O Sadismo a troco do Paraíso – Parte II

Leia a Parte I

Tento trazer para o debate, cada vez mais, a noção de cultura para complexificar as relações de gênero, raça e classe – e, nesse assunto, não poderia me distanciar desse conceito. A pretensão de que a cultura é um agente invisível contratado pelo espírito flutuante do comunismo (que irá corroer os bons costumes e tudo mais) acaba dando espaço para os “filósofos do anti-marxismo cultural” formados por Olavo de Carvalho. Na estrutura mais básica de sua narrativa, eles têm a também pretensa fórmula anti-ideológica – que, no entanto, age em favor dos bons costumes, das meritocráticas famílias brancas, do bom amigo racista, do querido tio homofóbico, do presidente que “pessoalmente, encontrei um cara doce, um homem dos anos 1950, como meu pai, e que faz brincadeiras homofóbicas, mas é da boca pra fora, um jeito masculino que vem desde Monteiro Lobato, que chamava o brasileiro de preguiçoso e dizia que lugar de negro era na cozinha…” como descreveu a namoradinha —intitulada nos anos 70 — do país.

Cultura, no entanto, é uma constante. Segundo Ruth Benedict, cultura é a lente com que enxergamos o mundo — alguns aproximam a sua explicação mais com o conceito de cosmovisão que, de certa forma, está também ligado à cultura —; contudo, tenho maior aproximação com as conclusões do antropólogo Clifford Geertz que, em linhas gerais, provocará toda a estrutura levantada até aqui. Ele dirá que a cultura existe antes do homem ser. O homem não é, portanto, apenas produtor de cultura; mas, também, num sentido biológico, produto dela. Alguns pensadores católicos, sobretudo, irão argumentar dizendo que o homem adquiriu a cultura à medida em que recebeu, do Criador, sua alma imortal. A cultura é um espaço de fomento, eu penso. Ela fomenta aquilo que um coletivo elenca como prioridade na sua própria organização. A cultura, nesse sentido, é a constante que fomenta a mutilação de genitálias (que afeta, ao menos, 200 milhões de mulheres ao redor do globo, segundo a matéria de Eva Ontiveros para a BBC World Service em 2019). É também a constante que mobiliza mulheres ao redor do mundo em prol de emancipação do gênero. A cultura sela um grupo pela comunicação também exercida na tradição.

Dentro da bolha dos seminários cristãos, dos grupos de estudo constituídos por cristãos na academia, muito tem sido falado sobre o conceito de cosmovisão cristã. Consta que o seu primeiro uso foi feito por James Orr em 1893, numa tentativa de apresentação da figura de Cristo à mentalidade moderna; assim sendo, houve um esforço para que a conversão não fosse um fim em si mesma, mas que sustentasse práticas contrárias ao que socialmente se entendia naquele instante na Europa enquanto “secularização”. Outro teórico que impulsionou o uso do conceito foi Abraham Kuyper, que, também no final do século XIX, lançava mão de esforços para pensar a fé cristã para além da vida religiosa, preocupando-se com a Igreja institucional responder às demandas de seu tempo não apenas pela via da defesa, mas através de propostas culturais; ou seja, diferentemente de Orr — que formulava a essência da cosmovisão cristã teologicamente —, Kuyper (fazendo jus a perspectiva Calvinista) estica o conceito para pensar as implicações públicas da atuação de um cristão na sociedade.

Ao longo do tempo, diversos outros indivíduos — que hoje entendemos como referenciais— se manifestaram quanto às proporções, à aplicabilidade e ao uso do conceito; já no século XX, se destacam Herman Dooyeweerd e Hans Rookmaaker. O primeiro apontará que a cosmovisão não é teórica, mas, sim, pré-teórica, pois não se trata de um conjunto de ideias (como Kuyper pontuava), mas anterior à teoria. Rookmaaker, por sua vez, irá expor o conflito que parte da pergunta: “Como posso ser um intelectual cristão?”; esse autor, portanto, desenvolverá os seus trabalhos apresentando não apenas os conflitos dos modelos de interação, mas também propondo formas ativas de manifestação do pensamento intelectual cristão nas dimensões da filosofia e estética, por exemplo. James Sire, em seu livro “Dando nome ao elefante” (2004), dirá que a cosmovisão é uma orientação do coração que se expressa nas ações/narrativas sobre aquilo que constitui a realidade e, nesse sentido, a cosmovisão não seria, necessariamente, fruto de algo consciente. Para Normam Geisler, a cosmovisão seria a lente com a qual enxergamos o mundo; interessante pensar que, para Ruth Benedict, seria esse o papel da cultura. Aqui, acredito que caberia uma discussão sobre a dimensão em que age cada conceito, seja no plano teórico, pré-teórico ou supra-teórico; no entanto, tendo em vista meu pouco arcabouço filosófico, opto por adiar tal discussão.

