Estéreo – Capítulo 2

Seria apenas um beijo, nada demais.

Tal como Ana já havia deixado claro: beijar era igual para todas as situações.

Mas, dentro de mim, a novidade que se aproximava causou insônia e ansiedade, trazendo receio de fazer alguma coisa errada, como se eu nunca tivesse beijado antes.

O primeiro beijo da minha vida acontecera de forma despretensiosa, durante uma brincadeira e, quando dei por mim, estava lá, com a língua do rapaz dentro da minha boca, e me perguntando como ninguém achava aquele momento nojento e repleto de bactérias.

Obviamente, quando entendi o que eu tinha de fazer e como de fato funcionava o beijo, foi uma descoberta agradável e que deu vontade de sair distribuindo ósculos.

Não fiquei nervosa além do considerado normal; não perdi noites de sono por isso. Foi um acontecimento que agregou espaço na vida e se fez rotineiro, no sentido de não ter nenhum “porém” acerca.

– Então, na hora do intervalo, me espera. Vamo resolver aquele negócio. –  Ela virou para trás, pois estava sentada na mesa da frente, falando como se estivéssemos combinando de ir comprar um biscoito na lojinha.

Eu imaginava que demoraria até esse dia chegar e não que uns dias após ao conversado seria o fatídico; achava até que ela tinha esquecido.

– Tá. – Sorri um sorriso nervoso, tentando não demonstrar.

Se ela fazia parecer tão normal, eu também tinha de fingir ser tão normal.

Nos desvencilhamos das meninas com as quais passávamos o recreio – comendo sentadas nas escadas, conversando sobre o mundo nos quinze minutos de intervalo que nos era disponibilizado entre as aulas – e fomos.

O colégio se situava na área central da cidade e pertencia a um edifício comercial. Os primeiros andares correspondiam às salas de aula, e os outros eram instituições privadas, consultórios e afins.

Naquela época, as câmeras de segurança não eram tão frequentes como hoje em dia; a verificação constante como em um reality show era rara e apenas existia nas áreas comuns, como portas de elevadores e partes de áreas proibidas ao público.

Eu tremia.

Eu estava sem jeito.

Ela explicou para as colegas que iríamos em algum local aleatório fazer algo mais aleatório ainda, do qual não houve questionamento nem interesse em ir juntas.

Ela pegou meu braço, subimos as escadas.

Chegamos ao oitavo andar, onde todas as portas de clínicas se encontravam fechadas e com horários de abertura para além daquele.

Eu não sabia o que fazer.

Ela me conduziu até o final do corredor, distante da escada e do elevador, encostou na parede, e sorriu um sorriso de quem estava se divertindo com a situação.

– Vem cá.

Ela me puxou para si e o beijo aconteceu.

Nossas bocas se encaixaram perfeitamente em um beijo suave, mas intenso. Devagar, mas com vontade.

Uma mão dela percorreu minha nuca e afagou meus cabelos e a outra foi para minhas costas, me fazendo aproximar ainda mais.

Eu sentia minhas pernas bambas e tinha a sensação de que, se ela me soltasse, eu cairia.

Reproduzi seus gestos, porque estava nervosa demais para raciocinar e fazer o que quer que fosse que eu fizesse normalmente ao beijar alguém.

Nós tínhamos praticamente a mesma altura, então não havia necessidade de ficar na ponta do pé, levantar ou abaixar a cabeça – e era muito mais confortável assim.

Percebi o seu perfume, que antes nunca tinha notado, e que adentrou pelo meu olfato como uma sinfonia tocada por uma orquestra maravilhosa.

Seus lábios eram macios assim como sua pele – que percebi também quando nossos rostos se roçaram.

O beijo não deve ter durado muitos minutos; afinal, tínhamos que retornar. Mas para mim, pareceu a eternidade mais feliz que eu tinha vivenciado em muito tempo.

Voltamos como se nada tivesse acontecido. Em mim, a voz interior de aclamação aquele momento era música.

Eu não conseguia prestar atenção na aula; não conseguia sequer pensar em mais nada. Na mente, apenas as imagens que se repetiam do que eu tinha passado há pouco, trazendo a sensação de êxtase e até uma pitada de delírio, quase incredulidade, de que tinha realmente acontecido.

“E aí? Vc tá bem? ” – Ela me passou um bilhete em um pedaço de papel amassado.

Eu estava ótima, e, se havia um paraíso, eu tinha estado por lá.

“Sim, tudo bem”. – respondi. Ela retornou o bilhete: “Vc matou a curiosidade? ”.

Não só tinha matado a curiosidade, mas gostado de tal forma que era impossível explicar. – “Sim, matei. Eu gostei bastante”, devolvi

Havia um receio em colocar adjetivos demais e fazê-la perceber que o bastante era bem mais do que se dizia. O papel volta para mim: “Então, pra confirmar se vc gosta de menina mesmo, tem que bjar outras meninas agora.”

E voltou o pesadelo da dúvida que corroía meu ser: eu continuava gostando de meninos; como poderia ser lésbica se existia esse detalhe? Como eu poderia gostar de ambos ao mesmo tempo? De volta para ela: “Acho que vai ser difícil beijar outras meninas, mas é verdade”.

O que eu queria era beijá-la novamente.

Como era terrível ter que passar por tanta dor de descobrir o caminho da atração sem ter embasamento que ajudasse no meio de amenizar minhas dúvidas!

Se eu tivesse alguém para explicar, ou se houvessem meios que explicassem que meus desejos não precisavam ser limitados a um gênero apenas, tudo seria tão mais simples!

Se, naquela época, se falasse mais sobre sexualidade, e as pessoas também entendessem que existiam realmente pessoas que gostam dos outros sem se ater a gênero, meu sofrimento teria sido bem menor – não somente o meu, mas de todos aqueles que foram invisibilizados na sua sexualidade (e ainda são, devido a estrutura de muitos não acreditar na forma mais ampla de interesses amorosos).

Eu estava tentando me encaixar em um rótulo que não me pertencia, porque era extremamente limitante ter uma definição, principalmente naquele instante de descoberta.


Barbara Pippa é nascida em Juiz de Fora, participante em antologias de poemas e contos. Acredita em astrologia e muda o cabelo de acordo com o humor.



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