Sócios.Sínteses – Arte e novas tecnologias para um devir social

Devir, processo de mudanças pelas quais todo ser passa, a presença no devir não conduz a um ato de transformar-se no outro, mas sim a um movimento de tornar-se outrem, um convite de um transformar
social, sempre na sua diferença. Sintetizando esse conceito em suas próprias poéticas, junto à inovação tecnológica de seus meios, a curadoria pretende trazer artistas que produzem num devir social, indo desde questões de saúde pública, como a Snapchat dysmorphia e a pandemia do coronavírus, até nossas relações psicossociais, como as trocas de afeto e nossas ligações com o tempo, resultando em projetos que propõem fazeres artísticos como uma forma de intervenção e crítica cotidiana da realidade.

Curadoria assinada por J. Cendretti [gestão] e L. Pujals [curadoria]

Cindy Sherman

Perfil do Instagram
2017 – atualmente

Qual o limite da intervenção da auto-imagem nas redes sociais?

A já conhecida retratista Cindy Sherman usa seu instagram para aprofundar essa discussão, já sendo sua poética centralizada no corpo e na distorção dele, a artista através do Instagram utiliza de forma extrema a deformação e manipulação digital para atingir imagens quase ridículas e completamente irreais, sobrepondo filtros e “correções” estéticas atacando principalmente a cultura da selfie e dos extremos aos quais as pessoas se propõem para atingir as fotos e imagens do que acreditam ser perfeitas. Sobre essa busca insaciável pela perfeição nas redes sociais, médicos relatam um fenômeno bastante preocupante: o chamado Snapchat dysmorphia. Esse nome refere-se a um tipo de dismorfia corporal desencadeada pelo estresse associado aos filtros das redes sociais, sendo que o transtorno dismórfico corporal é uma doença mental que leva os sujeitos a terem pensamentos frequentes sobre sua aparência, principalmente de forma negativa. As pessoas, especialmente mulheres, estão se apoiando na ideia de que o filtro é uma versão aprimorada de si mesmo.

Muitas pessoas passaram a realizar cirurgias plásticas solicitando procedimentos para parecerem melhores nas mídias sociais e mais grave ainda, desejando que suas características físicas se aproximassem dos filtros utilizados, lembrando que esses são absolutamente criações artificiais que não se baseiam na realidade corpórea dos sujeitos. A indústria das dietas, a dos cosméticos e, claro, a das cirurgias plásticas movimentam bilhões anualmente trabalhando em cima da capitalização das inseguranças.

Instagram da Artista: @cindysherman

Leia mais sobre Snapchat Dysmorphia aqui.

Neri Oxman

Projeto Lazarus
2016

A cada respiração, inalamos a história dos nossos antepassados.

A cada inalação de ar fresco que respiramos, há moléculas exaladas por Jesus, Cleópatra, ou Júlio César em seu último suspiro. De uma forma muito física, vivemos entre os espíritos, e eles vivem entre nós. Um litro de ar representa 0.000000000000000000001% (1e-23) de todo o ar na Terra, uma única respiração contém cerca de 25 sextilhões (2.5e22) de moléculas de ar, espalhando-se ao redor do globo durante anos. Tradicionalmente feita de um único material, como cera ou gesso, as máscaras mortuárias se originaram como um meio de capturar o rosto de uma pessoa, mantendo o falecido vivo através da memória.

Lazarus é uma máscara projetada para conter o último suspiro do usuário. Este foi o precursor – um kernel – para uma coleção maior de máscaras, intitulado Vespers, especulando e oferecendo uma nova
interpretação das antigas tradições de máscaras mortuárias. Servindo como uma lembrança de urna de ar, que é uma nova forma de retrato impresso em 3D, combinando as características faciais do usuário enquanto serve como um gabinete espacial para o seu último suspiro.

A superfície da máscara é modelada a partir da face da pessoa falecida, sua composição material é informada pelo fluxo físico de ar e sua distribuição através da superfície. Ao contrário de seu análogo tradicional feito à mão, o design da Lazarus é inteiramente impulsionado por dados, gerado digitalmente e fabricado de forma adicional. Ele aborda a resolução do fenômeno físico que é projetado para capturar, criando assim um artefato único que é perfeitamente personalizado para caber em seu usuário e seu último
suspiro.

