Herança – Capítulo 10: Perambulações de um Errante

Ricardo havia feito o demissional. Agora era definitivo: havia se desligado de uma instituição de ensino em que servira durante 17 anos de sua vida.

Naquele momento, após sair do médico, ele perambulava pelas ruas da cidade sem saber o que fazer e pensar. O que mais o atormentava era a educação dos seus filhos, que ficava comprometida; teriam que conviver com o ensino fraco da escola pública do seu bairro. Não que os profissionais de lá não se empenhassem, mas ele sabia que era difícil, pois toda a estrutura educacional estava falida. Como um professor pode se dedicar aos seus alunos se, em apenas uma sala das mais de cinquenta em que ele tem que entrar toda semana, tem mais de 45 almas ávidas por algo? Como esperar que este mesmo professor se comprometa se tem que trabalhar em três turnos pra ganhar o mínimo pra viver? Ele refletia sobre isso do seu jeito, da sua maneira, com seu repertório de ensino médio conquistado a duras penas, tendo que trabalhar precocemente pra ajudar a família, pois seu pai havia morrido muito cedo, deixando uma herança maldita de dívidas de jogo.

Sem perceber, já havia saído da Getúlio Vargas e começava a subir o Calçadão da Rua Halfeld. Pessoas indo e vindo, apressadas, olhando pros seus relógios e com as testas franzidas, aguardando alguma suspensão divina do tempo pra não se atrasarem em seus compromissos. Ricardo não tinha perspectiva. Essa era a realidade. Com o dinheiro do fundo de garantia, teria que pagar um empréstimo feito para reformar a casa. Sobraria pouco. Nem abrir um próprio negócio poderia. A única esperança, e mesmo assim para viver mal e trabalhar muito, era falar com seu Nonô sobre a fábrica de biscoitos. A todo momento, vinham as falas do diretor da escola à sua cabeça. Ele não se conformava com aquilo. Uma crise mundial assolava e destruía todos os alicerces econômicos. Como o Brasil vivia um governo neoliberal e com enorme instabilidade econômica, os que mais sofriam eram os pobres, que não tinham condições de se defender diante das demissões em massa que começaram a surgir para arrefecer um pouco a crise do empresariado e dos setores que empregavam. Ricardo era o microcosmo do que muita gente vivia no período. Ele não conseguia entender tudo isso, mas muita gente no Brasil vivia alertando as autoridades sobre essa situação.

Já não havia mais Sol para perturbá-lo em sua errância pela cidade. No entanto, as nuvens no céu começaram a sua sobrecarga. Ele andava a passos lentos quando as primeiras gotas de chuva começaram a cair. Teve que se refugiar, espremido com algumas pessoas, numa marquise próxima à Praça João Pessoa. Olhava para o céu e para aquela chuva toda, que lavava tudo ao redor. Ao lado, uma senhora disse ser uma chuva passageira de verão. Ele virou e sorriu. Em seu interior, pensou que aquela situação atmosférica bem que poderia ser o reflexo de sua vida. Uma tormenta que surge, arrasa tudo que fora planejado até aquele instante, mas, ao mesmo tempo, promove uma limpeza, e depois tudo volta a brilhar como antes, renovado, sublime. Mas a vida é uma e a natureza é outra; não há simbiose perfeita entre as duas. Não há nada no mundo que crie um espetáculo perfeito de cores e vibrações o tempo todo. Tudo é dinâmico e complexo. Tudo é verdadeiro, real e confuso. Não é fácil viver.

Passados alguns instantes, Ricardo já estava livre para seguir com sua caminhada até sua casa. Subia a Independência, naquele momento. Pensava em questões práticas: juntar as papeladas para o seguro-desemprego, conversar com seu Nonô, tentar ajudar a esposa no que fosse necessário. Já próximo de sua rua, viu o carro do Dr. Rubens passar, imaginando que poderia ser uma visita para levar trabalho para Noêmia, da Sra. Eliana. Havia alguém ao lado do médico que ele não conseguiu identificar, devido ao vidro do carro ser muito escuro.

Por ter caminhado tanto tempo, estava com a boca seca. Já passava por uns três, quatro bares, em que os homens estavam sorrindo, com seus copos de cerveja à mão, discutindo algum assunto sobre futebol ou mulheres. Ele vinha pensando que aquela era uma semana difícil e que merecia um pouco de distração. Não havia mal algum entrar um pouco no Vicente e tomar uma cerveja, matar um pouco a sede. Ao passar em frente ao bar do amigo, já estava resoluto de sua decisão. Entrou.

Vicente lavava copos de clientes na pia, com seu pano de prato puído no ombro. Ricardo observava que o amigo envelhecia. Estava com os cabelos mais grisalhos que antes, a pele branca do rosto vincada pelo tempo, como linhas da palma da mão que ciganas leem por preços módicos nas esquinas da cidade. “Fala, Vicente.” “E aí, Ricardo. Como vão as coisas?” “Tudo bem.”

Havia algumas pessoas no fundo do bar jogando sinuca, entre elas um conhecido seu chamado Joaquim, o mais afamado malandro do bairro. Cumprimentou-os com um aceno de cabeça e sentou-se em frente ao balcão, pedindo uma cerveja e uma dose de cachaça.


Darlan Lula é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia. www.darlanlula.com.br


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