O “Cine Palace” das minhas memórias e “A Terceira Morte de Joaquim Bolívar”

Com o fechamento do Cine Palace, na Rua Halfeld, uma fatia importante da cultura juizforana se esvaiu. Um espaço que habita as memórias de muita gente, dentro e fora de Juiz de Fora. A primeira recordação emblemática que tenho desse cinema data do ano 2000, quando, aos 14 anos, começava a desbravar a vida urbana.

Naquele ano, mais especificamente no mês de abril, um menino da zona rural visitava a cidade para assistir ao “A Terceira Morte de Joaquim Bolívar”, do diretor Flávio Cândido. O filme, cuja trama se reportava ao período da ditadura civil-militar brasileira, narra a saga de um jovem idealista de esquerda, Joaquim Bolívar, que, na luta e resistência contra a destruição do vilarejo histórico de “Burruchaga”, “morre” em três etapas da narrativa: as duas primeiras, físicas, no período do golpe civil-militar de 1964 e no contexto da lei da anistia (1979); e a terceira, simbólica e ideológica, na virada das décadas de 1980-1990, remetendo ao momento em que o personagem se vê corrompido pelo capitalismo neoliberal.

O cenário das filmagens abarcou, predominantemente, as regiões de São José das Três Ilhas (distrito de Belmiro Braga – MG) e Simão Pereira (MG). Acompanhei de perto a rotina das filmagens, a presença dos atores Jonas Bloch, Othon Bastos, Antonio Pitanga e outros, no sítio de minha família, em Simão Pereira (MG), nos idos de 1997 e 1998, quando tinha 11 anos. Lembro-me de visitar a barraca verde-amarela instalada pela equipe das filmagens, na extensa baixada existente lá no sítio; de observar a grande bandeira do Brasil, surrada, desbotada e esgarçada, balançando ao ritmo do vento, na ponta de um bambu bem alto, cortado ali mesmo, em nossa propriedade. Lembro-me também das minhas bisbilhotices curiosas de garoto, que, juntamente com minha irmã, Verinha, mexia nas quinquilharias guardadas dentro daquela barraca. Lembro-me do helicóptero sobrevoando nossa casa! Lembro-me dos moleques dos arraiais da redondeza, sentados no alto do morro, assistindo, curiosos, às filmagens. Lembro-me dos atores enfrentando a água fria do chuveiro lá de casa, que ainda não contava com o conforto da energia elétrica! Lembro-me da minha redação sobre o filme, no colégio! Lembro-me de minha outra irmã, Aninha, escondida na barraca verde-amarela, literalmente chorando a derrota do Brasil para a França, na copa de 1998 (seria um presságio?). Lembro-me dos objetos que minha mãe, Nair, emprestou para compor o cenário das filmagens: a lamparina velha, a cadeira de madeira, a centenária chaleira preta e a chapa de ferro antiga, na fornalha improvisada.

Porém, mais importante do que assistir extasiado aos bastidores das filmagens, à movimentação dos atores, dos figurantes e da equipe de produção, foi receber convite para assistir à pré-estreia do filme no Palace, em Juiz de Fora. Um evento célebre. A excepcionalidade do fato me fez guardá-lo com uma saudade “docemente provinciana”, como diria Manuel Bandeira. Depois disso, não o vi mais.

Coincidentemente, nesse estranho e apocalíptico ano de 2020, em que as circunstâncias pandêmicas me fizeram aproximar ainda mais das lembranças pessoais, resolvi reabilitar essas memórias: retirei o cartaz do filme da gaveta, coloquei-o numa linda moldura e o pendurei na parede do meu quarto, na roça. E, agora, depois de muito procurar o filme na internet, tive a emoção de me deparar com ele, novamente, diante dos meus olhos. Dessa vez, em tela pequena, é verdade. Uma tela de um notebook que jamais poderia imaginar um dia ter contato.

Mas a emoção, certamente, não foi menor do que aquela sentida no Palace, na virada do milênio. Não posso negar o quão incrível foi poder confrontar as memórias cristalizadas e ingênuas da adolescência com a visão do historiador, adulto, de hoje. Que emoção rever a charrete laranja de meu pai, Tõezinho, que, carinhosamente, conserva e usa até hoje! Que emoção rever nosso cachorro “Bob”, o fiel escudeiro do nosso cavalo, “Sereno”, ambos já em outro plano! Que emoção rever a igreja e os casarões históricos de São José das Três Ilhas! Que emoção rever as paisagens de meu lugar de origem e os objetos carregados de memórias (alguns deles ainda com a minha família)!

Romantismo e saudosismo a parte, é salutar constatar que, vinte anos depois, minhas percepções das críticas políticas, da realidade brasileira, do contexto histórico, das nuances das representações imagéticas, da forma de assistir aos filmes, evoluíram. O ensino médio cursado em Juiz de Fora, a graduação e o mestrado em História na UFJF, a atual experiência de doutorando e minha trajetória profissional como professor e historiador me permitiram desenvolver a maturidade intelectual necessária para perceber muitas coisas imperceptíveis àquela época. Uma delas foi a percepção de que somente um cinema com as características do Palace poderia exibir um filme nacional, de cunho não comercial, como “A Terceira Morte de Joaquim Bolívar”.

Podemos imaginar, portanto, que esse confronto entre presente e passado também trouxe desencantamentos. Hoje, entendo que aquela bandeira do Brasil, surrada, desbotada e esgarçada, posicionada ao lado de uma barraca verde-amarela, não estava ali de maneira fortuita. O Cine Palace, minha referência na linda e longa rua Halfeld do ano 2000, não existe mais. Sucumbiu ao capital. Está oco, ainda que cheio de mercadorias que “alimentam” o consumismo deprimente e insosso da sociedade contemporânea. Por ironia do destino, diante de seu recente desmonte, assistimos a um drama real, em que parte da sociedade juizforana vivenciou, literalmente, a “terceira morte de Joaquim Bolívar”… Entretanto, mesmo oco, sem mais poder preencher um vazio impreenchível, o Palace estará sempre e umbilicalmente associado a esse momento marcante que acabo de relatar, em que me sensibilizei e despertei para sonhos, vocações e afeições até hoje vivas dentro de mim, através dos livros, da História e das artes. Mas uma inquietação permanece: o que estamos fazendo para que outras gerações tenham essa oportunidade de continuar a sonhar?


Sérgio Augusto Vicente é bacharel, licenciado, mestre e doutorando em História pela UFJF. Dedica-se ao estudo da história social da cultura no Brasil, abrangendo temas como trajetórias individuais e de grupos, sociabilidades, associativismo, história intelectual, história social da literatura, acervos documental e bibliográfico, patrimônio cultural, memória e educação. Professor de História e historiador. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG).




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