[CAÇADORA DE HISTÓRIAS] ELZA SOARES: RENASCER PARA VIVER

A gente caminha, um passo após o outro, sem saber bem ao certo onde vai chegar.

Quando olhamos para trás, percebemos que essas pegadas marcadas na terra são escolhas e renúncias que, juntas, formam a vida. Há pegadas do pé nu, sentindo o frescor daquele terreno irrigado pela mata silvestre; há pegadas que pouco aparecem, tamanha a velocidade em que passamos, correndo. Mas sempre haverá marcas. Feridas cicatrizadas. Feridas que ainda sangram.

Tudo isso nos forma enquanto seres humanos. E, na história de hoje, mais precisamente, enquanto mulher, pobre, preta e sonhadora.

Fonte: Arquivo Nacional

Elza Gomes da Conceição, por mim e por ti mais conhecida como Elza Soares: uma mulher de pegadas fortes. Uma mulher-fênix. Cantora, compositora, voz de muitas mulheres invisibilizadas pela cortina de desigualdade da sociedade brasileira.

Em 1999, Elza foi eleita a Cantora Brasileira do Milênio pela Rádio BBC de Londres; mas sua vida nem sempre foi repleta de reconhecimento e prestígio.

Nasceu no Rio de Janeiro, em 1930, a uma família muito humilde, de dez irmãos na favela da Moça Bonita (Vila Vintém), no bairro de Padre Miguel. Ainda pequena, se mudou para um cortiço no bairro da Água Santa, onde foi criada. Na infância, brincava na rua, soltava pipa, piões de madeira, e brigava muito com os meninos. Era uma vida pobre, mas feliz para uma criança, apesar de ter que ajudar a mãe nos serviços domésticos, levando latas d’água na cabeça.

Mais tarde, por volta de seus 13 anos de idade, foi obrigada a se casar com Lourdes Antônio Soares, um amigo do seu pai conhecido como Alaordes, que havia tentado abusar de Elza. (O pai acreditava que “a honra da filha só estaria restaurada com o casamento”). Elza sofreu muito neste matrimônio forçado por conta da violência doméstica e sexual que constantemente sofria. Um ano mais tarde, deu à luz seu primeiro filho.

Quando completou quinze anos, Elza passou por outro grande trauma: seu segundo filho morreu de fome. Com o marido tuberculoso, passou a trabalhar como encaixotadora e conferente na fábrica de sabão Véritas, no Engenho de Dentro. Também trabalhou em um manicômio, o Instituto Municipal Nise da Silveira (atual Museu de Imagens do Inconsciente), onde conseguia um salário e um bocado de comida que furtava pouco antes do local ser fechado e os funcionários voltarem para casa.
Com a recuperação do marido, um ano depois, Elza foi proibida de trabalhar fora e voltou a servir ao lar.
Aos dezoito anos, oficializou seu casamento, passando a assinar Elza da Conceição Soares – que viria a ser seu sobrenome artístico – e aos vinte e um, ficou viúva, pois o marido teve uma nova tuberculose e não resistiu.

No ano de 1950, sua filha recém nascida, Dilma, foi sequestrada pelo casal que tomava conta da menina enquanto Elza trabalhava. Durante 30 anos, Elza sofreu a ausência de informações sobre o paradeiro da filha. Sempre angustiada e triste, somente reencontrou a filha já adulta, que não sabia de nada. Com o tempo, se aceitaram como mãe e filha. Como o crime prescreveu, o casal não foi preso e, mesmo sentindo tanta revolta e dor, Elza perdoou os sequestradores de sua filha, já que a criaram da melhor forma possível.

Mais tarde, em 1962, conheceu Garrincha e iniciaram um romance enquanto ele era casado. Passado um ano, ela pediu que ele tomasse uma decisão: Ou a assumiria, ou tudo estaria terminado. Garrincha escolheu Elza.

Iniciaram sua vida juntos, e, quando a esposa anterior de Garrincha faleceu, Elza decidiu adotar as seis filhas do jogador – que passaram a morar com ela, Garrincha e seus filhos. Elza engravida e, em 9 de julho de 1976, nasce Manoel Francisco dos Santos Júnior, apelidado de Garrinchinha – que, nove anos depois, faleceu fatalmente em um acidente de carro.

Ao todo, seu corpo gerou oito filhos, todos nascidos de parto normal, no Rio de Janeiro. Seus dois primeiros filhos, meninos, que não tinham nome pois não foram registrados, morreram recém-nascidos com poucas semanas de vida, devido à desnutrição. E então, João Carlos, Gerson (que precisou entregar para adoção por falta de condições para criá-lo), Gilson (morto em 2015, aos 59 anos), Dilma (sequestrada em 1950, e reencontrada somente em 1980), Sara e “Garrinchinha”.

Depois de tantas doenças, dores e perdas, Elza Soares deu a seguinte declaração:

“A única coisa do passado que ainda me machuca é a perda dos meus quatro filhos. O resto, tiro de letra. Mas filho é uma ferida aberta que não cicatriza. Estará sempre presente.”

Fonte: Arquivo Nacional

Elza buscou conforto no ilusório submundo dos remédios controlados e drogas, enfrentou problemas graves de saúde e se recuperou de todas essas enfermidades.

Começou cantando na rádio e sua voz carregada de autenticidade e de uma dor que inspirava vontade de viver, desabrochou pela América Latina e mundo afora. Elza gravou mais de 30 discos e levou para casa dezenas de prêmios nacionais e internacionais.

Fonte: Twitter

A gente não pode romantizar a história e jornada de Elza.

Foi difícil. Foi duro. Foi, muitas vezes, desumano. Mas Elza é a prova viva, florescida e cantante de que as adversidades vêm e a gente consegue superar.

Elza. Frida.

Maria. Francisca. Ordália. Regina.

Eu, tu.

Nossas histórias se costuram e se encontram, sempre, em algum ponto.

Falar de mulheres e suas potencialidades, falar de mulheres pretas e sua luta, falar de empatia é uma prática diária da minha vida, da Trama e desejo que da tua também. Mas trago Elza, nessa terça-feira pós “Dia Internacional da Mulher” pra te lembrar do que nunca pode ser esquecido.


Queridas e queridos leitores!

Aqui, quem te escreve é Victória: Escritora, idealizadora do projeto Caçadora de Histórias e colunista da Revista TRAMA.

Começamos esse ano cheio de páginas em branco escrevendo a nossa e trazendo a coluna de maneira ainda especial, porém renovada. Aqui conecto minhas palavras com a arte que a revista respira e traremos, quinzenalmente, histórias de artistas de todos os vieses como literatura, música, cinema,
dança e muitos outros, ajudando a reforçar e relembrar o quanto somos bordados e perfumados por toda essa pluralidade.

Com carinho, esperança e muita fé,
Victória Vieira


Victória Vieira é escritora e idealizadora do projeto Caçadora de Histórias. Caçando e ouvindo histórias, vou escrevendo a tua com minhas palavras e te ajudando a ter um novo olhar sobre ela. Siga o projeto no Instagram.


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