Voluntário

Fábio está sozinho em uma parte afastada da casa com seu frasco de remédios em
tons pastéis na mão. Teoricamente aqui deveria ser o jardim, mas nada naquele ambiente frio remete ao esperado de um jardim de verdade. Um verde estranho e luminescente cobre tudo ao redor, deixando a atmosfera um tanto artificial. Ele toma um comprimido.

Apesar disso tudo, ainda era melhor estar aqui do que estar em casa. Aqui, as coisas não faziam muito sentido, mas pelo menos a permanência era uma escolha, e não uma imposição. Aqui ele seria capaz de esquecer, deixar o mundo para trás, se perder para se encontrar novamente. Pelo menos, ele acreditava. Alguma coisa estava estranha ultimamente, a sensação constante e inexplicável de que ele precisava sair dali crescia a cada dia.

– Ei, você está ouvindo isso? – a voz de Número 2 subitamente faz com que Fábio
volte de seus devaneios. Ela sempre falava com um tom macio e convidativo, como quem está constantemente tentando te convencer de alguma coisa.

Desde que Fábio chegou, teve poucos atritos com Número 2. Ela era jovem, devia ter a mesma idade dele. Fábio nunca perguntou seu nome de verdade; por aqui, ela era apenas um número, como todos os outros. Ele era o único que ainda fazia questão de ser chamado pelo nome de origem.

– Estou ouvindo. Os passarinhos estão cantando. São 11 horas, eles sempre cantam
exatamente às 11 horas. – respondeu. – É o único som bonito por aqui.

Com isso, Fábio sente o movimento brusco de Número 2 levantando ao seu lado.

– Isso não é verdade! Gosto do som dos talheres na hora do almoço. – Ela diz quase
ofendida, como se ele tivesse cometido uma grande ofensa ao não exaltar o som da prata batendo na porcelana todas as tardes.

– Ora, do jantar não? – Ele questiona, com um fundo de ironia na fala.

– Claro que não. O jantar aqui sempre é sopa, eu detesto sopa. – ela levanta a voz – Aliás, gosto menos ainda do barulho das pessoas comendo sopa. Sabe do que eu estou
falando? Além das colheres serem substancialmente mais irritantes do que os garfos, as
pessoas parecem que não conseguem colocar uma porção de sopa na boca sem reproduzir os barulhos mais irritantes captados pelo ouvido humano.

Depois dessa declaração profunda e complexa, os dois caem em silêncio. Ele repara
que não se lembra que dia é hoje. Aqui, uma das coisas mais importantes é se manter
atento ao tempo. É a única coisa capaz de firmar os moradores na realidade, fazê-los recordar alguma coisa familiar com a vida comum que levavam antes de cruzar estas
portas. Domingo? Quarta? Era difícil lembrar. Se perguntou se valeria a pena perguntar
para Número 2, mas ela nunca o respondia. Ela dizia que não fazia diferença em que dia
estávamos – o que era um completo absurdo, pois as quartas feiras eram dias sagrados por aqui. Vez ou outra, ele perdia uma quarta; quando isso acontecia passava todos os minutos seguintes até a próxima quarta concentrado no tempo. Toda quarta feira, eles vêm.

Fábio nunca tinha visto de fato a presença dos tais homens de sorriso largo, mas
ouviu diversas histórias. Eles, os homens simpáticos e arrumados, inteligentes e gentis,
vinham todas as quartas e escolhiam quem poderia sair naquela semana. Alguns até saem para sempre. Fábio tinha sede de mundo, vontade de experimentar o diferente. Já não lembrava mais da sensação de estar no sol, caminhar pelas ruas ou dar um abraço. Não se lembrava muito bem de sua casa, mas sabia que não queria voltar para lá. Se não estava satisfeito antes e está começando a se perder por aqui, para onde mais poderia ir?

– Que dia é hoje? – Ele desiste de cerimônias e pergunta, já esperando uma resposta
evasiva.

