Somos múltiplos, entre nós e dentro de nós

Semana passada, precisei trocar a resistência do chuveiro e me dei conta de que, mesmo estudando correntes elétricas e resistores nas aulas de física, nunca aprendi como inserir esses conceitos na minha vida cotidiana. Não bastava o conhecimento teórico aprendido nos tempos de escola para atender à minha necessidade prática, a fragmentação do conhecimento já estava estabelecida.

É desse abismo que surge a ideia da interdisciplinaridade. Ela – se praticada com afinco – estabelece uma dinamicidade entre as disciplinas e permite que o conhecimento seja construído de forma mais abrangente e correlacional. Pensando de uma forma mais objetiva, a interdisciplinaridade representa a forma como lidamos com o conhecimento no nosso dia a dia, permitindo que o aprendizado seja aplicado nas compras do mês, nas receitas de bolo e na troca da resistência do chuveiro.

Mas a interdisciplinaridade não dá conta de tudo sozinha.

Se a formação educacional deve formar indivíduos plenos, capazes de pensar a sociedade em que vivem de forma crítica, e que possam construir seu próprio ponto de vista sobre a realidade, “só” interligar os aprendizados não é o suficiente. Somos múltiplos, entre nós e dentro de nós. Nessa perspectiva, o termo educação interdimensional vem ganhando espaço dentro da cena educativa mundial. Isso porque enxerga o aprendizado como ferramenta de formação sistêmica, abrangendo as quatro dimensões do ser humano: racional, afetiva, corpórea e espiritual.

Não coincidentemente, esse conceito educacional vem caminhando em conjunto com o desenvolvimento artístico da multidimensionalidade. A arte contemporânea nos instiga a perceber o mundo através de uma representação espaçada da realidade, já que, por meio das abstrações e das conceitualizações, é possível inserir interpelações, questionamentos e impressões únicas, promovendo a criatividade pela reinterpretação. O público é deslocado para a posição de explorar as dimensões que a obra detém, desatando a verdade única do artista e abrindo espaço para ressignificar de acordo com as próprias multidimensões que carrega consigo. É preciso um mergulho intenso dentro do seu próprio universo para elaborar pensamentos autônomos e críticos diante de obras que não dão informações
prontas para o fruidor.

O papel do arte-educador se torna ainda mais crucial dentro dessa dinâmica. Convidar o público (que por muito tempo ocupou o lugar de espectador passivo) a explorar as próprias percepções, sensações, julgamentos estéticos e análise crítica diante de uma obra é uma tarefa que desafia a lógica do ensino bancário. É necessário ultrapassar a relação de consumidor de arte para ocupar um novo espaço: de co-criador.

Neste período temporal em que vivemos, com todas as suas contemporaneidades, a capacidade de compreensão interdisciplinar e multidimensional pode ser revolucionária. A pluralidade de perspectivas ao se analisar um objeto ou situação, toma a posição – em uma sociedade díspar como a nossa – dianteira, rumo à equidade social.


O Laboratório Informal de Arte-Educação (LABIARTE), desenvolvido por Ariel Bertola e Clara Downey, é uma plataforma virtual que promove dinâmicas interativas a fim de desmistificar a arte enquanto área de conhecimento.


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