A partir desse resumo no que diz respeito a história do conceito, é possível perceber a força propositiva com a qual ele tem surgido na contemporaneidade, sobretudo quando analisamos o cenário político na América desde o início do século XXI. Especificamente, pensar o Brasil, em sua história de 2016 até o presente momento, é pensar na força dos usos do conceito de cosmovisão cristã. Mesmo que, teórica e historicamente, ele tenha se apresentado como um conceito de contínua formulação, hoje, ele tem sido regulado como cabresto nos sujeitos para que eles ajam segundo uma agenda proposta por grupos no poder. Numa onda de extremo-conservadorismo e neoliberalismo, o aparelhamento social da Igreja institucional, unido à política, ganha contornos segundo a força de um conceito que tem sido lido como imposição e/ou colonização das propostas cristãs na cultura, na economia e na sociedade, bem como demonstra a chamada “Teologia dos 7 montes” (desenvolvida nos EUA na segunda metade do século passado).

Os tais sete montes consistem em: Educação, Mídia, Governo, Religião/Igreja, Família, Negócios e Entretenimento. Nessa proposta, atuante no cenário brasileiro atual, há um perspectiva totalizante das concepções acerca do que é cristianismo e o que não é; consequentemente, concepções relativas a quem é cristão e quem não é. Através dessa lógica, estão mutilando sujeitos segundo a justificativa da “cosmovisão cristã” – a qual, nesse ponto, tem sido monopolizada enquanto instrumento para excluir, oprimir e justificar todos os tipos de abuso que sujeitos podem sofrer dentro do espaço da comunidade de fé; tudo em nome daquilo que construíram e selecionaram enquanto significado da tal da cosmovisão cristã, que, de quebra, contraria a própria natureza do conceito.

Retorno ao ponto de que precisamos pensar as ações humanas não deslocadas de seus contextos e, para isso, pensamos cultura e cosmovisão. Essa última atinge um grupo com toda a força do tempo, totalizando as ações e servindo de parâmetro para que uns sejam considerados “cristãos puros” e outros, “cristãos corrompidos”. Essa linha de raciocínio é o que, em última instância, serve de prerrogativa para que um líder religioso desqualifique cristãs feministas quanto à genuinidade de sua fé, de sua crença, em reflexo da atuação e presença nesses espaços das que não são feministas (e, num breve comentário, há de se observar que o anti-feminismo tem sido, também, uma bandeira nesses mesmos espaços, o que faz referência ao que seria o correto segundo essa “cosmovisão cristã”).

A estrutura do atual governo federal é composta, em sua maioria, por oficiais do exército e religiosos e, pasmem (?), boa parte desses religiosos são originários de igrejas tradicionais que recuperam e fundamentam esse último conceito apresentado. A rigor, apresento o ministro da Justiça (um pastor presbiteriano) e o ministro da Educação (também pastor presbiteriano), ambos de tradição calvinista. Há, portanto, um interesse na atuação desses sujeitos que entendem seus respectivos ofícios como oportunidade de manifestarem a forma com que lêem a realidade. Assim sendo, sua atuação se dá num ímpeto redentivo do sistema, buscando remir a sociedade culturalmente, educacionalmente, economicamente, enfim. Há, ainda, líderes religiosos que já se sentem confortáveis para falar que o capitalismo constitui vontade divina. É a constante tentativa de viver o paraíso em vida, nem que isso signifique condenar o outro, que é diferente, a um sistema baseado mais nas opiniões do que, de fato, naquilo que qualifica teologicamente o paraíso. É o sadismo em sua plena forma.

Concluo dizendo que não acredito no descarte do conceito de “cosmovisão cristã”; ao contrário, acredito que também será por ele que, coletivamente, o homem mau será exposto, desqualificado e, finalmente, silenciado.


Gyovana Machado é cristã, formada no Seminário Rhema Brasil, graduanda em História pela UFJF, bolsista no LAHES, interessada nas grandes áreas de teologia, política e feminismo.


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