Um Mapa para Isabela

Sabe, minha filha, o mundo é um lugar incrível. Mas viver, em regime de exclusividade, é duro. Você vem vindo de tão longe, e é preciso que saiba das coisas daqui. Te conto não para que se lembre, mas para que se esqueça e, nessa coisa mágica que é se lembrar ao contrário, suspeite do que fazer. Se ainda assim não souber, tudo bem; quase ninguém sabe, meu amor, mas poucos conseguem assumir.

Eu gostaria de ver como são as coisas aí, onde você está. Não sei, tenho que ser honesto, mas suspeito de muita coisa. Deve ser quentinho, macio e aconchegante. Mil vozes do lado de fora dizendo bênçãos cada vez que você chega perto, além daquelas mãos atrevidas que te apalpam o quarto. Gosto de imaginar que você enxerga tudo pelo olho mágico do umbigo. Tenho dúvidas se gosta; mas sei que acaba ficando no centro do mundo todo – e de fato, de alguns mundos, você é.

Acredito que você vai nascer no dia 12 de abril, mas não me pergunte o motivo; só sei que sinto assim – e tenho muitas chances de errar. Mas se acertar, serei insuportável! Desde que descobri que viria, sempre te soube, Isabela, e linda, e forte, e corajosa. Penso nas histórias inventadas que desejo contar a você, mas acabo me emocionando. Como eu poderia inventar uma coisa pra te contar, se na verdade sinto que vou sendo inventado com cada coisinha que descubro, dia a dia, preparando o planeta para você desabrochar?

É preciso, no entanto, que eu seja forte o suficiente para dizer a verdade, filha. A vida é injusta. Não basta o sonho. Quase sempre, ser seu próprio patrão é só uma forma romântica de explorar a si mesmo. O trabalho tem se tornado uma doença para a qual se fabricam remédios que nem são coloridos, e que servem apenas para que se durma, se coma e se sinta feliz. Te daria minha vida se pudesse, meu amor, mas no melhor dos seus dias, ainda sobrará, de esgueio atrás da porta, essa nesga de tristeza boa. Enquanto você sente, sabe que é gente, esse é o segredo.

Em abril, o Brasil continuará sob o comando do pior presidente de sua história democrática. Peço a Deus que isso seja uma onda ruim, e que você, quando crescer, apenas se lembre desse homem pelos livros de história que estudará no pré-vestibular. Compensando a situação, existe bastante açúcar aqui, e poucas coisas são tão boas quanto açúcar. Sou viciado! Mas também temos livros, camas e gatos.

Existe uma coisa no mundo que é poderosa. Ela se chama solidão, e é como a sensação de estar desamparado e sem pessoas à sua volta. Acho que todos sentem mais ou menos o mesmo desde que saem da barriga de alguém. Não é algo que se resolva com mais gente, é uma coisa de alma. O pai te escreve hoje sozinho. Algumas vezes, a sensação é de que se fica pequenininho e tudo em volta é grandão. Aí parece que uma pessoa invisível segura o nosso coração dentro do peito com uma luva fria e azul. Como se a gente esperasse o momento em que alguém chamasse para voltar para casa. A solidão é um tipo de estrangeirismo. Mas isso não importa agora, meu amor, não é época para tanto.

Fundamental é que você olhe. Olhe para cima e para os lados. Descubra o céu com calma e com método. Um minutinho é o tempo todo da vida se a gente se lembra só depois de que não chegou a fazer o que deveria porque estava distraído olhando para baixo. Pelo ângulo certo, você poderá ver que Molejo é bem melhor que Beatles, ou que existe mais Deus no erro sincero dos homens comuns do que na maioria das igrejas. Isso é coisa de ver, e bem visto. Quero te contar uma confidência: te vi antes de todas as pessoas, no semblante de sua mãe, enquanto qualquer assunto bobo ocupava nossa conversa. Me orgulho disso pra sempre!

Prove também. Coloque na boca tudo o que quiser, desde que exista pelo menos um adulto por perto até que você complete 12 anos. Açúcar é bom, de verdade. Eu não deveria dar a você; provavelmente, isso te causará qualquer doença que exija ou psicólogos ou comprimidos. Mas te darei açúcar, sim, e te darei café e cupuaçu. Se me puxar, irá se apaixonar; se não, pelo menos vai comer de vez em quando lembrando de mim. O que já basta para que eu me encha de minha satisfação esganada.

Quando começar a andar e a falar, te mandaremos para escola, e peço desculpas por isso. Você deveria estar dentro de casa com alguém te cuidando, mas adultos precisam trabalhar e ganhar um pouco dinheiro, porque, infelizmente, quando for tempo de você vir, ainda viveremos nesta porcaria de vida mecânica. Prometo buscar você, e se alguma vez suspeitar que não irão na hora da saída, esqueça disso, meu bem. Mil loterias não valerão as dobrinhas assadas das suas pernocas gordinhas. Na escola, acima de tudo, desobedeça o quanto puder e conseguir. Te dirão que fique quieta; só cale se estiver tudo bem! Mandarão que abaixe a cabeça, e você não faça isso, senão diante de sua mãe, e de suas avós e de todas as mulheres fortes que te fazem a linhagem! Aí está sua grandeza, na capacidade de ventar e domar o mundo! Isso dará muito errado, Isabela, eu sei, mas estaremos do seu lado.

O amor, filha, é estranho, mas é lindo. O mundo não está pronto para você e para mim juntos. É como se nascêssemos juntos. Barriga afora de sua mãe, e seremos três novos seres. Nunca vivi um só dia até agora, e nas fotos de 93, em Cabo Frio, olho para mim com medo do mar e vejo só você ali. Assim como na caricatura que mamãe guardou, nos bigodinhos brancos da Tashi e no silêncio vazio e triste do meu apartamento.

Você está em mim, filha.

Que coisa boa é isso tudo.

Suspeito de muita coisa, mas não tenho certeza de quase nada. É provável que este mapa te leve a lugar nenhum. Mas quando chegar, seu pai estará logo lá. O resto acontece; mais importante é você vir.


Vinícius Lara é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.


Uma vez
Mensal
Anual

Apoie a Trama e nos ajude a continuar crescendo!

Fazer uma doação mensal

Fazer uma doação anual

Escolha um valor

R$5,00
R$15,00
R$100,00
R$5,00
R$15,00
R$100,00
R$5,00
R$15,00
R$100,00

Ou digite um valor personalizado

R$

Agradecemos sua contribuição.

Agradecemos sua contribuição.

Agradecemos sua contribuição.

DoarDoar mensalmenteDoar anualmente

1 comentário

  • De uma sensibilidade que chega a doer na alma… Parabéns, meu amigo, por fazer que palavras digam o que, muitas vezes, nem ao menos, ousamos sentir.

Deixe uma resposta