Herança – Capítulo 7: O Encontro

Ricardo e Noêmia passaram a manhã conversando. Aproveitaram que os filhos estavam para a escola e tiveram uma conversa franca um com o outro. Falaram da demissão, de como seria o acerto, do seguro-desemprego, de economizarem até tudo novamente se ajeitar; principalmente, falaram dos filhos – que teriam que procurar uma nova escola no ano seguinte, e chegaram à conclusão de que o jeito seria eles estudarem em colégio público, começando desde já, uma vez que poderiam economizar no ônibus e se matricularem na escola do bairro.

– Não tem solução, Ricardo. Eles vão se adaptar.

– Não quero isso, não quero mesmo. Eu não tive estudo, você não teve estudo. E olha como estamos hoje… quero dar uma vida boa pros meus filhos. Que merda! Vamos ter que arrumar um jeito.

– O que devemos pensar é em não gastar. Sexta-feira começa o carnaval. Aquele nosso plano de aproveitar e passear, devemos esquecer. Vou aproveitar e ver se pego o máximo de costura. É uma época boa pra isso, muitos bailes à fantasia para os grã-fino. Dona Eliana já é uma delas; quer uma roupa chique, vai trazer o pano ainda hoje; isso vai render pra gente um dinheiro bom.

Ela caminhou até o marido, que estava de pé junto ao filtro de barro, abraçou-o forte. “Tudo vai ficar bom de novo, meu nêgo! Vamos ter fé!”. Ele retribuiu o abraço sem muito entusiasmo e pensou no quanto deixou a desejar para sua família.

– Estive pensando, o seu Nonô trabalha na fábrica de biscoitos. Ele um dia me disse na padaria que estão querendo empregados para trabalhar lá… falou isso pensando no Augusto. Quem sabe não podemos pedir a ele pra ver se te empregam? Não precisariam nem assinar sua carteira, enquanto você está de seguro. Aí conseguimos algo a mais. O que acha?

– Vou pensar, criôla. Agora tenho que ir fazer o demissional.

Segurou a cabeça da esposa entre as mãos, deu um beijo em sua testa e saiu de casa, arrastando o corpo e a alma.

Noêmia preparou o almoço para os filhos, arrumou a casa do jeito que deu com o tempo que sobrou e seguiu para sua máquina de costura, que fica no fundo da casa, até esperar os meninos chegarem.

À tarde, os filhos no quintal brincando de bola, Noêmia ouviu o barulho da campainha de sua casa. Ao sair, encontrou-se com Rubens segurando uma sacola.

– Sr. Rubens! Como vai o senhor? Achei que Dona Eliana ia trazer o pano. Entra, por favor.

– Olá, Noêmia. Como vai?

– Tudo bem, senhor.

Enxugou as mãos molhadas de lavar as vasilhas no vestido e o cumprimentou meio sem jeito.

– Quer um copo d’água, um cafezinho?

– Não, obrigado. Só vim aqui trazer o pano para a roupa do baile da Eliana. Ela estava ocupada hoje e me pediu que trouxesse aqui para a senhora. Também mandou uma revista de moda, com o modelo do vestido que ela quer.

Noêmia recebeu a encomenda e logo foi abrindo a revista na página marcada. Olhou fixamente para o papel com o profissionalismo que a ocasião exigia e se sentiu feliz por poder oferecer aquele tipo de serviço, pois era a melhor costureira que havia em toda cidade. Sabia como ninguém cerzir, elaborar vestidos, imitá-los de grandes marcas e modas.

– Obrigado, Sr. Rubens. Diga a ela que conseguirei fazer o vestido, sim. Para quando ela precisa?

– O baile é no sábado. Acredito que sexta esteja ótimo.

– Preciso, então, que ela venha experimentar o vestido para os ajustes finais depois de amanhã.

– Pode deixar. Eu avisarei a ela. Tem preferência por horário?

– Não, senhor. Só pede a ela pra ligar um pouco antes de vim, pra ter certeza de que estarei por aqui.

– Tudo bem.

Naquele momento, surgiu Augusto vindo do quintal, sem camisa, todo suado. Ele observava o movimento na casa e, antes, um carro estacionando em frente. Tinha um jogo no campo do Lacet em meia hora e via naquilo uma oportunidade para pegar uma carona, pois sabia que aquele homem era conhecido da família.

– Ôh, moço, me dá uma carona!

– Quê isso, menino, isso são modos! – Noêmia toda ruborizada com a liberdade do garoto.

– Não há problemas, Noêmia. Pra onde vai, rapaz?

Rubens observou o garoto, ainda ofegante, suor escorrendo pelo rosto e pelo tórax torneado, sorriso displicente nos lábios.

– Vou pro Lacet.

– É o seu dia de sorte. Estou indo lá pra perto.

– Beleza!

Foi até o quarto, enfiou qualquer camisa e saiu de casa, esperando seu bilhete premiado no portão.

– Tchau, Noêmia. Obrigado.

– Por nada, Sr. Rubens. Eu que agradeço.

Já no carro, vidros fechados, conversa amigável entre os dois, Rubens perguntou a idade do moço. “19 anos”. O médico respirou fundo, semicerrou os olhos, esboçou meio sorriso e pousou a mão na coxa esquerda do rapaz, sentindo um frio na barriga. “Acho que vamos nos dar muito bem, garoto.” Ao que foi retribuído com outro sorriso. Enigmático. Suficiente, porém, para unir aqueles dois seres aparentemente tão incompatíveis entre si.


Darlan Lula é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia. www.darlanlula.com.br


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