Faz isso não, “seu” Jair

Alguém precisa dizer, fora da bolha de um congresso sobre decolonialismo: a lógica da ocupação do espaço nas cidades não faz o menor sentido! Nas tribos indígenas, a terra é uma parte da família, é viva, respira. Não se compra terrenos por lá; não se entra na propriedade por usucapião: existe todo um flerte e todo um namoro. Aqui, como é? Na civilização? Financiamos lotes no ar – e fazer isso é dos maiores desejos que alguém pode ter. Minha casa, meu ap, minha vida, meu pedaço de vento com 49 m².

Isso já seria estranho o bastante por si só, mas melhora. Também existem as leis, as convenções de condomínio, as taxas extras, as vagas rotativas nas garagens, a reforma das fachadas e tudo o mais. A Civilização, com “c” maiúsculo, produziu as grandes cidades, que acumulam pessoas e que, por serem pessoas, não se entendem. Daí nascem as leis: códigos genéricos de boa conduta ou qualquer fábula assim. Quase sempre, as leis apuram obviedades. Não parece óbvio que, de forma geral, não se deve matar, roubar, estuprar, expor ao ridículo? Parece, mas não. A lei é a falha da cultura em educar sobre o prazer e a convivência. Pode ser que isso tudo se replique num nível grande, como o nacional, talvez, não me interessa. Minha birra é de condomínio, é do bloco B, é do salão de festas. Eu explico.

Com pequenas exceções obscuras, as pessoas compram um imóvel a prazo. Fundo de garantia, férias não tiradas, um Uno ou um Fox vendidos para inteirar a entrada. Dinheiro vivo não, nem transferência bancária. Quem consegue fazer diferente tem um status todo seu. Se torna assunto dos porteiros. Se é bom ou não, é uma questão de gosto; mas está lá. E quando alguém compra o apartamento debaixo da cobertura com dinheiro vivo sendo previamente conhecido de todos, bem, o destino da fala é a fofoca. O ser humano é incrível – e, aqui no Brasil, podemos ser passivos, mas não pacíficos. A vingança contra o forte vem no deboche. O caso é mais ou menos assim.

Faz coisa de dois anos incompletos o “seu” Jair se mudou para o Bloco B, no penúltimo andar, seguindo essas condições obscuras aí de cima. Ele já era conhecido em Laranjeiras. Não era novo, mas também não envelheceu o suficiente para ser velho. A fama na rua e nos botecos por onde ele andava era de que tinha alguns problemas psicológicos, porque chegava a ser criminoso o modo como pedia ao Paulo, um garçom preto que servia a Original no bar do Catiço, pra trazer mais uma, ou como brincava de intimidades com ele. “Criolo”, “macaco”, “arroba”, tudo assim, sorrindo e meio com expressão de débil mental. A palavra é proposital, porque era desse jeito que a vizinhança tratava o homem. Como ele era branquinho, policial reformado, tinha sido vereador uma ou duas vezes, não me lembro bem, não devia ser canalhice. Ele era doido, paranoico, esquizofrênico… Mas o que as pessoas não percebem é que a doidice desculpa o mal caráter. “Seu” Jair não tem nada de doido; ele é ridiculamente banal.

Quando comprou à vista, o assunto começou a correr pela portaria, entre as funcionárias da conservadora e nos elevadores. Diziam que ele tinha tirado a sorte grande em um negócio que fez loteando um bairro na periferia em parceria com dois ou três amigos influentes. No local, viviam alguns ciganos que foram expulsos de lá; mas era rentável expulsar esse povo porque as pessoas hoje em dia gostam de poder odiar dentro da lei, sem perigo. Desde antes de Victor Hugo desenhar o Quasímodo, já estava na moda dizer que ciganos comiam crianças e praticavam licenciosidades. Quando os lotes começaram a ser vendidos – e Jair é que vendia tudo -, as pessoas chegavam a pensar que lidavam com um benfeitor. Empreendedor de sorte, homem de visão, emergente! Acontece que o Sr. Emergente se mudou para o meu bloco numa quarta-feira de manhã e já começou não respeitando as regras de mudança do condomínio. Começava o martírio.

Nosso condomínio é incrível. São 8 torres, mas a área é enorme. Temos área verde, piscina, quadra de futebol society. Com tantas torres, são várias ilhas de lazer. Quanto mais alto o andar, maior preço. Eu morava no segundo. Sem regras, o condomínio seria o caos; e o caos se mudava para o 17 B.

Ele colocava o lixo na porta do apartamento, no corredor mesmo, o que fazia com que o cheiro chegasse no décimo quinto andar. Fazíamos rodízio de vagas na garagem, conforme a convenção de condomínio, bienalmente – sendo que, além de duas vagas para cada apartamento, ainda tínhamos mais duas na nossa portaria para visitantes. Não é preciso ser inventivo, se você me leu até aqui, para saber que “seu” Jair ocupava as suas e as dos visitantes, sempre.

O uso dos espaços comuns também foi ficando menos comum assim, porque toda semana uma turba de gente confusa era convidada a se sentar à mesa da churrasqueira. As conversas eram as piores possíveis. A Ruth, que mora no 12, ficava perplexa com o tom dos ofícios perto das crianças, mas uma parte significativa dos moradores homens gostava daquela malemolência. Jair era uma espécie alfa em ascensão.

Embora pagássemos o mesmo condomínio, os usos do Jair aumentavam cada dia. De binga de cigarro pela janela a festa numa terça-feira até as 4 da manhã, o pote ia enchendo e começava a entornar. Fizemos algumas reuniões de condomínio extras tentando mediar a situação. O resultado? Parece estúpido demais, e parece porque é, “seu” Jair fazia piada com tudo. Dois ou três amigos compravam que ele fosse um cara legal, que às vezes perdia a linha, mas não fazia mal a ninguém. Os argumentos eram os melhores: “Jair vai à missa”, “Jair vai ao culto”, “Jair é gente como a gente”, “Jair deveria é  se tornar síndico para ajustar essas regras estranhas do condomínio”. E nisso, o homem ria, debochava. Penso que ele era realmente um emergente, mas de um jeitinho só seu. Era um emergente da civilização, só que de marcha ré. Tudo aquilo que a civilidade construiu ao longo dos últimos oitenta anos ele destruía falando de cu, de hemorróida, de mulher feia e de sacanagem. “Seu” Jair era o mais puro espécime que já conheci de um anti-condômino natural. Não era patológico, era patologizante.

Já é quase dezembro, e vão completar os dois anos do ilustre morador com nome idêntico ao de Jânio Quadros. Me pego pensando quase diariamente em me mudar, mas seria injusto fazer assim. Sei o preço que eu todos os outros pagaram para chegar aonde estamos. O lugar é ótimo, e é o tipo de especulação que gostaria de deixar para a dinastia que vier depois de mim. Como eu, há outros que não suportam mais o inquilino, mas quebrar o pacto dessa mediocridade habitacional parece falta de caridade, soa como energia ruim, como negacionismo. E assim, o tempo passa, e passa devagar. Mas tenho certeza de que, mais dia, menos dia, tiramos ele daqui. Enquanto isso não acontece, me pego ruminando enquanto tomo café e passo requeijão na torrada… eu sei que em alguma religião isso deve ser pecado… mas já não tenho tanta certeza se estou vivendo ou apenas aguardando que alguém encha a boca do Jair de porrada.


Vinícius Lara é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo



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