empolgação que gostaria de sentir; espero que isso mude quando pisar em meu novo fuso horário. Espero que, lá, me encontre com um novo Cássio e sua Maria, mas com um pouco mais de violino.

Até lá, sento na sala, encarando o lado vazio do sofá que logo será doado para uma nova família. Qual a forma mais poética de falar sobre o meu sofá?


Gabi Guarabyra é atriz, diretora, dramaturga e professora. É pós-graduanda em Gênero e Sexualidade pela FACED-UFJF e compartilha frentes de trabalho teatral no Coletivo Feminino e no Núcleo Prisma.


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