Matéria Sem Título

Conheci o Vinícius na redação do Gazeta do Comércio, na década de 1990. De lá até hoje, se passou quase um quarto de século, o que fez com que eu praticamente me esquecesse do jornal, da secretária, do Vinícius e da coisa toda; ou, pelo menos, eu pensava assim até ligar a TV na hora do almoço e assistir a uma matéria policial a respeito de um homem que havia se jogado pela janela do quinto andar, de roupão, segurando numa das mãos um cachimbo e na outra uma fotografia polaroid. Pelas imagens, eu reconhecia aquele prédio, na altura 573 da Avenida Rebouças, mas não lembrava de onde. Foi aí que uma vizinha, mais velha e estereotipadamente crente, concedeu pequena entrevista à repórter dizendo “Coitado do seu Vinícius. Tão jovem. Tão educado. Pena que não tinha deus no coração.” Era isso mesmo, a casa do Vinícius!

Quando nós trabalhávamos juntos, ele tinha deus no coração. Pelo que me lembro, tinha deuses até. Foi um pouco católico, um pouco budista, umbandista, candomblecista e ateu. Ele era jovem, nem quarenta anos; mas de perto, aparentava menos de trinta. Sempre estava fazendo coisas, o tempo inteiro. Algumas vezes, cheguei a sentir irritação por isso. Não que o Vinícius fosse genial, não era; mas fazia parte daquela geração que nasceu no limite da mediocridade. Fazia tudo de uma forma aceitável, no entanto, como os que nasceram a partir dos anos noventa tendiam a ser medíocres, nós tendíamos a acreditar que o Vinícius era brilhante.

Um dia, enquanto tomávamos café, ele me contou sua vida. Fazia parte de uma instituição religiosa e dirigia alguns projetos sociais por lá, o que consumiu todos os finais de semana da sua vida desde os dezenove anos. Estava participando da criação do plano de governo de um candidato trabalhista, o que rendia jornadas de trabalho noturnas sem fim. Estava responsável pela coluna política do jornal. Em casa,  cuidava de dois gatos vira latas. Pai de uma menina, fotografava de vez em quando os cenários exóticos da cidade. Vivia um relacionamento instável com a mulher. Lia compulsivamente e ainda me dizia que pensava em fazer algum outro curso superior. Trabalhava como jornalista, mas era geógrafo de formação. Tudo isso, ele me contava enquanto mexia quatro gotas de adoçante em meio copo de café.

Ouvindo tudo, a minha sensação era de cansaço misturado com um pouco de raiva. Me passava a impressão de que poderia ainda fazer mais dez coisas simultâneas e pagaria apenas o preço de uma olheira funda e algumas dores nas costas. Reclamava muito de dores nas costas, e talvez por isso, pelo menos uma ou duas vezes na semana, ele ia trabalhar fedendo a emplastro Sabiá. Do seu jeito, aquele rapaz me despertava curiosidade. Andava de uma forma desengonçada e, quando parava, arqueava os joelhos para trás como se não tivesse ossos. Na copa de 1994, ele tirou os dias de jogos para dormir ou ler. Não tinha paixão pelos jogos, ou por corridas de Fórmula 1, ou pelo carnaval, nada. Na verdade, ele andava sempre com livros na mochila, que lia quando o tempo folgava um pouco. Comia mais doces do que meus filhos e bebia preferencialmente destilados, o que rendeu a ele o título da única pessoa na redação que costumava beber conhaque puro. Fumava cachimbo, não gostava de maconha, foi vegetariano uma vez durante o tempo em que trabalhamos juntos. Vinícius era uma peça diferente naquela engrenagem. Tinha excelente produção, mas parecia triste.

Em dezembro de 96, nós conversamos pela última vez. Ele pediu contas e estava aguardando o aviso prévio, que terminaria na virada do ano. Como os donos do jornal achassem um desaforo que alguém quisesse se demitir, fizeram com que ele cumprisse rigorosamente os dias do aviso, marcados no relógio de ponto, mas tiraram de sua responsabilidade a coluna política, que deram para o Moisés. Vinícius foi colocado para redigir o horóscopo semanal.  Naquela época – tanto quanto hoje -, quem cuidava disso ou eram os estagiários ou os renegados, porque nenhum entendido queria fazer. Os astrólogos acreditavam demais nas estrelas para vender suas previsões em jornais que custassem oitenta centavos. Naquele dia, eu preparava uma retrospectiva anual e só pensava no que aquele ano maluco tinha criado.

– 96 foi foda; mas também, um ano que começa com um ET em Minas não pode ser normal.

– Pode ser.

– Pode ser não, cara, é. As únicas coisas boas que aconteceram até aqui foram a prisão do Darcy Pereira e o lançamento do Pálio. O resto está revirado.

Eu tentei fazer piada e forçar um pouco a conversa, mas o Vinícius estava mais distante. Com certeza escutava, porque seus olhos acompanhavam os gestos que eu fazia com a mão. Ele escutava por inércia, de vez em quando franzindo a testa, depois soltando de novo.

– Acho que estou infeliz, Beto. Não sei bem, mas acordei com uma sensação estranha hoje cedo. Quando abri os olhos, em casa, pareceria que eu era outra pessoa; quer dizer, que uma outra pessoa dentro de mim também abria os olhos na cama, com a única diferença de que, pra mim, o teto com o ventilador rodando era mais um sinônimo de quarta-feira, mas para esse outro, o ventilador parecia uma coisa toda diferente.

