24 DE MAIO

 estavam três horas e quatro minutos
 no relógio de um nokia cinza
 madrugada
 tela azul
  
 não tava na mesinha ou
 não tava como eu deixava
 seu rastro nítido ali
 sua desconfiança ativa
  
 vi isso depois de cruzar a sala
 os quadros que te dei
 e um penduricalho de fitas
 tudo jogado no chão ou
 disposto no meio exato da sala
  
 essa fogueira que cê preparou
 mas não acendeu,
 não queimou
 ardeu só de ser pensada
  
 e foi montada
 todo gesto de afeto que tentei fazer
 te envolvendo
 as paredes da sua casa
  
 cê fez um totem da iminência
 do fim, mas não acabamos
  
 as datas estavam atropeladas
 pelo seu tempo
  
 que estava espezinhado
 pela sua confusão
  
 assim atormentada
 pelos vinte e quatro ou 
 nove anos seus ou
 um ano e oito meses da gente
 sem descontar outro tempo
  
 que estava espezinhado
 pela sua confusão
 também
  
 e quase sete meses da gente
 descontando uns três meses
 de uma paixão construída por sms
 duas refeições, meio pote de sorvete
 e um abraço
 de corpo inteiro
 de nucas e barrigas
 coxas e braguilhas
 até que cê gozou na calça
 sem nem ter tirado a minha
 e daí? foi muito bom
 um começo
  
 e você sempre voltou
 até que fui
  
 iam fazer dez anos, mas chovia tanto
 a crepioca estava insossa,
 só o tempero da dúvida ou
 de um jogo estranho na sua voz
 acho que na minha, e nos olhos
  
 foi ficando abafado, cê me quis sem roupa
 escrutinou todo meu corpo, 
 que mudou tanto
 até que nos tocamos
  
 úmidos de chuva e suor,
 seu cheiro, de corpo, o sal
 do pescoço, algo fermentando
 perto das virílias,
 e metálico seco nos sovacos,
 e seus pelos me roçando toda superfície
  
 da pele
 da lembrança
 nada disso mudou
  
 fomos juntos pra ilha de uma memória
 isso durou todo um fim de tarde,
 noite e manhã
  
 depois fiquei eu com meus óculos empenados
 e tudo, de novo, pareceu
 tão tolo, fogo-fátuo
  
 como a guerra contra o Paraguai -
 por que fizemos aquilo? 

’24 de Maio’ é o primeiro poema que trago a público. A imagem de capa que escolhi para ele é uma fotografia que fiz (com meu celular) em 2018 quando visitava o Museo Nacional de Artes Visuales do Uruguai, em Montevidéu. Enquadrei um canto do quadro “La Paraguaya” pintado à óleo sobre tela pelo artista uruguaio Juan Manuel Blanes, em 1879. A referência se faz óbvia diante do fato histórico que representa e da referência direta a ele no meu poema, mas é uma obviedade íntima; talvez se agregue o valor de trazer para o imaginário ‘brasileiro’ um outro ponto de vista sobre o mesmo fato trágico, e por trazer uma figuração de dor íntima, que diz da dor de todo um país, seu povo, sua memória. Segue uma boa reprodução da pintura na íntegra (disponibilizada por Wikimedia Commons).


Tálisson Melo é Artista-pesquisador. Doutorando em Sociologia e Antropologia na UFRJ. Publicou o livro “Mesmo Sol Outro” com Carolina Cerqueira (2018). Atualmente trabalha em projetos curatoriais-editoriais e de pesquisa em Montevidéu, Juiz de Fora e Nova York – emaranhando artes visuais, poesia, design, arquitetura, cinema, história e ciências sociais. @talisson.melo @mesmosoloutro


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