Sobre o que os olhos não veem

Hoje, eu tirei um tempinho para pensar em coisas que as vistas não conseguem ver. Sobre essas coisas não visíveis, não se tem muito para contar: são também indizíveis. Explicá-las a alguém tiraria dessa pessoa a oportunidade das descobertas – momento em que cada um pode sentir sem aquela obrigação de explicar.

São coisas que os olhos de fora não veem porque, para vê-las, só se for de olhos fechados, ou olhando para o nada. E eu pude perceber essas coisas olhando fotos de João e Lara (João com os olhos presos na sua pipa no ar, e Lara olhando para a grandeza do mar) – e eu juro que já tive momentos na vida que eu devia ter tido esse olhar para o nada… para o infinito.

Espaço de tempo que os olhos buscam, em algum lugar, algo nunca visto nem vivido.

Esse olhar, quando nos pega distraídos, tem o poder de retirar de dentro tudo que nos atormenta e causa medos, como perdas, distâncias… solidão. Se nos perguntam o que estamos vendo, não temos respostas. Olhamos sem a pretensão de enxergar, mas sentir. Nele (digo, no olhar) não ficarão presos os pássaros, as nuvens, as flores, as borboletas… nem paisagens.

As coisas de dentro não podem ser vistas por outros e, muitas vezes, são inexplicáveis: Saudade, alegria, felicidade, angústia, medo, esperança, fé. Só consegue vê-las quem as tem ou é tido por elas – e, mesmo assim, são melhores percebidas de olhos fechados.

À exemplo da saudade, fico na dúvida se nós a temos ou se é ela que nos tem.

– Você não vê o que eu sinto? – Pergunta sem resposta. Só podemos ver o sentimento que nos passam pelo olhar

De olhos abertos, o lado de fora não nos permite ver o lado de dentro. Penso ser por essa razão que abraço, beijo, músicas, afago, poemas e paladar alcançam sua plenitude quando os olhos estão cerrados.

O Escuro dos olhos permite acender a luz de dentro. Lembranças são fagulhas que nos direcionam sem a necessidade de ver porque só nos guiam por caminhos já vividos.

Os Olhos presos no horizonte nos permitem pensar na necessidade de uma direção e, se presos no alto, a necessidade de ajuda.

O olhar de Lara na foto me passa uma sensação de esperança; o olhar de João, uma sensação de fé.

Esperança e fé não podem ser vistas. Podem e devem ser experimentadas e vividas!

E se perguntarem o que mais desejo na vida? Que eu tenha a mesma esperança e fé que senti retratadas nas fotos.

Que o mar não pode ser mais infinito que o sentido da vida, e que haverá sempre vento para sustentar minha fé no alto.


Geraldo Nascimento nasceu em Piedade do rio Grande (MG) em 14 de junho de 1968. Formado em Tecnico em Agropecuária e Pedagogia. Reside em Matias Barbosa.



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