Um Evangelho Seguindo a Arte

Antes mesmo de me tornar professor de Literatura e escritor postulante, eu já gostava bastante de ler. Hoje em dia, mais do que uma imposição profissional, a leitura é o meu principal hobby, um dos meus maiores e mais prazerosos prazeres quase solitários.

Sempre li muito mais textos em prosa que em versos; no ambiente da prosa, gosto mais das narrativas curtas (contos e crônicas, por exemplo) que dos romances. Entretanto, vem justamente de um grande romance, o meu predileto, a passagem que quero comentar. O livro é O evangelho segundo Jesus Cristo, do escritor português José Saramago, vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1998 – quando eu ainda estava na graduação. O trecho é o seguinte:

“O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo.”

Não quero e nem vou fazer aqui nenhuma análise literária dessa obra fenomenal. Basta dizer: é o melhor livro que li na vida (e olha que eu já li um bocado…) e, se o Pedro Bial afirmou que o único conselho dele que vale a pena seguir é para não deixarmos de usar filtro solar, o meu conselho mais relevante é esse: não vale a pena morrer antes de ler O evangelho segundo Jesus Cristo. Depois, pode até ser…

Mas preciso evitar mal entendidos: não existe a menor sombra de proselitismo religioso nessa minha sugestão. Repito: não há proselitismo religioso.

Até porque o Jesus Cristo de Saramago é amável por ser humano sobre todas as coisas. Ele tem medo, dúvidas, desejos… É um homem. Um grande homem e, por isso mesmo, uma personagem literária imensa, com um valor pedagógico impossível de medir cartesianamente.

Essa personagem é gigante desde seu nascimento vulgar, “como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio”. Veja só: Jesus Cristo nasceu sujo e sofrendo, igual a mim, a você que me lê, ao Saramago e a todo mundo. Não é só a morte que nos torna iguais, como popularmente se diz! A vulgaridade do nascimento também nos iguala a todos em humanidade. Isso não é lindo?!

Mas ainda, nunca foi isso o que mais me impactou nessa pequena passagem do Nobel português. O que sempre mais me impactou, e me impacta ainda mais hoje (quando vivo lutando com as lágrimas por causa da mistura de maternidade e violência urbana, neoliberalismo e pandemia, transtorno de ansiedade e COVID-19), o que me impacta ainda mais hoje é a ideia de que Cristo “chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo”. Me assusta muito pensar que fizeram um homem igual a mim chorar desde o nascimento até a morte. Uma vida inteira chorando.

De novo, pra não cair no esquecimento, não estou aqui falando do ícone tido como “filho de Deus” pelas vertentes religiosas que tomam por princípios dogmáticos os ensinamentos supostamente Seus. Não é desse “Deus-feito-homem” que estou falando – mesmo sabendo da dificuldade de separar com rigor as figuras e os fundos, dificuldade que também a mim atinge, afinal, também nasci num país católico apostólico blá-blá-blá

Assusta pensar que não só a morte possa igualar todos os homens, e nem só seu nascimento, mas também o intervalo entre os dois eventos, ou seja: sua própria vida. Será que é essa a nossa sina? Viver para chorar ou, no mínimo, para lutar contra o choro? Será esse o preço e o ágio da existência?

Vendo pessoas sufocando no chão dos corredores hospitalares superlotados de Manaus, penso que sim. Desviando de pessoas tornadas zumbis em cracolândias em São Paulo, penso que sim. Assistindo a enterros de crianças mortas por balas perdidas nas comunidades pobres do Rio de Janeiro, penso que sim. Revivendo a Revolta da Vacina em pleno século XXI, penso que sim. Sofrendo em silêncio a cada vez que ouço sobre mais um caso de racismo, ou de feminicídio, ou de homofobia, de transfobia, de escravidão moderna… penso que sim, sim, sim, sim.

Mas logo depois me lembro de que fui evangelizado pela Arte, e de que confio na boa-nova que, embora velha, ela, a Arte, sempre nos pode trazer.

E assim, mesmo pensando que sim, somos homens e mulheres, choramos porque nos fazem chorar e choraremos sempre por esse mesmo e único motivo, embora pensando assim, digo pra mim mesmo: “Não. Penso, logo re-existo”. O evangelho segundo a Arte ensina: bem-aventurados os que dizem ‘não.’, porque é deles o reino da Terra.


Luciano Nascimento é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo… mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto Dê Efiência.


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