Crônica de um hipocondríaco em meio à crise

Antes de começar, seria preciso dizer que isso não é exatamente uma crônica, mas sim um diário – embora crônicas e diários íntimos tenham curiosamente se misturado nesses dias. Seria preciso dizer, também, que isso não é um diário de verdade, porque eu não escrevo diários. Sou preguiçoso e desinteressante. Meus dias se resumiriam a duas linhas: “hoje acordei cansado. Tomei café. Almocei e, depois de lavar as louças, liguei a tevê e assim fiquei até que meus olhos ardessem. Quando vi, já eram nove horas da noite.” Assim, se digo que se trata de um diário, é porque me falta a habilidade necessária para escrever uma crônica. A forma crua do diário, pelo menos, reduz as exigências de estilo e engenho, porque não se escreve para ninguém (pelo menos, não aparentemente). Um diário, nesse sentido, foi a forma que encontrei para reduzir as preocupações delirantes que envolvem normalmente a arte literária. E, ao final, acabei percebendo que escrevera uma crônica, o que não deixa de ser interessante. Enfim.

 O fato mesmo é que, como muitos de nós, eu estou só há um mês. Ou melhor, estou trancado em casa, eu e minha mãe, sem a perspectiva de ver qualquer outra pessoa. Nem o resto da família, nem amigos, nem namorada (a qual vejo de mês em mês, pois moramos em cidades diferentes). Na realidade, estou assim há sete meses, agora me dou conta. O mundo lá fora parece apenas uma bela imagem para a proteção da tela de um computador.

Eventualmente, preciso sair e ir à rua. Mas, quando isso acontece, é de uma forma tão rápida que parece não ter ocorrido. Eu saio de casa, tomo o rumo de meu destino e não me ligo a nada que possa me interessar no meio do caminho. Assim, quando volto, parece que não saí; mas, sim, que me teletransportei de um ponto ao outro dessa cidade, e que a carga de nervosismo adquirida no caminho por ver que a maior parte da gente se lixa para o que ocorre é o efeito colateral da minha mágica locomoção. E é então que, depois de retirar a máscara, higienizar tudo o que comprei na rua com doses excessivas de álcool, lavar as mãos milimetricamente por vinte segundos, retirar a roupa e ir praticamente nu para o banheiro, ligo o chuveiro e posso tomar banho – o que é parte essencial para retirar os possíveis coronavírus instalados em meus cabelos (os quais, aliás, só crescem, porque a barbearia é um desses lugares terminantemente proibidos pra mim).

Então, aí, já percebo que minha respiração retorna a ritmos menos sincopados e se torna mais eficiente. Em pouco tempo, já me sinto melhor, porque me sinto protegido. Sinto-me melhor porque a casa se tornou o lugar mais seguro nesses últimos meses. A rua, que nós, brasileiros, tanto amamos, se antes era perigosa pela possibilidade sempre presente da violência urbana, agora representa o lugar dessa ameaça ominosa de um vírus desconhecido. Ele pode estar em qualquer lugar; logo, ele está em toda parte. Pelo menos é assim que enxergo, em parte por compartilhar dessa condição levemente situada entre a paranoia e a histeria a que chamamos de hipocondria e, em parte, por ser metade verdade. Porque se o vírus é algo que não se vê e se é algo de que não se tem conhecimento algum, a única forma de falar sobre isso é paranoicamente, não é mesmo? Caso o contrário, deve se calar até que a ciência supere o estado de paranoia que governa a sua iniciativa – o que, normalmente, ninguém faz. Mas confesso que a hipocondria agrava a minha situação.

(Evidentemente)

Dois dias depois da minha saída, começo a manifestar exatamente todos os sintomas da covid e, por mais que eu tenha consciência de que tais sintomas são criações da minha cabeça (porque eu claramente havia tomado mais que todos os cuidados), não abro mão de me queixar com figuras que, ou representam uma autoridade médica, ou uma instância afetiva, como bem sabe minha namorada e família. Mas não é possível evitar, não consigo. Não se trata de uma escolha. De repente, quando vejo, já enviei dez mensagens pelo whatsapp.

No outro dia, como deve de ser, já não há mais sintomas, porque afortunadamente essas pessoas receberam-me bem. Às vezes com ceticismo, mas bem. E, no fundo, o que desejo como hipocondríaco é que alguém dê um contorno a esse sentimento difuso que sinto no corpo, esse sentimento patogenicamente prometeico que possui a estranha capacidade de se transformar nas mais exóticas doenças.

As pessoas costumam menosprezar as queixas dos hipocondríacos; muitas vezes, desconhecendo essa condição que é bem comum na maior parte da população, mas que não deixa de gerar sofrimento e de levar a ações realmente arriscadas, como tomar remédios sem receita, ou ir à hospitais sem necessidade – o que, hoje em dia, pode aumentar nossa exposição ao coronavírus. De qualquer forma, o menosprezo só acentua a queixa. Então, se o objetivo é se livrar de um hipocondríaco, apenas o ouça: é simples.

No meu caso, com sorte, ficarei mais um tempo sem sair – o que, se é ruim para minha saúde afetiva, livra-me por algum tempo da dúvida hipocondríaca.

(Quer dizer, isso se não começo a simular infartos por estar demasiadamente sedentário).


Matheus Mendes é mestre em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ e leitor contumaz de ficção.



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