Conheça mais sobre o projeto aqui.

Heather Dewey-Hagborg

Projeto Lovesick
2019

E se o amor se espalhasse como um vírus?

[Oxitocina: Hormônio produzido pela hipófise, sendo responsável pelas contrações uterinas no momento do parto e pela produção e secreção de leite; de fórmula C43 H66 N12 O12 S2, pode também ser obtido sinteticamente. Comumente conhecido como “hormônio do amor” por possuir propriedades ligadas à sensação de prazer e ao vínculo afetivo.]

Dewey-Hagborg projeta um devir que deseja “espalhar” amor e afeto contra o ódio do presente. Sua instalação consiste em pequenos vidros com um líquido rosa dentro que contém um vírus customizado e elaborado artificialmente, para que a produção de oxitocina seja aumentada quando ingerido; o vidro deve ser quebrado e consumido, simbolizando a irreversibilidade do ato; a imagem acima representa células HEK293 modificadas pelo vírus. A autora imagina futuros biotecnológicos possíveis em que possamos modificar, aprimorar, amar e cantar juntos: “CYIQNCPLG.”

Conheça mais sobre o projeto aqui.

Špela Petrič

Phytoteratology
2016

Eu pro-crio entidades planta-humanas, que eu carinhosamente apelido de monstros

Špela Petrič é firmada no ato de criar: em sua obra Phytoteratology, parentesco de sangue e de afeto conversam com a flora de modo a nos observar no lugar delas. “Eu pro-crio entidades planta-humanas, que eu carinhosamente apelido de monstros, através da fecundação in vitro e da alteração hormonal. O
projeto incorpora meu desejo de conceber e de ser mãe de uma trans-planta.” Apropriando de praxes biotecnológicas, ela utiliza de seus hormônios extraídos da urina para gerar embriões que são, então, colocados ao cuidado dela, ou na sua guarda, por assim dizer.

A artista expressa que a laboração é tanto sobre olhar para a planta para reconhecer o passado em comum e também sobre sua “humanidade politizada e culturalmente grávida”. Nos convidando a
refletir sobre a simbiose do processo, ao gestar o híbrido não-humano e não-planta, mas ainda sim intimamente relacionados.

Conheça mais sobre o projeto aqui.

Giselle Beiguelman

Coronário
2020

um exercício crítico de “vigilância ao vivo”.

Coronário é uma obra online acerca da experiência cultural resultante da pandemia do novo coronavírus, atentando para seu impacto na linguagem e para a naturalização da vigilância no cotidiano. O ponto de partida da obra é um conjunto de 25 palavras popularizadas no contexto da Covid-19, como álcool gel, home office, testar positivo e pandemia, para as quais a obra oferece
um pequeno glossário.

Um mapa de calor verifica dinamicamente a atenção do público às palavras listadas como componentes do léxico do coronavírus, funcionando num esquema em que as mais acessadas mudam de cor,
numa escala que varia do azul (mais frias) ao vermelho (mais quentes e, portanto, mais acessadas). Esses mapas de calor tornaram-se imagens recorrentes no contexto da Covid-19 e podem ser interpretados como uma das imagens-chave do contexto pandêmico. Carregados de sentido, no âmbito das estéticas da vigilância, os mapas de calor não apenas monitoram a fisiologia do corpo no espaço, mas são usados também como uma ferramenta de rastreamento do comportamento do público diante de um site.
Coronário apropria-se do vocabulário visual do coronavírus para fazer um exercício crítico de “vigilância ao vivo”. Com isso, dá ao público a oportunidade de ver um procedimento corriqueiro de monitoramento de seus modos de acessar a Internet, geralmente invisível e ignorado. Ao mesmo tempo, o projeto discute o capital simbólico da atenção e o seu papel estruturante na economia do olhar que rege o mundo digital.]

Visite o site da obra.


Originário do Instituto de Artes e Design da UFJF,  o Orfia – laboratório de transmutação visual] é um local imaginário para produzir, debater e pesquisar mídias e transmídias, se estruturando em um Laboratório aberto a todes que queiram potencializar sua produção artística e teórica.


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