Caçadora de Histórias: Lágrimas – A restauração do ser

Há alguns dias, logo depois de almoçar, a água se desprendia da torneira de maneira vagarosa, e os raios do sol já fortes nessa recém-nascida primavera atravessavam cada gotinha translúcida enquanto atingiam os pratos lambuzados do mais perfumado feijão do bairro. Durante essa atividade tão simples e cotidiana, me peguei pensando no quanto dói ver nossos pais, irmãos e avós chorarem. Dói de verdade, fisicamente. E agora tu deves estar te perguntando o quanto de pensamento e reflexão cabe num lavar de louças, né?

O fato é que esse pensamento me trouxe uma sensação muito forte e também um questionamento: Por quê?

Quando nascemos, precisamos de calor, proteção e afeto. Essa é a receita que nos permite sobreviver os primeiros instantes fora do ventre de nossas mães, e isso não termina quando somos bebês… Prossegue por toda a vida.

Nossos pais, irmãos mais velhos e avós são portadores da ancestralidade, e deles vem o aconchego, os ensinamentos, o impulso para viver e também o porto seguro para onde retornar. Enxergamos essas pessoas como fortes, inabaláveis, sólidas; e, quando elas choram ou de alguma forma se mostram vulneráveis, nós não sabemos como agir.

Mas é importante não esquecer que são humanos com sentimentos vezes elevados a potências muito altas e que um dia nos foram abrigos logo devem ser abrigados.

Ah, já me estendi por aqui… É que falar sobre nosso começo é sempre tão curandeiro. Mas, vamos à história?

“Era uma manhã dengosa que se espreguiçava lentamente num Domingo de verão. Começávamos o ritual: Café da manhã sem pressa e com morangos cobertos de aveia e mel, caminhada com nosso cachorro e mais tarde, almoço na casa de nossos avós. Lá, com certeza, a gente encontraria arroz fresco, frango em molho repleto de temperinho verde e salada de rúcula. Sol por todo o quintal, toalhas espalhadas pela grama e a família fazendo fotossíntese (contém humor!).

A gente sempre se enrolava em conversas, histórias, piadas… e, no fim do dia, um café da tarde cheio de fartura e amor. Numa dessas rodas tagarelas, sempre surge algum relato antigo, travessura de infância, paixonite adolescente, etc. Até que meus avós começam a recordar um período muito difícil e triste da vida deles e não conseguem segurar a emoção… Ela escorre pelos olhos, e tem efeito dominó em todos que lá estavam. Eles nunca haviam tocado naquele assunto justamente com medo dessas santas lágrimas rolarem.

Mas, sabe o que aconteceu? Eles conseguiram enxergar de uma forma completamente diferente e repleta de perdão. Quando vi aqueles olhinhos de vidro se encherem d’água e embaçarem os óculos, senti um aperto no peito, nó na garganta… Tudo o que se pode imaginar. Porque nunca tinha visto eles assim: Vulneráveis, reais. Mas vi o quanto eles precisavam pôr para fora e estabelecer uma nova sensação perante tudo o que viveram. Foi aí que percebi: Lágrimas precisam sair porque restauram tudo o que há de corroído, quebrado, sem luz. Lágrimas restauram nosso ser.”

Gostou da leitura? Então vou te contar um segredo: Contar histórias é a medicina da minha vida.

Uni tudo isso num projeto que floresce de maneira vagarosa e especial que se chama “Caçadora de Histórias”. Tu podes conferir ele lá no Instagram e se quiser participar, escreve para mim através do e-mail tuahistoriaaqui@gmail.com e me deixa te ajudar a enxergar a heroína/herói que és em tua própria trajetória.


Victória Vieira é escritora e idealizadora do projeto Caçadora de Histórias. Caçando e ouvindo histórias, vou escrevendo a tua com minhas palavras e te ajudando a ter um novo olhar sobre ela. Siga o projeto no Instagram.



Galeria: artistas pra seguir na quarentena

Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.

Deixe uma resposta