#AlôFamília – Comprovação Científica

O nó político, social e cultural brasileiro só vai se desfazer com melhores Educação E Comunicação. Juntas. Porque há tempos a gente vê, de um lado, que a maioria dos brasileiros não teve nem tem acesso a Educação (escolar) de qualidade; e, de outro lado, que quem teve ou tem essa oportunidade muitas vezes não sabe ou não quer compartilhá-la com os outros. Onde um não quer, dois não vingam.

Esse cenário triste culminou na atual polarização política em que o Brasil se atou, mas não está sozinho. Pra citar só um caso mais famoso: os EUA estão num nó parecido, e quem assistiu ao discurso de posse de Joe Biden pôde testemunhar o quanto o novo presidente da maior potência do planeta se preocupa com a disputa política do país. Em seu pronunciamento, Biden apontou o diálogo como ferramenta essencial para reunificar a nação.

Tanto lá quanto cá, já passou o tempo de investirmos no cultivo do diálogo – ou seja, investirmos em praticar e melhorar nossa capacidade de trocar ideias, ouvir e buscar compreender o ponto de vista do Outro, e colaborar pra que o Outro compreenda efetivamente o nosso. Temos que recuperar o timing do investimento naquilo que Gustavo Gomes de Matos chama de “cultura do diálogo”.

Por isso, a série de textos #AloFamilia. Com eles, quero falar de maneira clara e rápida sobre algumas coisas que, pro Brasil começar a se desatar, a gente precisa explicar pro maior número possível de pessoas. Vou me esforçar pra fazer esses textos escritos ficarem parecidos com a fala, pra facilitar o compartilhamento deles em grupos de WhatsApp, por exemplo, mesmo se por gravações de áudio. Muita gente não lê textos um pouco mais longos nas redes sociais, e é muito importante achar meios de ocupar esses espaços com informação clara, confiável. Mais: é importante fazer esse tipo de informação chegar às pessoas; o país não tem chance de sair do da cama de gato em que está enquanto as Fake News dominarem os grupos de família no Zap.

Por isso, tentando cultivar o diálogo, coloco pra jogo:

Afinal de contas, o que é essa tal “comprovação científica”?

Antes de tudo, duas coisas essenciais: em primeiro lugar, é preciso acreditar na Ciência; em segundo lugar, não existe impasse entre Ciência e Religião. Se você é religioso, creia que foi Deus quem criou a Ciência (ou, pelo menos, que permitiu que ela existisse, e Ele deve ter tido os motivos Dele); se você não é religioso, lembre-se de que foi a Ciência que explicou porque você sozinho não é capaz de voar, nem de parar um trem, nem de impedir determinadas reações ruins de seu próprio organismo ao contato com certas substâncias e/ou organismos microscópicos. Enfim, não existe quem não tenha razões suficientes para confiar na Ciência – com letra inicial maiúscula mesmo, nome próprio.

A Ciência explica os seres, fatos ou processos (chamados “objetos de pesquisa”), transformando a simples experiência humana de contato com esses seres, fatos ou processos em conhecimento acumulado. Sem ela, qualquer experiência da humanidade talvez ficasse pra sempre restrita a pequenos grupos de pessoas; com ela, qualquer um pode vir a aprender e ensinar sobre qualquer experiência, se tiver acesso às ferramentas adequadas.

Chamamos de Ciência, então, o imenso conjunto imaginário onde todos os vários conhecimentos produzidos pela humanidade se reúnem, mas de acordo com regras, relações, finalidades e limites muito específicos. Enxergar a existência e o funcionamento desse conjunto, tomar parte nele e ser reconhecido como parte dele – tanto por quem chegou antes quanto por quem chegará depois – são as condições para alguém se dizer “cientista” e, assim, ter autoridade para emitir opiniões “científicas” e falar a sério em “comprovação científica”.

Entender um pouco melhor essa primeira parte – o que é a Ciência – leva a uma conclusão lógica verdadeira: pra ser cientista não basta só ter feito faculdade. Isso inclui os médicos. Nem todo médico é cientista, assim como nem todo químico, nem todo farmacêutico, nem todo físico é. Muito menos militares ou astrólogos lunáticos!