– Quarta.

Ele se surpreende duplamente. Primeiro, pela resposta direta e honesta.
Segundo, era hoje.

– Preciso me arrumar.

Antes que pudesse se mover, ela puxa seu braço com força.

– Não. Fica aqui. Você nem sabe de verdade pra que você tá se arrumando. Fica
aqui comigo. Você gosta de passar tempo comigo, não gosta? Então. E se você for embora e eu ficar aqui sozinha?

– Aí você vai ficar feliz por mim, mas triste de me ver ir.

– Eu quero ficar com você. Se você não se arrumar, se você não for… aí você vai
estar escolhendo ficar aqui comigo. – A voz dela trazia uma angústia. Era quase possível
sentir na pele os pedidos de Número 2.

– Eu vou, com ou sem você. – Se manteve firme, peito estufado, queixo empinado.

Seu físico não combinava nem um pouco com seus pensamentos naquele momento. Uma insegurança começava a inundar seu corpo e sua mente. O que tem de tão ruim lá fora?

Será que ela ainda se lembra? Não ousaria perguntar. Respira fundo e alcança seu frasco
de remédios. Toma mais um.

– Sabe, Fábio, por vezes me pergunto se o mundo é grande o suficiente para todo
mundo ser feliz.

Essas palavras não foram proferidas diretamente para ele, mas para o universo. Ela mantém o olhar vago, tenta não observar Fábio. A cegueira de Fábio é uma
grande frustração para ela. Sempre fora fascinada por olhares, dividir percepções sobre
formas, cores e luzes, mas ali estava todos os dias ao lado daquele homem que usava uma venda como um amuleto da sorte. Olhos cobertos, coração protegido.

– Os pássaros pararam de cantar.

– Pararam. – responde Fábio – Talvez alguma coisa tenho assustado eles. Eu vou me arrumar.

– Espera! – Número 2 grita, e fica alguns segundos pensando no próximo movimento
de seu jogo, qual será a estratégia para mantê-lo com ela. – Almoça primeiro. É, se você for mesmo embora hoje, quero que pelo menos a gente tenha um último almoço juntos.

Um último almoço? Era esse seu grande trunfo? A decepção de Fábio é visível em
sua expressão corporal. É claro que ele esperava um grande depoimento, páginas e
páginas de um discurso improvisado bem ali que pudesse fazer sentido o suficiente para
que ele ficasse. Um almoço? Não era bem o que queria.

– A gente podia se despedir sem um evento. Não é a Santa Ceia. ‘O último almoço’
soa muito dramático.

Quem não conhece Fábio poderia se convencer de sua falta de apego; mas a verdade é que ele era uma das pessoas mais dramáticas que Número 2 conhecia. É verdade que ela não tinha muitos contatos, mas conhecia cada traço, cada músculo, cada reação de Fábio.

– Hoje o almoço é lasanha. E mais, não é qualquer lasanha, é quatro queijos, sua
preferida!

Então ela ia realmente continuar insistindo na narrativa do almoço. É verdade
que lasanha quatro queijos é seu prato favorito, mas, sentado à mesa de refeições, ele
sentia que nada tinha gosto de verdade. Era como se alguma coisa tivesse levado seus
sentidos. Ele sentia o gosto das coisas, podia tocar e experimentar texturas e temperaturas, mas não era o verdadeiro protagonista da história. Número 2 teria que se esforçar mais se quisesse realmente evitar sua partida.

Quando percebe que sua aposta no almoço não foi bem sucedida, os olhos de Número 2 parecem mudar de foco. A cegueira de Fábio impede que ele perceba essa sutileza, o que talvez seja bom para ele. Os olhos caramelo claro agora parecem queimar, seus pensamentos processando possibilidades e a respiração ficando cada vez mais rápida. O coração dos dois parece acelerar simultaneamente, como uma conexão sobrenatural que é impossível ser quebrada. No fundo, os dois sabiam que dificilmente conseguiriam se separar, não importava o quanto um deles queira. Seria preciso cortar as
duas pontas da corda.

