Entre pães e opiniães, insetos e aviões

As perguntas são a matéria-prima de todo o pensamento filosófico e conhecimento humano – em tese.

Todavia, algumas perguntas não buscam de fato verdades, mas autoafirmação de seus pressupostos.

“Por que não houve grandes mulheres artistas?” é um exemplo deste tipo de pergunta que não acrescenta busca de conhecimento, mas tão somente impõe uma perspectiva. Ela em si já contém uma afirmação: pressupõem uma não existência.

Afirmar que não houve, em pelo menos 3000 anos de história, nenhuma grande mulher artista é, automaticamente, afirmar domínio de um enorme conhecimento a respeito de todos os feitos artísticos produzidos por mulheres nesse imenso período de tempo e, claro, afirmar domínio de uma enorme prepotência também.

Se livrando de prepotências e pressupostos, tal questão pode se esfacelar em diversas outras questões e evidenciar os estilhaços causados pela problemática de uma sociedade patriarcal e racista.

Pois então vamos aos esfacelamentos primordiais:

  1. Quem pode ou não ser considerado artista? Quem faz arte? E quem considera o que é e o que não é arte? Na perspectiva de Hitler, Picasso era um degenerado e as vanguardas também.
  2. O que pode ser considerado grandioso? O que é grande? Para ser grande deve-se ser aos moldes de David de Michelangelo? Etmologicamente a palavra monumento, que vem do latim monumēntum, significa o que traz à memória, o que se é lembrado; algo monumental não está associado necessariamente à escala. Na perspectiva de Manoel de Barros, insetos são mais importantes que aviões, e a importância de uma coisa há de ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.

Há muita perspectiva e subjetividade envolvida em todos esses conceitos, como diz Guimarães : “Pão ou pães é questão de opiniães”.

No entanto, há evidentemente uma discrepância entre o número de artistas mulheres e artistas homens estudados nas escolas, reconhecidos na história. Mas isso não se aplica somente ao universo artístico, somente ao gênero, mas também à etnia, à cor, à classe. A pergunta então ganha outros contornos: Em vez de “Por que não houve”, Por que não estudamos/conhecemos?

Talvez seja porque esses grupos, por diversos séculos, foram privados de inúmeros direitos, foram silenciados, anulados, ofuscados; estavam exercendo durante toda sua vida tarefas sociais impostas, em uma configuração social de privilégios imposta; Talvez seja porque as bases da sociedade em que vivemos se ergueu na exploração, na escravização e no patriarcalismo. Talvez.

Talvez houve sim, só não houve de acordo com certas perspectivas, de acordo com certas opiniães.


Nathaly Rocha é mineira de berço e guarulhense de coração. É artista desde sempre. Atualmente, cursa Artes Visuais na UNESP.



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