Cientista é o profissional que trabalha com um conhecimento de um jeito bem específico, buscando resultados também muito específicos; é quem se dedica a estudar coisas a fim de conhecê-las cada vez mais e melhor, para depois dividir seu conhecimento com o máximo de pessoas (talvez a humanidade inteira), para depois continuar estudando e compartilhando. O nome desse tipo de estudo é “pesquisa” e, em geral, pesquisas científicas (sobre um mesmo objeto, inclusive) são realizadas ao longo de muito tempo, por várias pessoas, em lugares diferentes do planeta – logo, tendem a não acabar nunca, pois sempre poderão existir coisas novas a serem descobertas sobre aquele objeto. Todo cientista é, portanto, um pesquisador, e a Ciência é o motivo, a forma e o resultado do trabalho acumulado de todos os pesquisadores do mundo, desde sempre.

Por isso não basta ter feito faculdade para ser cientista. A maior parte das pessoas que terminam uma graduação vão logo exercer a profissão que aprenderam – projetar e construir prédios, dar aulas, advogar, cuidar de pessoas ou de animais… Os cientistas são aqueles que gostaram tanto de aprender que adotaram por profissão exatamente o ofício de: a) aprender cada vez mais sobre tudo relacionado a seu tema de interesse; b) gerar cada vez mais conhecimento sobre esse tema; c) expor suas conclusões à avaliação contínua de outros cientistas; e d) compartilhar o conhecimento gerado por esse trabalho com o máximo de pessoas.

Esse ofício, então, não se parece com a atividade de se debruçar sobre uma prancheta para projetar um edifício, ou sobre uma escrivaninha para escrever uma petição, ou mesmo sobre uma mesa de cirurgia para extrair um apêndice. Essas atividades são importantíssimas e exigem muito estudo por parte dos profissionais que as desenvolvem, é claro! Mas elas não exigem deles, por exemplo, que exponham suas práticas e decisões à contestação contínua (às vezes simultânea) de seus pares, algo indispensável pra quem se dedica a fazer Ciência.

Ainda meio confuso? Vamos a um exemplo: imagine dois cirurgiões dentistas formados juntos, na mesma instituição, mesmo ano, mesmos professores… Os dois foram ótimos alunos e hoje são profissionais respeitados. Um deles se formou, abriu seu próprio consultório ou clínica, e até hoje trata canais com muita eficiência, exatamente como aprendeu na faculdade. O outro se formou e passou a dividir sua atuação profissional entre as consultas avulsas (em consultórios de colegas) e a assistência a aulas na pós-graduação, onde, ao longo de anos, aprendeu várias alternativas para o tratamento de canais, até que resolveu tentar criar ele mesmo sua própria forma de fazer aquilo. O primeiro profissional é um cirurgião dentista (provavelmente bom, até); o segundo, é um pesquisador (talvez só mediano) habilitado a realizar cirurgias odontológicas. Está clara a diferença?

A “comprovação científica” só pode vir da discussão séria e longa entre vários pesquisadores do planeta. Dos melhores pesquisadores, na verdade. Por isso, quando se fala que a eficácia de um medicamento ou tratamento não tem “comprovação científica”, está se dizendo isso: os melhores cientistas do planeta estão atualizados sobre tudo relativo àquele medicamento ou tratamento (os ingredientes, as técnicas, o resultado dos testes, etc), e a maioria desses cientistas diz que ele não funciona. Simples assim: a frase “não existe comprovação científica da eficácia do tratamento” significa “a parada não serve para o que uns e outros dizem que serve”. Então, quando você ouvir falar em “comprovação científica”, já sabe: acredite sempre na opinião de quem se dedica a estudar de verdade as coisas antes de falar sobre elas. Eles são os cientistas e têm “opiniões” confiáveis. Hoje a maior parte deles diz: “a vacina anti COVID-19 é segura”. Então, vacine-se. Os outros, que indicam medicamentos e tratamentos “sem comprovação científica de eficácia”, no mínimo não estudaram o suficiente. Não acredite neles.


Luciano Nascimento é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo… mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto Dê Efiência.


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