– Você conhece a história do fogo? – Ela pergunta com o tom de voz quase apático,
olhando para longe. Não espera a resposta. – O fogo era uma criança, abandonada por ser difícil demais, se escondeu em alguns cantos. Tentou não machucar ninguém, mas com o tempo a solidão crescia, tornando o fogo mais perigoso, mais arisco. Não se atrevia a chegar perto por medo, mais medo de machucar o outro do que a si. Um
dia, o fogo chegou em uma pequena casa. Lá ele encontrou a água. Ela era muito amada, e parece que ninguém se lembrava da enchente ou da tempestade, só do orvalho e dos
banhos de cachoeira. Não era justo. Com ele, sempre se lembravam do incêndio antes do conforto da lareira e do fogão que esquentava a comida. Ele só queria se aproximar da água e perguntar qual era o segredo. Quanto mais perto ele chegava dela, menor ele se sentia. Presença que dói, mas que ama. Presença que controla e não vai embora.

Quando ela acaba de falar a atmosfera inteira do lugar está diferente. O silêncio não é daqueles confortáveis e sem cobrança, é um silêncio de julgamento de ambas as partes.

Ele se sentindo injustiçado, atacado por aquela pequena história aparentemente inocente.

Ela com a defesa armada, esperando os golpes que surgiriam de sua pequena performance literária.

Nem sempre as palavras são nossas melhores armas. Uma coisa interessante sobre aqueles dois é que por vezes pareciam morar dentro da mente um do outro. De pé naquele ambiente branco e verde iluminado e fluorescente, decidem que aquela briga teria que esperar por um outro momento. Fábio estava com pressa, tanta pressa, mas já nem se lembra para que. Coração acelerado, palmas das mãos suadas, a venda em seus olhos coçando como nunca, quase como se tentassem saltar de sua face e fazer com que ele voltasse a enxergar o ambiente como realmente é. Fábio toma um comprimido. O mundo está novamente em paz.

– Número 2?

– Hm?

– Pra onde eu quero ir?

– Para lugar nenhum – ela grita. – Você não quer ir para lugar nenhum. Se te levam
para fora, o mundo inteiro vira ao contrário e você vai se lembrar de tudo, eu não quero que você lembre. Eu não quero, e você também não. Se quisesse tanto se lembrar, teria parado de tomar esses comprimidos, parado de vir para o pátio todos os dias, tirado a venda dos olhos. Não. Você quer ficar aqui, mas você não sabe disso.

Ela não disse nada disso de verdade. O impulso e a agressividade ficaram pra trás,
dando espaço para um aceno de cabeça sutil com hesitação.

– Você quer ficar, Fábio. Eu sei que quer. – Ela diz com a voz mais doce que
consegue. – Eu vi os pássaros. As pessoas. As cores. Eu vi o fogo, eu deitei na cachoeira. É
lindo. É lindo, mas não vale a pena.

– E quando você viu tudo isso? Você sempre esteve aqui! – Ele retruca com violência.

Algumas coisas não devem ser ditas, e sim descobertas. Infelizmente, o mundo não
é feito de respostas, e sim de perguntas. Quanto melhores as perguntas, melhores os
lugares aos quais conseguimos chegar. Naquele ponto, não seria justo que Número 2 revelasse a verdade para Fábio. Seria cruel, na verdade. Como poderia expor todos os acontecimentos dos últimos anos como um livro aberto? Como poderia despejar a verdade por cima de tantas crenças?

Não faria isso. Não aqui, não agora.

– Fábio, com quantos anos é sua primeira lembrança?

Silêncio.

