Herança – Capítulo 6: As Agulhadas

Desde a promoção do marido, Noêmia não precisava mais se desdobrar em suas costuras para poder complementar a renda da casa. O seu trabalho era hercúleo. Chegava a trabalhar, em média, 18 horas por dia – contando os cuidados com os filhos, que também exigiam demais dela. Apesar de sempre estar com o dedal, não eram raras as vezes ela se machucava com suas agulhas, pois o sono era seu grande inimigo nas madrugadas de intensas costuras.

Ricardo valorizava, e muito, esse empenho da mulher. Não à toa torcera muito para que a esperada promoção no seu emprego viesse, para fazer com que sua esposa diminuísse ou até mesmo cessasse com aquilo tudo. Quando ele conseguiu tal feito, a casa toda se animou com a notícia. Tiveram um domingo de festa naquela semana, todos felizes, esperando novas idealizações, novas promessas da vida, novos sonhos realizados. E Noêmia pôde se dar ao luxo de pegar somente encomendas de quem ela gostava ou desafios de costura que lhe aguçassem o espírito empreendedor.

E, agora, a realidade jogada na cara como excremento de porco, sem ter como pedir socorro a ninguém. Aquela noite, em que Ricardo voltava a beber depois de tantos anos, era a promessa de dias difíceis; de lutas diárias para que o vício não o consumisse novamente. Ela sabia que ele se encontrava destroçado, arrasado, perdido no mundo como um pardal: distante de seu ninho, voando ao sabor das intempéries do tempo. Noêmia não dormiu nada – enquanto o marido, ao seu lado, ficava jogado na cama como um títere sem dono, quebrado, pronto a ser arremessado ao lixo.

Ela pensou a noite inteira em como contornar aquilo tudo, como reorganizar a sua história. Precisava de um plano. E não deixaria nada nem ninguém abater sua família. Apegava-se no Cristo, em quem ela tanto confiava.

Quando o marido acordou, ela esperou que ele se recompusesse, tomasse um banho. Na cozinha, com uma xícara de café quente à mão, oferecida por ela, Ricardo, de cabeça baixa, tamborilava na mesa, e lembrou-se das falas do Sr. Miranda: “Eu não tive como segurar o seu emprego”. Como isso! Se há poucos meses havia sido promovido. “Não tive”. Num gesto intempestivo, Ricardo soltou a xícara e deu um soco de punho cerrado na mesa, assustando sua companheira.

– Gordo filho da puta. Como ele fez isso comigo?! Eu era o seu melhor funcionário.

Noêmia, passado o susto, recompôs-se, foi até ele e o abraçou por trás. Ricardo arrefeceu os músculos, inclinou a cabeça para o lado e deu um beijo em sua esposa. Ficaram unidos assim por alguns segundos, tempo necessário para recobrarem-se as forças um do outro, para uma estrela longínqua se apagar no céu definitivamente.


Darlan Lula é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia. www.darlanlula.com.br


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