O Sadismo a troco do Paraíso – Parte I

Escrevi um texto sob mesmo título em 2018. Na época, estava começando a externar alguns incômodos quanto a algumas narrativas dentro da bolha cristã evangélica. Articulando algumas leituras (incluindo a bíblia), apontei para o machismo no espaço da igreja. No entanto, eu não estava considerando o fato de que o meu incômodo tomaria maiores proporções. Dito isso, atento para o sadismo como modus operandi e/ou como intermediação hermenêutica para se ler e interpretar a Bíblia (manual de fé que, para muitos, gera vida; mas, para outros, tem gerado morte).

Ao falar de sadismo, lanço mão de seu sentido mais amplo: a rigor, do prazer na dor alheia justaposto, neste texto, aos aspectos ou mecanismos sob os quais alguns grupos operam, sobretudo no que tange às variáveis do poder dentro da sociedade – ou seja, na política, nos templos religiosos, nos tribunais, etc. Pensar nessa natureza de operação dentro da trajetória de um indivíduo que, segundo o que crê, tem como fim o paraíso (dentro da teleologia cristã), é pensar nas construções narrativas que validam alguns ideais compartilhados por grupos que operam dentro de uma máquina do ódio. Nisso, o machismo percebido por mim nos templos seria apenas a expressão de uma estrutura hermenêutica tradicional, que vem se redimensionando através dos séculos para permanecer vigente no espaço da igreja.

Na cultura cristã, o termo “Paraíso” possui algumas diferenças semânticas quando usado no Antigo e no Novo Testamento. No Antigo, há um vínculo mais forte com a noção de “jardim”; o Jardim do Éden seria uma espécie de paraíso. Já no Novo, é atribuída uma perspectiva escatológica ao termo, que indica um lugar que é fim de todas as coisas; por exemplo, Jesus em seu diálogo com o ladrão crucificado ao seu lado: “- E disse {o ladrão} a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino. E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.” (Lucas 42:43). Nesse contexto, Jesus delimita que seu reino é o paraíso; portanto, a palavra carrega sentido que confere a noção de fim, o destino pós morte daqueles que assim pedem a Ele.

Me interessa avaliar os mecanismos de operação em que alguns grupos se apoiam como forma de alcance a essa natureza além do destino comum — nesse caso, a morte. Se a doutrina é fruto de construção humana, logo, ela é um indicativo do que o homem compreende sobre o seu caminho para o paraíso.

Se em 2018 eu estava inconformada com o machismo existente nos centros que deveriam construir igualdade, no mesmo ano assisti a membros do corpo da Igreja Institucional alinharem-se a um projeto de governo liderado por um entusiasta da tortura, da ditadura, da educação obsoleta que privilegia uma masculinidade tóxica; que rompe totalmente com a lógica de um ambiente pacífico e de bem-estar político, declarando guerra às ideologias e a toda sorte do que constitui, de fato, política. Posteriormente, declarariam: “o estado é laico, mas o governo é cristão”.

Nessa trajetória, há muito o que se apontar de inconsistente em tal declaração. Basta olharmos para a pasta do meio ambiente: se o manual de fé cristão orienta a preservação (já que “teologicamente foi dada, ao ser humano, a responsabilidade de administrar a terra através do exercício da mordomia. Nesse sentido, o ser humano executa a Missio Dei, isso é, a missão de Deus.” (MARINGOLI, 2019, P.96) ), o plano de ação do atual governo é subserviente às lógicas agropecuária, do garimpo, da especulação imobiliária. É o oposto.

É possível apontar muitas inconsistências também no cenário internacional; assisti, atônita, a um grupo conservador invadir o Capitólio sob a retórica de “Make America Great Again”, baseada em uma política de intolerância com aqueles que discordam. Grupo, este, instigado pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump – que recebeu, em ambas as corridas pela presidência, o apoio cego de parte do corpo da Igreja Institucional. Estamos falando de campanhas de oração em prol de sua vitória, de mobilizações nos púlpitos para a pregação de uma doutrina conveniente à retórica trumpista. Pensar que o combustível para tais ações é a busca pela trajetória terrena rumo ao paraíso consiste em deslocar reflexões para uma estrutura ainda mais profunda – a saber, a noção comportamental aliada à ideia de “moral”, que serviria como chave para o paraíso pós-morte e para o paraíso na terra; afinal, muitos encontram prazer e felicidade em submeter o outro à sua opinião.

A busca pelo paraíso tem se desencontrado de uma teologia saudável, verossímil e justa; por isso, a dificuldade do diálogo. O prazer daqueles que oprimem em nome de um cristianismo vil reside no caráter que atribuem a sua fé: a de detentora de certezas. Portanto, sua constância ativa nos espaços de poder é um elemento inegociável; afinal, essa é a única manifestação possível e visível de que estão certos. Nada os aprova: são pessoas esvaziadas de testemunho, que encontram sentido em estarem certas com atestado público. É, de fato, a depravação dessa busca existencial que faz com que ela deixe de depender da existência da fé em um Criador, e passe a creditar a sua verdade na mentira; a sua guerra justa na violência; a sua teologia no “olho por olho, dente por dente”; e assim vai.

Pensar, porém, que essa trajetória dos indivíduos para o paraíso – marcada pelo ódio, pela violência, pela mentira – é apenas fruto de uma teologia ruim é inocente. No atual governo brasileiro, cristãos estão presentes nos ministérios com uma perspectiva teológica rebuscada e complexa. Por hoje, cabe destacar que os rumos indicam novos cultos – o que sugere, pelo que vimos até agora, uma nova ameaça aos espaços de poder. Afinal, buscar-se-á o paraíso em vida a todo custo.


BIBLIOGRAFIA

MARINGOLI, Ângela. Teoambientologia: Um desafio para a Educação Teológica. São Paulo: Recriar, 2019.

ONTIVEROS, Eva.

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