Os pensamentos de Fábio começam a acelerar, ele tentar chegar a uma conclusão. Começa aos poucos, pelo dia de hoje. O que ele almoçou hoje? Eles foram almoçar? Fábio se lembra vagamente de ouvir alguma coisa sobre lasanha, pássaros e quartas feiras. Que dia é hoje?

– Você lembra de ser criança? – Ela continua. – De brincar de pique esconde? Se
lembra da sua adolescência, seu primeiro beijo?

– Claro que lembro, quem esqueceria uma coisa dessas? – Ele responde na
defensiva, mesmo sabendo que, na verdade, não se lembra de nada.

Ela ri da resposta. Não uma risada alta e contagiante; uma risada triste, carregada de pena. Respira fundo e segue com mais uma tentativa, agora um pouco mais incisiva.

– Sua casa era a última da rua. Isso facilitava as coisas, já que todas eram
exatamente iguais, então você sabia que era só andar até o final. Lá dentro, não tinha nada nem ninguém de especial também. O lugar é só um lugar qualquer se ninguém estiver lá.

Alguém estava lá. Seus pais estavam. Os dois sempre sorridentes, congelados e sempre sem tempo. Sua mãe trabalhava na área de cosméticos, passou a vida buscando a fórmula mágica do rejuvenescimento. Seu pai trabalhava com desenvolvimento de softwares para uma grande empresa de celulares e computadores. Resumindo, seus pais estavam ocupados com o que havia de mais importante no mundo: as aparências e a tecnologia. Tudo isso não deixava muito tempo para cuidar de uma criança, que foi crescendo cada vez menos interessada no mundo.

– Que bom que se lembra dos seus pais. É só isso?

Fábio fica surpreso com a indagação de Número 2. Não se lembra de ter dito nada daquilo em voz alta, eram apenas pensamentos. Será que estava pensando alto esse tempo todo?

– É só isso. Estranho, as coisas estão um pouco confusas agora.

– Toma outro remédio. Já tem bastante tempo desde o último.

Pela primeira vez, sentiu seu estômago revirando com a ideia de colocar o comprimido na boca. Ele não tinha gosto de nada, dissolvia quase instantâneamente, uma pequena pílula de ar.

– Acho que não, posso esperar mais um pouco.

– Não, não pode. Tá na hora, se não vai ficar tarde.

– Eu não quero.

– Vamos almoçar? É lasanha de quatro queijos.

Essa pergunta o pegou de surpresa.

Então ainda não tinha almoçado. Pelo menos uma peça estava de volta no seu quebra cabeça do dia.

– O que tem na comida? – Ele pergunta, desconfiado.

– Queijo – ela responde, debochada.

– Você entendeu a pergunta.

– Entendi, e respondi. Você deve estar com fome pra fazer uma acusação absurda
dessas. Se eu quisesse te envenenar não precisaria de uma lasanha, e você sabe bem
disso.

– Antes de ir, você pode me contar outra história? Pra eu sentir que estou aqui. – A
voz de Fábio soa tão ingênua, tão infantil, que é foi impossível para ela negar esse pedido.

– Onde é aqui, exatamente?

– Onde você quiser. Só preciso sentir meus pés no chão de novo.

– 200 anos atrás, em 1932, um homem escreveu um livro. – Número 2 pausa por um
segundo. Tenta escolher as melhores palavras para a próxima parte. – Se chama ‘Admirável mundo novo’. O livro fala sobre uma sociedade perfeita, dividida em castas. A ordem é o principal componente, todos tomavam um remédio chamado Soma, que preserva a mente e todo mundo vive bem.

– Só isso? Qual o conflito? Toda boa história tem um conflito.

Aquilo nem parecia uma história de verdade. Mais parecia uma sinopse de revista sobre um livro qualquer. Cadê a jornada, os erros, amores?

– A sociedade é perfeita, não tem conflitos.

– Parece uma merda de livro.

