Danse Macabre

A primeira coluna é sempre um pé na porta; por isso, considerei escrever sobre tantos assuntos pululantes da contemporaneidade para cravar um marco: crise mundial, pandemia, aglomerações, vacina, o fantasma do comunismo, leituras feministas. Mas é como se diz: as palavras na mente são só nuvem de pensamento. As palavras precisam estar escritas no mundo letrado – essa é a condição principal para sua permanência, já que o exercício da memória se dissolveu cedendo espaço ao arquivo e à catalogação. Debatendo-me com a maior dificuldade dos cronistas, o assunto da coluna, vasculhei meus baús afetivos a fim de recolher uma história que se liga à minha primeira semana de 2021, inundada de saudades das rádios FM e de histórias de família: o dia que perdi o show do Duran Duran.

Os jovens nativos digitais desconhecem o poder do rádio na educação musical das gerações que os antecederam. Nós, crianças dos anos 80, nos educávamos pelas ondas radiofônicas, mexendo no dial à caça dos sons da moda – que eram rock e pop com muitos sintetizadores e saxofones. Pelo menos, estes eram os sons que me importavam, ao lado dos LPs da Xuxa e dos filmes dos Trapalhões – estes dois últimos eventos, os equivalentes infantis ao especial anual do Roberto Carlos na TV Globo. Enquanto escuto New Order (outro divisor de águas da época), me lembro como doses cavalares de Save a Prayer e de Come Undone conduziram meu imaginário a zonas nunca antes exploradas. Colou-se uma etiqueta musical na minha mente, onde a legenda “Duran Duran” ocupava um lugar com muita purpurina, sombra forte e ombreiras – o grito da moda da década. Em um tempo de excessos, os britânicos se destacavam por um certo pé fora da curva dos estereótipos de indumentária do gênero masculino – ainda estava muito longe o tempo em que eu entenderia quem era David Bowie; por isso, vamos ficar com este comentário de que, para muita gente, os músicos do Duran Duran foram uma forma de inovação.

Só adulta pude manejar melhor esta colcha de afetos musicais. Percebi a relevância da banda na minha vida no período do anúncio do show que eles fariam no Brasil. Eu começava a ganhar algum dinheiro nesta vida e a me organizar para ver shows; portanto, comprei o ingresso e deixei-o à vista, orgulhosa que estava de uma logística anterior de ida a São Paulo para ver o festival Planeta Terra (sim, sozinha – sou aquela que caça, mata e come como uma Loba Solitária da estepe). Organizei tudo, papel impresso do ingresso há semanas em cima do computador, bem visível. Decorei o dia da apresentação. No dia que seria o dia de um dos maiores shows da vida, passei de ônibus a caminho do trabalho diante de um outdoor que anunciava o grande momento. Tinha sido na noite anterior. Levei um choque profundo. Eu tinha decorado o dia errado. Pior: descobri que meu irmão, que morava comigo, tinha ido. Baque-mor. Como se vê, este é um tópico Casos de família demais para evitar a presença da Cristina Rocha e, como não posso contratá-la para mediar a terapia familiar a jato, pulo esta parte. Chorei sofrido – porque, no começo do século, ainda me permitia este tipo de sofrimento besta. Bons tempos em que chorávamos por situações que não são nem fome, nem miséria ou nenhum outro flagelo humano.

Falando em choro: na aurora da segunda década do século, o Brasil dá motivos de sobra para chorar e nenhuma oportunidade de recolhermos novas memórias, como convém a uma vida organizada em sociedades urbanas. Não é sem remorso ou culpa que se pode realizar uma viagem de férias ou qualquer outra atividade de alívio da saúde mental no presente momento. 2020 não nos perdoou, e 2021 ainda não disse o bastante sobre a que veio. Nem por isso, nos comovemos a ponto de nos mobilizarmos contra o número alarmante de mais de mil mortes diárias de brasileiros levados por uma doença ainda completamente sem controle, que mata ao menos uma pessoa próxima de nós por dia. A marcha do progresso apaga até a chama da humanidade acesa em nós.

Pensando bem, eram melhores os tempos em que sobrava vida no país para se chorar por uma culpa banal. No instante em que escrevo estas linhas, sentamos sobre as cinzas de um projeto de país morto, conduzido por uma necropolítica zombeteira que nos convida para participar de sua dança macabra. Como nação, aceitamos, há dois anos, o chamado para esta contradança sem perder a data do baile, convite dourado na mão.

Para David Jorge Berlim Amorim Filho, meu irmão


Juliana Berlim é professora, escritora e do Rio de Janeiro


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