RESSIGNIFICAR A IDENTIDADE CULTURAL

Uma das experiências adquiridas no percurso que cruza o oceano à procura de novas referências foi o contato com uma certa inclinação que permeia o imaginário social, alheia a qualquer tipo de julgamento político – bom, pelo menos assim foi percebido. Ao adentrar o universo de pesquisa em cultura, ciência e patrimônio em Portugal, logo se fez presente uma certa dignidade de estudo, algo que no “pensamento brasileiro” está em constante corda bamba e que, nos últimos anos, se destaca como a ponta mais fraca desta corda. Ainda nestas beiradas, tornadas tão frágeis e periféricas, há resistência e ressignificação – ainda bem; sem isso, o sustento seria impossível.

Falo aqui sobre a valorização da cultura e de seus aparatos fundamentais como algo inerente ao desenvolvimento de uma sociedade, um meio para a reflexão do passado, a revisão do presente e a pretensão do futuro. Durante algumas aulas de sociologia da cultura, foi necessária a integração didática de todo um background de desenvolvimento e investimento culturais ao longo dos últimos séculos para que nós, alunos, tivéssemos a dimensão de um esquema que vem sendo fortificado por planejamentos de governo sequenciais. Neste processo, também estariam então envolvidos os principais atores culturais do país e suas pautas, reivindicações que até hoje podem ter ou não lugar. É claro, neste ponto surgem questões importantíssimas como “o que é afinal cultura?”, “o que é priorizado?”, “quem tem acesso?”. Muitas destas indagações ultrapassam as salas de aula e são sentidas através do convívio, das andanças e da motivação pessoal para encontrar problemáticas de pesquisa.

A clássica distinção entre baixa e alta cultura hoje não é palpável – e ouso dizer que nunca foi. Como seria classificar gostos e experiências em níveis categóricos se somos seres complexos por natureza? Bem, nem sempre foi visto assim. Cabe a esta análise o ponto de partida concreto de que a cultura deve ser mediadora de um saber ou um agir coletivo, que se estende aos mais diversos grupos sociais e é também potencial elemento de agregação.

A riqueza com a qual podemos conceber a cultura destaca que múltiplos artistas, filósofos, pesquisadores e comunicadores já debruçaram seus estudos neste campo. O conceito de cultura é, portanto, complexo e necessariamente encerra uma ambivalência – é instrumento proveitoso e persistente.

Identidade Nacional versus Identidade Cultural

A partir de determinada altura, pós-moderna, não se devia ver mais a cultura como restrição à inventividade humana, como instrumento de autorreprodução das formas de vida, resistente à mudança. No entanto, muito antes de existir tal reflexão, a ideia de alteridade, que veio do projeto nacionalista cujo objetivo era estabelecer as bases do que seria uma cultura nacional, foi reproduzida e reforçada no contexto do século XIX na Europa e, em seguida, no restante do globo. As identidades nacionais não são inerentes ao nascimento de um ser humano, mas são sim construções, características que se transformam a partir de certa influência; afinal, uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos (Hall, 1997).

Para além do modo engessado que tenta distinguir as nacionalidades com base em certos tipos de comportamento e características muito específicas – tomemos como exemplo as tão ditas receptividade, malandragem e alegria dos brasileiros – levadas por séculos como justificativa de superioridade ou inferioridade de povos e culturas ao redor do mundo, há novas teorias que lapidam conceitos e fazem emergir ponderações bem mais interessantes.

É o caso da ideia de transculturalidade, que surge no estudo dos efeitos de uma globalização vigente, mas que não julga que este processo é responsável pela uniformização das formas de vida humana.

A transculturalidade não se relaciona à padronização da cultura, mas sim à produção de diversidade. Atualmente, a diversidade na forma de culturas únicas desaparece e dá lugar a diferentes culturas e modos de vida, que resultam de redes transculturais com questões em comum e que ao mesmo tempo são diversas (Welsch, 2001). Nesse sentido, é possível estabelecer uma compreensão de que a globalização produz, então, novas identificações globais e novas identificações locais, por parte de quem está dentro ou fora do espaço em questão. Na compreensão de uma realidade cujas fronteiras estariam enfim dissolvidas, a questão da identidade torna-se cada vez mais complexa, mas também mais genuína: ela não depende de territórios geográficos, mas segue processos de intercâmbio cultural e favorece a coexistência ao invés do embate.

