A Opressão e a Emancipação no Ensino de HIstória

Uma reflexão importante a ser considerada sobre o ensino de história, é que este tem uma estrutura limitada, que foca na história das elites (sejam elas burguesas ou monárquicas), e afasta a massa popular do protagonismo histórico, fazendo com que os alunos não se sintam parte de processos históricos.

Este tipo de modelo educacional, além de ser prejudicial para a construção de uma educação emancipadora, também mantém estruturas sociais opressivas, pois ao barrar o questionamento histórico-social, não é possível que hajam discussões que possam modificar problemáticas de caráter opressor. Um exemplo que caracteriza a falta de questionamentos sobre eventos históricos, que de certo modo mantém presente uma ideologia opressora, é o acontecimento denominado “Descobrimento do Brasil”.

Veja que, a primeira questão considerada é a chegada de Pedro Alvares Cabral em 1500. E por mais simples que possa parecer, tal colocação, caracteriza o evento não apenas enquanto um feito glorioso aos portugueses, mas como fator de necessidade tanto aos europeus, quanto aos povos indígenas, que já habitavam terras brasileiras. Portanto, a premissa passa a ter como base a colonização como processo civilizador, o que desconsidera particularidades étnico-culturais de povos originários. E desta forma, a história “oficial” transformou povos indígenas em subgrupos, que por consequência não foram analisados, estudados, ou apresentados em meios de divulgação científica oficiais do Estado.

Levando em consideração que a produção historiográfica incorporada no Brasil tem raízes francesas, é importante pontuar que a história passou a ser propagada de maneira opressiva, pois sua produção partiu de grupos privilegiados, com enfoque limitados sobre concepções de tempo e espaço, sem que houvesse possibilidade de questionamentos profundos sobre determinadas realidades, de modo que a história passou a ser produzida tendo como base a delimitação de datas, nomes e feitos, que por sua vez representavam somente um grupo social especifico, a elite branca europeia.

A História científica

A construção de um modelo de produção historiográfica padrão, que é o caso do modelo francês metódico/positivista do século XIX, construiu problemáticas, e a principal delas  está relacionada a construção de uma história oficial (aquela que é elaborada e reproduzida pelos meios oficiais do Estado, tornando-se a história conhecida. Também conhecida como história metódica/positivista.), é que esta passa a ser a base dos estudos histórico-sociais de forma geral.

Deste modo, torna-se necessário contextualizar o desenvolvimento dos estudos históricos e os debates que podem ocorrer acerca deles. É comum em reflexões historiográficas, questionar a história oficial, pois apesar deste modelo de produção ter sido organizado para estabelecer uma linhagem historiográfica de caráter científico, em razão da necessidade temporal de construções imagéticas ligadas ao nacionalismo, elaborações que valorizassem apenas grandes datas, feitos e nomes, passaram a ganhar espaço, de modo que o conceito de “o que é história”, foi relacionado apenas a estas questões.

Por outro lado, durante o século XX, houve necessidade de construções historiográficas que valorizassem processos históricos, não enquanto eventos isolados, mas como estopins de diversos acontecimentos, que podem ter origem social, cultural, econômica, dentre outros. Deste modo, com o passar do tempo, novas Escolas Históricas se propuseram a analisar os micro campos da história, dando espaço a estudos que deram protagonismo as minorias, que é o caso das produções realizadas acerca dos povos originários, ou o papel das mulheres em determinados processos históricos, por exemplo.

O ensino de história no Brasil

Deste modo, deve-se questionar: Se existe uma historiografia problematizadora, por que na prática escolar ela não é aplicada?

A resposta desta pergunta, está na análise realizada acerca da história da educação brasileira, que desconsiderou aprendizados indígenas e africanos, e impôs uma educação jesuíta europeia logo no período colonial, passando por uma fase imperialista, que valorizou a educação para a corte portuguesa/brasileira, e que no período republicano teve como base, uma grande onda de autoritarismo, dando a educação brasileira, uma perspectiva limitante de aprendizagem, sem espaços para questionamos sociais e políticos.

Desta maneira, no Brasil poucas escolas aderiram a modelos educacionais que rompessem com o que Paulo Freire chamou de Educação Bancária (Aquela que não ensina, apenas transmite informação de maneira limitada e impositiva.), fazendo com que processos educacionais verdadeiramente construtivos e emancipadores não ocorram com facilidade, principalmente em ambientes desfavorecidos, como nas periferias.

Um documento que exemplifica a abordagem limitante do ensino de história do Brasil, é a Base Nacional Comum Curricular, que funciona como um currículo escolar, e foi proposta pelo governo federal para parametrizar a educação de forma “homogênea” em território nacional. Claro que, diversificações socioeconômicas deixaram de ser consideradas pelo Ministério da Educação, que não questionou a necessidade de implantação de educações diferenciadas para grupos sociais diversos.

Esta problematização seria necessária, pois um molde educacional urbano não pode ser aplicado em comunidades ribeirinhas, por exemplo, considerando que a estrutura educacional, e realidade de vida dos alunos são diferentes, de modo que, quando há uma parametrização generalizada, por consequência, há defasagem no ensino, principalmente na rede pública escolar.

Outro reflexo encontrado na imposição da uma história de caráter positivista na educação, é a falta de questionamentos que esta introduz nas escolas, pois ao limitar o assunto dos professores apenas para eventos considerados importante (O que no ponto de vista eurocêntrico significa apenas marcos de povos brancos, e majoritariamente europeus, na história), é realizada uma reação em cadeia que tira o aluno do protagonismo em processos históricos, tornando a história enquanto uma ciência distante das realidades de vida dos alunos, caracterizando-a enquanto a “ciência do passado”, o que limita estudos historiográficos.

O professor historiador

Assim, quando estas problemáticas são consideradas, pode-se entender porque a produção de uma história oficial, sem questionamentos profundos em relação a processos históricos, pode ser tão problemática. Tornando inevitável que professores da educação básica e acadêmicos, passem a questionar os padrões educacionais em que estão inseridos.

Claro que, como qualquer outro processo enraizado, este encontra dificuldades para ser modificado, pois funciona justamente para garantir padrões sociais pré-estabelecidos.

Portanto, o papel do professor enquanto historiador, é apresentar mais do que eventos históricos, o que significa que há necessidade de explicar os processos em que tais eventos estão inseridos. Pois, expor acontecimentos históricos de forma isolada em sala de aula, é como exibir aos alunos uma resposta, sem que perguntas tenham sido realizadas, o que faz com que o ato de ensinar perca o sentido.

Os alunos precisam adquirir conhecimento de forma questionadora, ainda que não sejam realizadas problemáticas muito profundas, para que eles também questionem, não apenas sua história, mas suas realidades. E deste modo, torna-se inegável afirmar, que a história deve ser representativa e estar em todos os espaços, deve significar as lutas presentes, e não apenas memórias passadas, que representam somente “grandes homens”, empunhando espadas sob falsos cavalos de batalha.


Referências

BARROS, José D’Assunção. O campo da história: especialidades e abordagens. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

BORGES, Vavy Pacheco. O que é história? São Paulo: Brasiliense, 1981.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2002.


Lauana Coutinho é casada com a História e amante da música. É historiadora pela Universidade Cidade de São Paulo (UNICID), pesquisadora do período que vigorou a Ditadura Militar no Brasil e escritora sensível no pouco tempo que sobra.


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