Meu pé de acerola vermelhinha

Mesmo quando eu tinha 9 anos e total inexperiência de trabalho em empresas quaisquer, tratei de setorizar o quintal da parte de trás da casa da minha mãe. Dividi seguindo a mesma lógica de uma linha de produção: cada espaço ali teria sua funcionalidade de acordo com o que de melhor dispunha. Por exemplo, o canto esquerdo, perto dos pés de banana e do primeiro pé de coco, era ideal para ser ocupado durante os finais de tarde, já que não tinha muita formiga e a terra era boa o bastante para facilitar a extração da matéria prima dos meus bolinhos de barro.

Por outro lado, o canto direito, perto do pé de ata e do segundo pé de coco, só me atraía quando os meus primos estavam. Com companhia, dava para aproveitar muito bem o pequeno quadrado de cimento da caixa d’água para brincar de carrinho, de bola e de patinete. No quintal da mamãe podia tudo, mas havia regras e, por incrível que pareça, a maioria delas impostas por mim. Não que eu tenha sido uma criança mandona, longe disso. Acontece que cada brinquedo tinha seu respectivo setor, e as outras crianças precisavam primar pela organização do nosso espaço.

Só havia uma árvore que unia todas as tribos e brincadeiras: o pé de acerola. Não sei se o José Mauro de Vasconcelos, autor do livro Meu pé de laranja lima, alguma vez na vida imaginou que aqui em plena Amazônia (ou quintal da mamãe) teria uma versão paraense do Zezé, mas com um pé de acerola vermelhinha. Também não sei se meu falecido avô imaginou que, ao trazer a mudinha lá do interior de Minas Gerais para plantá-la milimetricamente bem ali no meio do quintal, no centro dos quadrantes que setorizei, ela se transformaria em guarda-sol nas manhãs calorentas de sábado e, consequentemente, em zona neutra para todos os tipos de brincadeiras.

Se minha memória também for setorizada por espaços geográficos, a parte das lembranças do pé de acerola é, com certeza, uma das mais felizes. Lembro com carinho dos ninhos de passarinhos que, quando experimentavam o conforto e a hospitalidade oferecida pela árvore, logo queriam morar nela. Da mesma forma acontecia com as joaninhas, que vez ou outra inventavam de nos fazer uma visita. Além de me proteger do sol e de servir de casa para os bichos, o pé de acerola também era o aliado de toda família contra a gripe. Segundo a minha mãe, bastavam cinco frutinhas para que a cura do resfriado chegasse. Psicológico ou não, comigo sempre funcionava.

E por falar em doença, uma vez ele adoeceu, e eu fiquei muito preocupada. Assim que o vovô nos visitou, pedi ajuda; e ele, como medida para todo problema sem saída que tinha na vida, decidiu orar. Estendemos as nossas mãos para o lado que não tinha mais folhas e pedimos a Deus para que curasse o pé de acerola. Milagre ou não, deu certo, e logo a copa voltou a ficar frondosa.

Quando o pé de acerola chegou, eu nem estava aqui; na verdade, eu ainda nem tinha nascido. Tudo o que sei são os relatos da viagem dele na mudança de mala, cuia e vegetação da minha família para o Norte. Eu o imagino vindo, ainda bem pequeno, com os galhos ao vento no jipe do vovô atravessando Minas, Goiás, possivelmente o Distrito Federal, Tocantins, Maranhão e finalmente chegando até a casa onde cresci. Uma viagem desse tamanho é de baquear a coluna — ou o tronco — de qualquer um, mas todos conseguiram se estabelecer e criar raízes por aqui.

Alguns anos se passaram, e eu já não acordava cedo aos sábados para brincar no quintal – provavelmente porque tinha jogado Super Mario até tarde da noite anterior. Penso que, talvez, se tivesse acordado um pouco mais cedo e ouvido os barulhos do serrote, eu teria conseguido chegar a tempo de evitar o pior. Meu pé de acerola — que também era sombra, casa, remédio, milagre e herança do meu avô — tinha sido cortado, sob a justificativa de evitar o trabalho de varrer as folhas. A área do meio do quintal não ficaria mais vermelha quando chovesse; agora era só o nada, o nada marrom cor de terra. Depois de um tempo, tiraram as raízes dele de lá – e eu também tirei as minhas, já que dificilmente vou ao quintal da casa da minha mãe e tenho sonhado pegar a estrada de jipe como ele fez.


Ingryd Cordeiro é paraense, estuda Direito e escreve crônicas para publicar em seu perfil do Medium.



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