A identidade cultural não deve ser equiparada à identidade nacional; a formação cultural de um indivíduo não deve ser determinada pela sua nacionalidade. A vinculação de componentes transculturais é, na verdade, essencial para a formação identitária. Em outras palavras, o reconhecimento das próprias peculiaridades internas e pessoais torna de fato a transculturalidade social palatável. Por visar um entendimento multicultural e inclusivo, não separatista e exclusivo de cultura, este conceito tem a intenção de compreender a capacidade de conexão cultural entre as sociedades.

Democratização do acesso à cultura versus democratização cultural

A cultura deve agir como veículo para o autoconhecimento do grupo, na medida em que possibilita a cada indivíduo questionar as suas próprias dimensões políticas, culturais e morais. O papel educativo da cultura pode se estender até mesmo às pessoas que não estão imersas no contexto de produção, àquelas que não buscam necessariamente se engajar.

Numa realidade democrática ideal, a cultura é inerente ao exercício da cidadania, em que cada indivíduo possui voz junto à sua comunidade e em que as instituições permitem sua identificação e poder de ação coletiva.

A cidadania, entretanto, é muitas vezes reduzida ao ato de votar, quando deve ser vista como um estado de permanente envolvimento, que se estende ao papel da cultura na sociedade. A museóloga e gestora de instituições culturais Maria Vlachou (2018) levanta, então, o questionamento em relação à qualidade das nossas democracias, que nos leva a indagar o papel da cultura na formação de cidadãos informados, críticos e engajados, e na criação de uma sociedade mais tolerante e capaz de voltar a mostrar empatia:

“Poderá haver democracia política de qualidade sem democracia cultural?
Não serão essas as duas faces de uma mesma moeda?”.

Ao aprofundar essas questões em pesquisa nas periferias de Portugal, Maria Vlachou constata que, no país, o discurso formal é ainda o da democratização do acesso à cultura, que deixa os mesmos atores sociais no papel de destaque da cultura de mérito, que não se baseia no diálogo, na discussão e na partilha da responsabilidade. Por esta via, ainda, estão em foco ações para que populações em vulnerabilidade social tenham algum contato com peças, filmes e exposições, mas sigam sem se sentirem pertencentes a estes ambientes.

Uma proposta bastante diferente que vem sendo trabalhada, ainda que timidamente, ao redor do mundo, e que é notada em inúmeras iniciativas no território brasileiro, é a da democratização da cultura. Ela age como ferramenta contributiva que possa alimentar e apoiar a própria democracia. Por meio da democratização da cultura em si, são possibilitados projetos que olham para o território e para as suas pessoas, e que não procuram impor uma cultura predominante, mas, sim, criar oportunidades para construir algo e proporcionar crescimento conjunto.

Por meio do incentivo a produções locais, torna-se viável o trabalho da especificidade dos territórios por meio do apoio à criação artística, à programação cultural em rede, à qualificação e formação de novos profissionais da cultura que surgem das mais diversas origens. Através da disseminação de estratégias, patrocínios e incentivos na mediação cultural, motiva-se a criação artística em diálogo com o território e a comunidade. Quando crianças e adolescentes são instruídos logo cedo a se expressarem e o estímulo à literacia é dado, o processo até que eles se transformem em público e, mais adiante, em agentes da produção cultural local, é mais fluido. A democracia cultural possibilita a mudança de paradigmas no que diz respeito ao que realmente são os espaços de cultura, com o intuito de que estes estejam cada vez mais diluídos e difundidos. Se não há lugares definidos para a oferta cultural em uma cidade ou país, na realidade todo e qualquer local passa a poder ser um palco ativo.

Num momento em que o conhecimento científico é menosprezado, em que os “fatos alternativos” (também conhecidos como fake news) se tornam retórica oficial e o “outro” é, mais uma vez, a fonte de todos os males, torna-se urgente repensar a forma como a cultura se desenvolve e se alimenta, de quem e para quem.


Carolina Tosetti é jornalista, produtora de conteúdo, social media e poeta nas horas vagas. Atualmente, é mestranda em Ciências da Comunicação na área de Cultura pela Universidade do Porto, Portugal; eterna admiradora das artes e viajante entusiasta.


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