Ele não acha isso de verdade. Fábio sempre escolhe o perfeito. Os pratos mais limpos, os talheres mais polidos, as plantas sem nenhum bichinho sequer… Para ele, é impensável querer ver a sujeira das coisas. Mesmo assim, sente falta de um conflito.

Percebeu que está sentindo falta de… sentir. Sentir qualquer coisa, tristeza, desespero,
alegria, amor, qualquer coisa mais do que esse enorme vazio. Talvez sentir o vazio já seja
um começo. Quanto mais ele pensa, menos respostas encontra. Aquela história de fazer as perguntas certas nem sempre é confortável.

Número 2 sabe que ele está a poucos momentos de decifrar o enigma, principalmente passadas tantas horas sem os remédios. Ela se sente exausta, quanto mais tempo ele passa longe dos comprimidos, mais desgastada ela se sente. Deseja do fundo de seu coração que ele mude de ideia, que pare de tentar buscar o que ficou pra trás, mas
sabia que esse momento precisava chegar.

– Fábio – ela diz trêmula, com a voz falhando. – Você sabe onde você está?

– Não, mas acho que estou começando a lembrar daquela história, a do livro.

– Admirável mundo novo?

– Isso. Tinha um conflito sim. A sociedade era dividida em castas, né? Os mais prestigiados e os menos prestigiados. Existia uma reserva. Uma reserva de selvagens, pessoas que rejeitam os costumes civilizados.

– Quem você acha que é, Fábio? Um selvagem ou um civilizado?

Essa pergunta tocava em um ponto crucial. Um deles era quem Fábio de fato era, o outro era quem Fábio acha que deveria ser. “Deveria” é uma das palavras mais perigosas do nosso vocabulário. A quantidade de pressão e expectativa contidas nessas quatro sílabas chega a ser injusta. Fábio, um homem feito de oportunidades e possibilidades, todas jogadas fora pelo medo de ver o mundo. Tinha tanto medo de se encontrar que se perdeu cada vez mais.

Número 2 entende aquele silêncio. Era o silêncio que dizia que Fábio estava quase entendendo. Agora não tinha mais como voltar atrás, era melhor seguir.

– Os selvagens sabem que são selvagens. Entendem. Entendem que antes ser um selvagem do que ter a vida controlada, ser um experimento, um teste, uma ilusão. Os
civilizados não são nada mais do que selvagens negando a própria essência, não acha?

– Aquilo que eles tomam no livro… Soma. É isso que tinha no queijo? É isso que eu
tomo todos os dias?

Essa pergunta é tão inocente que Número 2 jura que daria um abraço em Fábio se pudesse.

– Isso é só um livro, Fábio. Sua vida não é interessante o suficiente para virar ficção.

– A gente bem parece que tá vivendo num livro com esse seu suspense todo e essa maldita história de venda, quartas feiras e selvagens. Eu quero uma história de verdade.
Uma história sobre a gente, alguma coisa pra me fazer lembrar.

Ela não tinha certeza se ele estava preparado pra isso, mas como já havia dito, tudo já tinha ido longe demais, e não tinha mais forças para lutar contra.

– Quando a gente era criança, a gente visitou um lago. A gente foi escondido, não era
pra estar ali. Era um segredo. A gente queria ver os peixinhos, só isso. Nos disseram que
era um lago lindo, um círculo perfeito rodeado de pedrinhas brancas, como nos filmes de
romance. A gente nunca tinha visto peixes de verdade, só no mercado, mortos ou na
televisão. Nem um único aquário. Pegamos um caminho por entre os muros de trás da
escola, seguimos uma trilha de concreto com algumas plantinhas saindo das rachaduras.
Chegamos no lugar que os peixinhos deveriam estar, mas não estavam. – a voz de Número 2 se embaralha; é perceptível que ela não quer continuar a história, mas continua mesmo assim. – Encontramos homens. Homens tristes, sujos, com agulhas, pedras e com fome. O lago tinha cheiro de esgoto e sangue. Os homens nos olhavam como os pescadores olham para os peixinhos. Nessa hora a gente só pensou que aquilo tudo tinha sido um erro. Não existe nada tão bonito que valha a pena ver todo o resto. Não existe, Fábio. A gente só queria ver os peixinhos. A nossa perna ardia de tanto correr, caímos em cima de uma garrafa de vidro e rasgamos o joelho direito. Essa cicatriz é um lembrete. Um lembrete pra não sair daqui.