Ele disse isso e se calou com uma angústia que eu poderia pegar com a mão, de tão densa. Como só estávamos nós dois na copa não era possível desconversar e sair de fininho. Nós não éramos exatamente amigos, é difícil fazer amizades nesses tempos, mas éramos colegas e isso bastava. Tive que ficar, mas tentei evadir.

– Quê isso, rapaz! Se eu não te conhecesse, ia dizer que você veio trabalhar chapado. Não tem como a gente ser duas pessoas ao mesmo tempo. Isso é coisa pra Paulo Coelho ou Zíbia Gasparetto. Você precisa é de férias.

– Não, Beto, é sério. Acho que vivi minha vida errado. É estranho, mas quando olho para trás não consigo me lembrar de como foi minha infância. As pessoas me dizem que foi feliz; eu acredito, mas não me lembro.

– Mas ninguém se lembra, Vinícius. A gente vive na capital, ritmo alucinado, o Brasil nesse sobe e desce maluco, quem vai lembrar?

– Aí é que está… Se eu não me lembro, porque aceito que outros se lembrem por mim? E o que vem depois? Aos cinquenta não lembrar dos trinta? E aos setenta não se lembrar de nada? E depois sequer ser lembrado? Não dá, Beto…

Óbviamente isso deveria ser a crise de meia idade de um intelectual que não conhece a vida. Sempre pensei assim quando ouvia coisas do tipo. Quem trabalha não tem tempo para ficar olhando mosquito voar.

– Sabe do que você precisa, Vinícius? De um teco e de uma mulher pra te dar uma surra a noite inteira. Esse seu outro eu vai voltar lá pra dentro rapidinho. Põe o pé no chão. Pensa na sua filha, cara. Se quiser, te passo o telefone de uma morena que atende em casa.

– Você não entende, Beto, e fica de sacanagem. Quem dera se todo problema fosse resolvido comendo alguém. Você não está certo, mas errado também não está. Esse eu que acordou olhando para o teto parece que me diz que essa vida nunca foi minha. Não amo mais quem amei, não gozo mais o que gozei. Nascer novinho aos quarenta… Só fica minha filha, cara. E além do mais, fazendo o horóscopo dessa semana, escrevi que minha cara metade seria ariana. Vê só, eu escrevi e esse outro eu tomou como verdade. Acho que preciso de remédios.

Quando o assunto chegou em signos, eu não dei conta e desconversei falando do massacre dos sem-terra em Carajás. Nunca dei conta de signos, e agora o sujeito que escreve da própria cabeça as previsões resolveu acreditar em si mesmo. Ele deve ter percebido o meu desconforto, porque também deixou de falar. Nos cumprimentamos pelos dias que faltavam até o natal, mas sem esticar conversa. No dia vinte e três, ele terminava o aviso prévio; não fizemos uma festa, mas todos apertaram sua mão desejando sorte – mais por protocolo do que por verdade, é certo. Na nossa vez de nos despedirmos, ele me entregou um envelope com um livro dentro, agradeceu por tudo e foi embora. Demorei mais de uma semana para abrir e ver o que era. Ele me deu um exemplar de O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse. Não li.

Tive notícias de que não voltou a trabalhar em jornais. Se mudou para o tal apartamento na Rebouças com os gatos e a filha. Depois se separou da mulher e foi viver no interior por um tempo, mas depois voltou para o tal ap. Pelo que chegava a nós, viveu uma vida modesta como professor e boêmio. Alguns diziam que juntou os trapos com outra moça, mas isso eu não sei. Sei que não me lembrava do Vinícius até a velha de saia e coque dizer que o “seu Vinícius não tinha deus no coração.” Fiquei chateado por ele.

Na estante do quarto, eu ainda guardava o livro de vinte anos atrás. Separei dos demais e deixei sobre a escrivaninha do quarto onde trabalho. É foda isso. Resolvi ler o prefácio em memória daquele homem. Talvez ele fosse exatamente o tal do Haller e tivesse percebido que, às vezes, dói menos a morte que a vida torcida. Se bem que não acredito que ele tenha se jogado assim, no ato. Parece mais razoável pra mim que estivesse fumando ou olhando pela sacada e numa crise de vertigem – ele tinha bastante medo de altura – a cabeça tonteou e o corpo não opôs resistência.  Ele não se mataria; amava demais a filha para isso. De todo jeito, não importa mais.

Hoje eu tenho setenta e três. O Vinícius deveria ter no máximo uns sessenta, não mais do que isso. Na casa dele, e eu peguei a informação com o pessoal que cobriu o tal suicídio, o pote de ração do gato estava vazio e a chaleira no fogo para fazer café, coisas que só reforçam minha tese do corpo cansado que não se opôs à queda, tão feminina e erótica queda.

Fui ao velório. Poucas pessoas presentes. Ainda se usava assinar a ata dos presentes, onde cada pessoa preenchia nome, data de nascimento e cidade. Me pergunto porque seria importante o registro da data de nascimento de alguém que fosse prantear seu defunto. Uma mulher gorda e carrancuda ficava na porta da capela fazendo com que cada um que saísse deixasse ali suas informações. Como fui tarde da noite, só estavam ali a filha dele, com um neto adolescente, o irmão e uma mulher morena com as unhas dos pés pintadas e as das mãos não.

Conversei um pouco com a filha. Me benzi como bom católico não praticante e fui embora. Na saída, a velha me empurrou a prancheta com os espaços para me identificar. Conferindo, fui juntando nome à pessoa, só não identifiquei a mulher, que tinha assinado imediatamente acima do meu nome. Bati os olhos e vi a data de nascimento, cinco de abril de 1983.

Não segurei um riso fácil. O desgraçado estava certo. Pena que morreu cedo.


Vinícius Lara é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo



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