– Será mesmo que o mundo não tem peixinhos, Número 2?

– Você pode parar de me chamar assim agora, Fábio.

– E os homens? Eles não vem mais?

– Você ainda não entendeu? Os homens estão aqui todos os dias. Trabalham aqui.
Todo dia é quarta feira.

O lago, os peixinhos, a fome, a venda. Tudo fazia sentido agora, muito mais do que ele queria admitir. Fábio nunca fora obrigado a nada, estava naquele lugar por escolha, por medo. Como poderia ter se convencido tão fácil que aquela menina, aquela voz realmente chamava Número 2? Nada disso é real.

– Claro que é real. É tão real quanto estar lá fora. – ela interrompe seus pensamentos.
É claro que ela conseguia ler sua mente, ela estava lá dentro. Esse tempo todo, ele estava em absoluto silêncio, no mesmo cômodo da clínica, sem se mover nenhum centímetro. A voz continua, a raiva cresce. – Cegueira voluntária. Nem todo mundo aguenta as mazelas do mundo, então prefere se esconder. Esse seu remédio não é soma, mas poderia ser. Você pode parar de tomar. Parar de esquecer e voltar a ver o lago e os homens. As crianças com fome, as guerras, as mortes, mas pra que?

Se Fábio tira a venda, sabe que é o fim. Ele se lembra agora. Tudo está um pouco turvo, mas se lembra. Fábio se voluntariou para um teste, um teste em uma clínica inovadora, que prometia uma nova experiência de vida para todos os voluntários: bastava um comprimido algumas vezes por dia. Se a experiência não fosse do agrado do voluntário, deveria tirar a venda, depositá-la em uma caixa verde próxima à cama, e ir embora.

– Se você for, eu desapareço. – a voz de Número 2 parece cada vez mais longe
enquanto ela argumenta. – Você está sozinho. Eu só estou aqui pra te lembrar porque
viemos pra cá. Se você ou qualquer outro morador tirar a venda quer dizer que se lembra e se arrepende, e pode ir pra casa. Mas cuidado, uma vez que a gente volta a enxergar, não dá mais pra ignorar. Quem você era vai sempre ser parte de quem você é. Você veio pra cá pra não ver mais a sujeira, e é isso que você tem vivido pelos últimos 654 dias. Tem certeza que quer desistir de tudo agora?

A verdade é que não tinha.

Agora que sabia que sua liberdade dependia apenas dele mesmo, as coisas ficaram menos atrativas. A única luta era contra si mesmo, e isso não soava heroico o suficiente.

As pessoas têm mania de se sentirem donas de algum tipo de desafio, uma jornada feita exclusivamente para elas, uma batalha épica contra o mundo, mas nem sempre é assim. Naquele momento, Fábio não podia ver, mas estava cercado por outros iguais a ele em uma sala branca e verde. Alguns com comprimidos na mão, outros desfazendo lentamente o nó que prende a venda em seus olhos, todos alheios à quantidade de pessoas que realmente estavam ali.

Todos presos em suas próprias mentes, sem interação, sem risadas, sem dor.

Quando Fábio está prestes a se livrar de tudo, os passarinhos começam a cantar. Talvez os dois fiquem por ali mais algum tempo.


Gabi Guarabyra é atriz, diretora, dramaturga e professora. É pós-graduanda em Gênero e Sexualidade pela FACED-UFJF e compartilha frentes de trabalho teatral no Coletivo Feminino e no Núcleo Prisma.



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